Em Arouca, cada vez que uma frente de fogo acalma, o vento faz acender outra

Não há vítimas nem casas destruídas, mas o incêndio esteve à porta de muitas e cercou a aldeia. Chegou “num instante” junto às moradias, depois de dois dias a lavrar na floresta.

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Em Moldes, no concelho de Arouca, pouco ou nada se dorme, ninguém ousa abandonar o local e os moradores combatem na fila da frente cada vez que o fogo se estica. A floresta, essa, controla-se à distância.

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Em Moldes, no concelho de Arouca, pouco ou nada se dorme, ninguém ousa abandonar o local e os moradores combatem na fila da frente cada vez que o fogo se estica. A floresta, essa, controla-se à distância.

Junto à encosta em chamas, a preparação para as festas da aldeia não pára. Ao longo da estrada que atravessa a povoação, onde o fogo se desenvolvia de ambos os lados, dois homens sobem e descem as escadas para colocar os efeitos luminosos nos postes em honra de Nossa Senhora de Fátima. Um pequeno gesto de optimismo — “a boa nova das festas” — numa tarde em que o céu escureceu mais cedo.

So esta aparente normalidade, a vida de dezenas de pessoas está em suspenso desde segunda-feira, quando o fogo deflagrou na encosta em frente às suas casas, ainda na outra margem do Rio Paivó. Na aldeia, está ainda bem viva a memória do incêndio que, há 11 anos, cercou o perímetro do casario. “Esse sim, foi dantesco! Tudo que se via estava em chamas” comentava, ao início da tarde um morador que recusou identificar-se. Ele que parecia calmo com a esperança que o vento não se virasse contra ele, contra os seus e contra as casas. Mas virou. Eram quase 15h00 quando o vento mudou de sentido e galgou a grande velocidade, apanhando de surpresa moradores e bombeiros. “Foi muito rápido, foi por um triz”. A dona da casa que estivera às mãos das labaredas limpa o suor da testa: “Por um triz, ai se foi por um triz.”

Ao início da tarde, dois meios aéreos ajudavam a combater a frente de fogo que havia de chegar a Moldes. Agora, o combate é exclusivamente feito por terra. Estão cá os bombeiros de Arouca, São João da Madeira, Esmoriz, Vila Nova de Oliveirinha, Penacova e Soure. Outros vieram até do Alentejo, de Monsaraz, Montemor-o-Novo e Arraiolos. Grande parte destes homens passou os últimos dias no combate aos fogos no norte do país. Às 20h30 desta quarta-feira, eram 193 operacionais no terreno, apoiados por 54 veículos e alguns funcionários da Câmara de Arouca.

Os homens, ora combatem o fogo que desce, ora o que sobe, ao comando do vento. Aqui os bombeiros e os moradores mandam pouco, num incêndio que insiste em criar novas frentes quando outras se extinguem. “Deve ter sido uma projecção”, grita um deles, em alerta para a nova frente que caminha para a estrada.

Apesar do cenário controlado durante a manhã, em que se via ao longe o avanço tímido das chamas, durante mais de uma hora a aldeia viveu debaixo uma nuvem cinzenta e laranja. No desespero de perder a casa para o fogo, os donos das casas ficaram entre o fumo denso. Desde a manhã, as mangueiras estavam a postos e os corações nas mãos. E as árvores próximas já tinham sido cortadas para proteger as casas.

Por muita que fosse a pressa dos moradores, os bombeiros mantiveram a calma e a situação sob controlo. “Com calma, que a exaustão chega depressa”, gritou um dos operacionais. No caminho, mais corporações partem para ajudar no combate às chamas. Desta vez, chegam de Vila Viçosa, do Redondo e de Reguengos de Monsaraz.

Já ninguém sabe como avança este incêndio

A mais de 50 km de Arouca, na auto-estrada do Norte (A1) já se lia o alerta de vento forte. Desde Espinho até à cidade onde lavram dois dos maiores incêndios dos últimos dias, o céu tornara-se cinzento, reflectindo por vezes o laranja das chamas.

