As canções que Norberto Lobo tocaria no sofá da sala

Na última apresentação pública da sua residência de três meses na Zé dos Bois, em Lisboa, Norberto Lobo apresenta em quarteto a música que deverá compor o seu próximo álbum.

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Assim como no sofá. Durante a residência na Zé dos Bois (ZdB), que termina oficialmente esta sexta-feira, Norberto Lobo tem ensaiado com Marco Franco, Ricardo Jacinto e Yaw Tembe para tentar chegar a esse ponto em que a música possa ser partilhada como se cada um dos músicos estivesse instalado no sofá de sua casa, a tocar de forma despreocupada, no mais puro estado de prazer passível de reproduzir num palco. É isso que Norberto quer para o reportório que tem vindo a desenvolver em quarteto, 13 canções em estado dengoso, letárgico, a pedir uma escuta igualmente distendida e desapressada.

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Assim como no sofá. Durante a residência na Zé dos Bois (ZdB), que termina oficialmente esta sexta-feira, Norberto Lobo tem ensaiado com Marco Franco, Ricardo Jacinto e Yaw Tembe para tentar chegar a esse ponto em que a música possa ser partilhada como se cada um dos músicos estivesse instalado no sofá de sua casa, a tocar de forma despreocupada, no mais puro estado de prazer passível de reproduzir num palco. É isso que Norberto quer para o reportório que tem vindo a desenvolver em quarteto, 13 canções em estado dengoso, letárgico, a pedir uma escuta igualmente distendida e desapressada.

Inspirado pelas anteriores residências de Gabriel Ferrandini e Filipe Felizardo, Norberto Lobo propôs basear nas instalações da sala lisboeta os trabalhos de preparação para o seu sétimo álbum em nome próprio, sucessor de Muxama (2016). A novidade é que, até agora, a sua assinatura correspondia sempre a álbuns de guitarra solo – mesmo que contando com participações de Sei Miguel ou Luís Martins. Com João Lobo, o seu cúmplice mais frequente, os créditos pertenciam ao duo ou ao colectivo Oba Loba (que de duo alargado passou a uma dinâmica de ensemble mais desenvolvida, com o pianista Giovanni Di Domenico a assumir um papel mais nuclear no segundo álbum do projecto, Sir Robert Williams, acabado de lançar).

“Tinha uma ideia muito específica e estava a trabalhar em material para trio ou quarteto e tinha estes músicos em mente”, conta o guitarrista ao PÚBLICO acerca do projecto que se propôs desenvolver. “E o facto de nos podermos encontrar na ZdB todos os dias durante uma semana ou duas faz com que a música avance de uma maneira exponencial. Esta maneira quotidiana de trabalhar é a melhor possível. Os músicos precisam de um sítio para trabalhar e que nem sempre é fácil de conseguir porque eu não posso ter uma bateria em casa a bombar. Ou então é caro.” E ri-se de pensar o quanto as condições de ensaio podem, na verdade, moldar a música que faz. “Acho que a minha música é baixinha porque ensaio em casa e não posso chatear os vizinhos às três da manhã. Então aprendi a tocar baixinho.”

Aquilo que a Zé dos Bois oferece a Norberto é, por isso, um espaço para desenvolvimento de ideias de que não disporia habitualmente, com o músico a partilhar em público esse processo através de três concertos que pontuam a residência. Os dois primeiros aconteceram em Março e Abril, em trio, na companhia da bateria de Marco Franco e do violoncelo de Ricardo Jacinto. Esta sexta, no último capítulo deste processo antes de registarem em estúdio estas composições, passam a quarteto com a presença da trompete de bolso de Yaw Tembe.

Sem premeditar cada novo passo como continuação ou ruptura com aquilo que fez antes, Norberto recusa qualquer “necessidade de quebrar radicalmente com o que quer que seja” e a questão de se apresentar agora em trio/quarteto prende-se sobretudo com a presença fantasma destes instrumentos e destes músicos na música que lhe saiu da guitarra eléctrica nos últimos tempos. As notas espaçadas da guitarra sugeriam-lhe a convocação de outros elementos, que antecipava já na linguagem de cada um destes músicos específicos.

E por muito que ouvisse já na sua cabeça a forma como cada um deles ocuparia um lugar naqueles temas, Norberto Lobo queria também partilhar aquele material para que sugerissem arranjos e soluções. “Também é isso que procuro”, reconhece. “Quero deixar que todos eles me envenenem, com um bom veneno, e tragam o seu input porque eles têm ideias melhores do que eu. Isto é só um pretexto para tocarmos juntos.” A beleza da música de Norberto Lobo sempre assentou nisto: disposições simples, pegar nos instrumentos e deixar acontecer.