A vida das clarissas em Coimbra, contada pelos seus restos mortais

Exposição de arqueologia inédita em Santa Clara-a-Velha revela, até 18 de Setembro, estilo de vida das freiras que ali foram sepultadas.

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Problemas na dentição, falta de exposição solar e dieta rica em açúcares. Os ossos das antigas habitantes do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, e as doenças de que padeciam ajudam a retratar melhor o regime de clausura em que as freiras clarissas viviam. 

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Problemas na dentição, falta de exposição solar e dieta rica em açúcares. Os ossos das antigas habitantes do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, e as doenças de que padeciam ajudam a retratar melhor o regime de clausura em que as freiras clarissas viviam. 

Uma exposição recupera os restos mortais encontrados na escavação feita em 1996 e 97 pelo então departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, sob a coordenação da investigadora Eugénia Cunha, para completar a informação da exposição permanente.

Na primeira vez que as ossadas exumadas há vinte anos vêm a público, atrás das vitrinas apenas se encontra um esqueleto inteiro. “A opção foi por poucas peças” para “contar as histórias mais relevantes”, justifica ao PÚBLICO Eugénia Cunha, curadora da exposição juntamente com Francisco Curate.

Ainda assim, os restantes ossos expostos contam a história das doenças que assolavam as clarissas, desde a osteoporose aos múltiplos prolemas dentários. É através dessas patologias que é possível inferir o modo de vida daquela comunidade.

A exposição, que abriu ao público em Maio, cerca de três meses depois da segunda cheia do ano que afectou o monumento, encerra a 18 de Setembro. Resulta de uma selecção de alguns dos cerca de 70 cadáveres exumados das ruínas do mosteiro. Até o edifício localizado na margem esquerda do Mondego ser abandonado no século XVII devido à constante invasão das águas do rio, as religiosas viviam e morriam ali.

O tipo de sepultura é, por si, um indicador de posição. Com excepção das figuras de relevo do mosteiro, a maioria dos enterros foi feito em caixão ou directamente no solo, em covachas. Dessas, todas as sepulturas não identificadas foram feitas na zona do coro, no interior do mosteiro. No claustro, onde foram encontradas menos ossadas, algumas tinham elementos de identificação.

A partir do estudo antropológico dos esqueletos foi possível perceber que o tempo dedicado à oração era origem de problemas físicos. As religiosas tinham lesões nos joelhos, o que “pode ser associado a traumatismos de repetição” causadas pela genuflexão, explica Eugénia Cunha. Nos ossos da comunidade, que estava entre os 40 e os 50 anos, foram ainda encontradas lesões nos ombros, normais em pessoas de idade avançada.

Entre tártaro, cáries e edentulismo (que significa a queda total dos dentes), a maior surpresa foi a férula dentária em ouro encontrada numa freira com mais de trinta anos. O pequeno instrumento visava impedir a queda do dente, segurando-o a outro. A importância deste achado explica-se com o facto de não haver na Coimbra do XV registo de dentistas. “É por isso, em termos científicos, um dado muito importante”, sublinha Eugénia Cunha que avança também que a origem dos problemas na dentição pode ser encontrada na “dieta muito rica em açúcares”.

Entre os ossos recuperados, encontram-se ainda três esqueletos de crianças. Pelo  fémur, o crânio e a dentição mista, percebe-se que tinham idades parecidas, cerca de 11 anos. Com as sepulturas anónimas, não é possível apontar ao certo uma razão para terem sido enterradas num mosteiro habitado por clarissas. Seriam parentes de alguma freira? Teriam sido tratadas na enfermaria do mosteiro?  Existiria ali uma roda dos expostos, que permitiria acolher crianças abandonadas, mas da qual não há registos? Eugénia Cunha levanta hipóreses. Certezas, nenhuma.

Artefactos religiosos e não só

Mas a exposição instalada no núcleo museológico inaugurado em 2009 não se fica apenas pelos restos mortais. Nas escavações dos anos 1990 foram também recuperados objectos que completam o retrato sobre a comunidade que ali viveu.

Alguns dos achados permitem questionar o voto de pobreza que as clarissas faziam ao entrar para o mosteiro. Na mesma sepultura onde foi encontrada a férula dentária em ouro, foram também encontrados brincos no mesmo material. “Seria uma viúva que já entrou com tudo isso? É uma possibilidade”, sugere a antropóloga.

Vários objectos pessoais de cariz ornamental foram igualmente recolhidos nas sepulturas. Como contas de um colar em azeviche, e, para além de brincos de ouro, outros em prata. Junto das defuntas foram recuperados igualmente objectos religiosos como rosários, cruzes e medalhas com representações e motivos cristãos, para além de fragmentos de cordões dos hábitos.

O vestuário era a causa de um problema de saúde a acrescentar à lista das doenças ósseas e na dentição. Ao apenas mostrar a cara, o hábito reduzia a exposição solar, o que fazia com que as clarissas sofressem de falta de vitamina D.

Outros artefactos, como tesouras, dedais, selos, moedas, remetem para as ocupações da vida em clausura.

Se pelo meio houve descobertas para as quais não se consegue encontrar uma resposta definitiva, os ossos das clarissas confirmam “aquela ideia que temos de clausura: rezar muito, cozinhar muito, comunicar pelo silêncio”, afirma a também consultora Nacional para a Antropologia Forense do Instituto Nacional de Medicina Legal.