O império com pés de barro

Stephen Frears torna a história verídica da amizade entre a rainha Vitória e um criado indiano numa desmontagem metódica do filme de época e do imperialismo inglês.

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Vitória e Abdul: Stephen Frears a recapturar algo do seu perigo

Nos últimos anos do seu reinado, a rainha Vitória de Inglaterra teve uma profunda amizade com Abdul Karim, um criado indiano, muçulmano, que um acaso diplomático lhe colocou à frente e que se tornou um confidente e um apoio moral até à sua morte em 1901, perante o desagrado da sua casa real e do príncipe de Gales. Nada poderia parecer menos interessante ou prometedor no papel, como se esta história não passasse da enésima reiteração do modelo britânico do heritage cinema, o filme de época impecavelmente reconstituído, cumprindo a quota anual do filme de prestígio dirigido aos Óscares.

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Nos últimos anos do seu reinado, a rainha Vitória de Inglaterra teve uma profunda amizade com Abdul Karim, um criado indiano, muçulmano, que um acaso diplomático lhe colocou à frente e que se tornou um confidente e um apoio moral até à sua morte em 1901, perante o desagrado da sua casa real e do príncipe de Gales. Nada poderia parecer menos interessante ou prometedor no papel, como se esta história não passasse da enésima reiteração do modelo britânico do heritage cinema, o filme de época impecavelmente reconstituído, cumprindo a quota anual do filme de prestígio dirigido aos Óscares.

A surpresa, por isso, é ainda maior: Stephen Frears tinha tido no ano passado com Florence, Uma Diva Fora de Tom (2016) o seu melhor filme em muito tempo, mas Vitória e Abdul é ainda melhor e aproxima-se perigosamente dos seus títulos de referência como A Rainha (2006), ou Ligações Perigosas (1988).

Vitória e Abdul respeita rigorosamente todo o “caderno de encargos” do filme de época, ao mesmo tempo que o desmantela metodicamente por dentro, revelando com particular prazer os podres da Grã-Bretanha imperial, colonial, de finais do século XIX. Porque é disso que se trata: do racismo institucionalizado contra o “outro”, da condescendência mal disfarçada para com os “incivilizados”, da convicção inexplicável da superioridade moral e racial da civilização britânica sobre os selvagens que, contudo, existiam muito antes deles.

É isso que faz o filme de Frears, mais incisivo no momento actual de “Brexit”, de refugiados e controvérsias raciais: é um cineasta a recaptar algo do perigo que sentíamos no seu cinema nos tempos da Minha Bela Lavandaria (1985) ou de Prick Up Your Ears (1987), mercê do guião de Lee Hall (Billy Elliott) e de um elenco impecável, com Judi Dench e Ali Fazal a deliciarem-se com todo o jogo de nuances, entre o maroto e o indignado, a que a câmara de Danny Cohen presta toda a atenção. Vitória e Abdul não descobre a pólvora. Mas não precisa: basta-lhe estar em forma e ter pontaria para acertar no alvo. E podem ter certeza de que acerta.

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