O fogo fustigava o vale do rio Paivó, um afluente do Paiva, desde segunda-feira, até que na madrugada desta quarta tudo parecia ter acabado. “Ontem à noite foi massacre. Mas às 4h00 da manhã o fogo baixou de repente. Então nós achamos que às 8h00 da manhã os helicópteros vinham cá e apagavam o que restava.” E então podiam ir descansar. “Mas não, o helicóptero passou aqui, deu duas voltas e nem deitou água. Foi-se embora para outra frente.” Não passaram muitas horas até que as labaredas voltassem.

De manhã, para o morador que se escusou a revelar o nome, “a sorte foi o vento.” Tudo parecia controlado. Já durante a tarde, o optimismo varreu-se da cara deste morador. Ouvem-se gritos de alerta para os bombeiros, que chegam de todos os lados. Todos têm uma casa para proteger e um fogo à porta. Por isso juntam-se familiares e amigos, muitos que chegam de longe, para ajudar no combate.

“Lá se vão as nossas abelhas”, lá se foi o alívio. António e Eduardo, dois irmãos que gerem um apiário, como muitos na aldeia, na encosta por onde as chamas passaram, fazem o balanço do prejuízo. “Estão ali uns 2500 euros”, assegurava um deles.

“Vamos pôr isto prontinho que isto vai doer.” Na aldeia, começava a recear-se a repetição do “inferno” de há 11 anos. As mangueiras estavam todas a postos, sabendo que, numa batalha desigual, se luta com o que se tem. As carrinhas carregam reservatórios de águas, outros atrelados em tractores, enchem-se as piscinas dos mais pequenos e os baldes. Há quem ande mesmo com o regador na mão e nota-se que todos se vestem preparados para enfrentar o pior.

Vários moradores regam as paredes das casas, a vegetação e os carros. Tudo é feito com mais afinco, à medida o fumo se adensa. E quando uns puxam as mangueiras, a força de duas mulheres está no espírito, ao distribuírem leite pelos que precisem.

Depois de 2005, “nada mudou”

Mesmo após o incêndio que fustigou a pequena aldeia em 2005, “nada mudou, não foi feito nada de ordenamento do território”. E “limpeza? Zero”, conta Joaquim Pereira. Outro dos moradores, José Eduardo Cruz, concorda: “É o Estado que a gente tem que não obriga à limpeza. Obriga, mas ninguém vem ver se o trabalho está feito.” Queixam-se que os proprietários abandonam os terrenos e só os mantêm para que “as árvores cresçam, sejam cortadas e vendidas.”

Já Pedro Martins acredita que a limpeza das matas é impossível. “Manter os estradões limpos isso é que era essencial. Se toda a gente roçar os matos onde é que as abelhas comem? Nós temos a fauna e a flora, se vamos cuidar de uma coisa estamos a estragar a outra”, acredita este morador.

O morador que insiste em proteger a sua identidade suporta a tese de que “isto é tudo interesses económicos e políticos”, referindo-se às empresas privadas de meios aéreos de combate a incêndio que acusa de terem “interesse que isto aconteça.”

Às dificuldades de acesso à serra — onde em muitos percursos estreitos só passa um carro — junta-se a falta de bocas-de-incêndio nas proximidades. Para os Bombeiros Voluntários de Arraiolos a solução passou por encher o tanque no rio da aldeia. “O abastecimento estava longe, então optamos por abastecer por meios próprios”, explica Gonçalo Lopes, subchefe da corporação. Por isto entenda-se: um dos bombeiros lançou-se à água e puxou as mangueiras para encher o depósito.

Estes bombeiros saíram do Alentejo no domingo e ainda não se sabe quando voltam. “Estivemos em Ourique e viemos na segunda-feira para Águeda”, conta o subchefe. Estão desde a madrugada desta quarta-feira a combater o fogo em Arouca, a quase 400 km de casa.

Por volta das 17h, as múltiplas frentes de fogo acabaram por acalmar perto das casas. Concentram-se na floresta e vão conquistando terreno a caminho das aldeias vizinhas. Pela estrada sinuosa até Arouca, há muitos curiosos parados na berma da estrada, perplexos e imóveis, a esperar que o fogo chegue. Nas serras de Arouca, há dias que é assim: tarde ou cedo, o fogo continua a chegar.

Texto editado por Manuel Carvalho