António de Macedo (1931-2017): morreu o realizador de todas as surpresas

Revelado durante o Cinema Novo mas ultimamente esquecido, o cineasta tinha 86 anos e era mais recordado pelas polémicas de As Horas de Maria ou Os Abismos da Meia-Noite.

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António de Macedo DR

O realizador António de Macedo, revelado nos tempos do Cinema Novo com a sua adaptação de Domingo à Tarde de Fernando Namora mas que se tornou no correr dos anos no único cineasta português a trabalhar regularmente na área do cinema de género, morreu esta quinta-feira ao início da tarde. A sua morte, comunicada pela família à agência Lusa, surge num momento em que a sua obra se tornara alvo de reavaliação, muito por acção do festival lisboeta MOTELX, que recuperou vários filmes do realizador. João Monteiro, um dos seus directores, esteve vários anos a trabalhar num documentário biográfico, Nos Interstícios da Realidade, que começou por uma campanha de financiamento online e teve estreia faz agora precisamente um ano no Doclisboa, devendo chegar em breve às salas.

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O realizador António de Macedo, revelado nos tempos do Cinema Novo com a sua adaptação de Domingo à Tarde de Fernando Namora mas que se tornou no correr dos anos no único cineasta português a trabalhar regularmente na área do cinema de género, morreu esta quinta-feira ao início da tarde. A sua morte, comunicada pela família à agência Lusa, surge num momento em que a sua obra se tornara alvo de reavaliação, muito por acção do festival lisboeta MOTELX, que recuperou vários filmes do realizador. João Monteiro, um dos seus directores, esteve vários anos a trabalhar num documentário biográfico, Nos Interstícios da Realidade, que começou por uma campanha de financiamento online e teve estreia faz agora precisamente um ano no Doclisboa, devendo chegar em breve às salas.

Macedo, que tinha 86 anos, assinou em 1993 a última das suas 11 longas-metragens de ficção, Chá Forte com Limão, e em 1996 o seu último filme, o documentário Santo António de Todo o Mundo. Nas últimas décadas preferiu dedicar-se à escrita, com uma dezena de títulos publicados desde 1992.

Se o seu nome era hoje recordado maioritariamente pelos estudiosos e investigadores do cinema português, nem sempre foi assim. Fez parte da geração fundadora do Cinema Novo no início da década de 1960: a sua primeira longa, Domingo à Tarde (1965), produzida por António da Cunha Telles, foi um dos filmes-bandeira do movimento, e A Promessa (1973), baseado na peça homónima de Bernardo Santareno, esteve na competição principal de Cannes. Mas Macedo nunca foi um cineasta “consensual” nem unânime. Nojo aos Cães, rodado em 1970 com o Grupo Cénico da Faculdade de Direito, foi interditado de exibição comercial pelo regime, e mesmo depois do 25 de Abril os seus filmes ficarão eternamente ligados a polémicas mediáticas. O Princípio da Sabedoria (1975) nunca teve estreia comercial; As Horas de Maria (1979) teve a sua estreia condenada pela Igreja Católica e por segmentos mais conservadores que achavam o filme blasfemo – com direito até a violência à porta do cinema Nimas. E, em 1984, Os Abismos da Meia-Noite, a sua primeira longa abertamente fantástica, gerou sururu por Helena Isabel e Rui Mendes surgirem nus por breves instantes.

Um dos raríssimos casos nacionais de um cineasta interessado em explorar o cinema de género – a sua segunda longa, Sete Balas para Selma (1967), era já uma experiência no filme de espionagem –, Macedo ficaria indelevelmente ligado ao cinema fantástico a partir da década de 1980, a seguir à fantasia do Príncipe com Orelhas de Burro (1980), baseado em José Régio. Os Abismos da Meia-Noite, Os Emissários de Khalom (1988) e A Maldição do Marialva (1991) exploravam abertamente o fantástico. Um último filme nessa senda ficaria como o último trabalho do cineasta: O Segredo das Pedras Vivas (2016),  remontagem para cinema da série televisiva O Altar dos Holocaustos (1991).

António de Macedo era pai da documentarista Susana de Sousa Dias (48) e do músico António de Sousa Dias, que compôs várias bandas-sonoras para os seus filmes.