O dia em que a mãe de Sócrates ficou "depenadinha"

Ministério Público diz que ex-primeiro-ministro falava em código ao telefone com os seus amigos e com a família, a quem proibia de usar a palavra dinheiro.

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Adelaide Monteiro, mãe de José Sócrates, em Fevereiro de 2004 Sérgio Lemos/Correio da Manhã

Apesar de toda a aparência de fausto que perpassa pela descrição que o Ministério Público faz do estilo de vida do ex-primeiro-ministro José Sócrates, com dezenas de milhares de euros gastos em arte, viagens e hotéis, também havia momentos em que o dinheiro lhe escasseava – a ele e às pessoas que protegia, família incluída.

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Apesar de toda a aparência de fausto que perpassa pela descrição que o Ministério Público faz do estilo de vida do ex-primeiro-ministro José Sócrates, com dezenas de milhares de euros gastos em arte, viagens e hotéis, também havia momentos em que o dinheiro lhe escasseava – a ele e às pessoas que protegia, família incluída.

Porém, explicam no despacho de acusação os procuradores que investigaram o caso, como todos estavam proibidos por José Sócrates de lhe falarem de dinheiro ao telefone recorriam a subterfúgios vários quando precisavam de lhe pedir ajuda financeira. Estes rodeios, a que o Ministério Público chama linguagem cifrada, chegavam ao ponto de deixarem de se conseguir fazer entender. Foi o que sucedeu nas vésperas da Primavera de 2014, ainda ninguém, à excepção dos investigadores, suspeitavam do antigo governante. Para o filho perceber que necessitava de financiamento para as suas despesas quotidianas, a progenitora de José Sócrates ligou-lhe a dizer que estava “depenadinha”.  Mas o antigo governante socialista não chegava lá, ou fazia-se desentendido. Ela bem insistia, e nada. “Só a compreendeu quando ela lhe referiu que estava sem penas”, pode ler-se na acusação.

Adelaide Monteiro não era, porém, a única pessoa que dependia do generoso financiamento do ex-primeiro-ministro. Várias outras mulheres, incluindo a sua ex-esposa e ainda aquela que se mantém neste momento como sua namorada receberam avultadas quantias de dinheiro – mesmo durante o período de mais de um ano durante o qual José Sócrates não teve qualquer emprego conhecido, entre deixar de ser primeiro-ministro e ser contratado pela farmacêutica Octapharma.

O despacho de acusação é discreto no que toca às razões pelas quais o antigo líder socialista sustentava ou ajudava a sustentar certas amigas, como uma emigrante residente na Suiça, Sandra  Santos, cujas viagens a Portugal custeava com frequência. “De 2008 a 2014 deslocou-se diversas vezes a Portugal e a Paris, para se encontrar com o arguido, por iniciativa e solicitação deste”, descreve o documento. Sócrates pagou-lhe cem mil euros neste período, contabilizam os investigadores, montante que não inclui as passagens aéreas. Umas vezes para se encontrar só com ele, outras para estar com ele e com aquela que é hoje a sua namorada. Sandra Santos chegou a ficar instalada do Sheraton Pine Cliffs, no Algarve, unidade hoteleira onde durante o ano de 2006 o ex-primeiro-ministro despendeu, segundo o Ministério Público, perto de 25 mil euros. Outra destas amigas era Célia Tavares, a quem o arguido fazia chegar dinheiro através do seu motorista, João Perna. De uma das vezes disse-lhe que era para comprar quatro garrafas de vinho para um jantar – o que não teria despertado a atenção dos procuradores, não se desse o caso de ter acrescentado que lhas fizesse chegar num envelope fechado. Apesar de não haver, no despacho de acusação, menção ao uso de estupefacientes os procuradores desconfiam que isso sucederia de facto.

Da linguagem cifrada que o Ministério Público acusa Sócrates e os amigos de usarem fazem ainda parte expressões como “aquela coisa de que eu gosto”, “fotocópias”, “aquela coisa”, “um envelopezinho” ou ”testes do explicador do Duda ”. Tudo, supostamente, referências ao dinheiro depositado na Suíça - proveniente dos subornos que supostamente tinha recebido para favorecer os interesses do grupo Lena e do grupo Espírito Santo -, que havia de fazer um longo circuito até voltar a entrar em contas bancárias portuguesas em nome do empresário Carlos Santos Silva.  

Ainda de acordo com a tese da acusação, foram verbas usadas também para custear por exemplo a compra do apartamento de Paris por 2,8 milhões de euros, no qual mandou fazer obras orçamentadas em mais de 300 mil. “José Sócrates proibiu os filhos de falarem ao telefone sobre a utilização e destino do imóvel”, garante o Ministério Público. A estadia em Paris do filho do seu antigo ministro e amigo Pedro Silva Pereira foi igualmente oferecida por Sócrates, concluíram os procuradores, que dedicaram ainda parte dos seus esforços a analisar as incursões do arguido no mundo da arte. Eduardo Batarda, Almada Negreiros e Silva Porto foram alguns dos nomes que o ex-líder do PS comprou, através da galeria Antiks Design, situada em Lisboa. Um óleo de Júlio Pomar intitulado Salomé, que pendurou no apartamento que tinha na Rua Braancamp, custou-lhe 50 mil euros.

As viagens foram outro aspecto que despertou a curiosidade do Ministério Público. As que foram realizadas por José Sócrates e respectivos acompanhantes entre 2008 e 2009 a Menorca e Itália custaram 85 mil euros, mas “o arguido não dispunha, neste período, de saldo disponível na sua conta da Caixa Geral de Depósitos para suportar o seu pagamento”. Mais: “Tiveram um custo superior ao salario por ele auferido no decurso de todo o ano de 2008, que foi de 69.835 euros”.

O arguido sempre alegou que todo o dinheiro pertencia ao amigo Carlos Santos Silva, que lho emprestou para que pudesse fazer uma vida desafogada.