A poesia das imagens e as imagens da poesia

Não se podia desejar uma abertura mais arrojada para Locarno 2016: dois ensaios de base documental sobre poetas da imagem, Jonas Mekas, e das palavras, Sophia e Jorge de Sena, que falam um ao outro.

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É a voz encantatória de Jonas Mekas que conduz I Had Nowhere to Go

“Sou um poeta. A vossa guerra não tem nada a ver comigo. Quem minimizar o meu patriotismo por causa disso pode bem ir para o inferno.”

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“Sou um poeta. A vossa guerra não tem nada a ver comigo. Quem minimizar o meu patriotismo por causa disso pode bem ir para o inferno.”

As palavras de Jonas Mekas ouvidas desde o ecrã do Teatro de Locarno são um bom lema para aquilo que o Festival de Locarno é: uma espécie de cantinho-refúgio para um cinema que insiste em desafiar convenções e correr riscos. A edição 69 pode ter tido abertura oficial na noite de quarta-feira com The Girl with All the Gifts, adaptação de um best-seller (mais um) sobre uma terra pós-apocalíptica devastada pelos mortos-vivos (só que com um arzinho de prémio de consolação, sem o star power nem o cachet que Hollywood tem). Mas é nas secções competitivas que se joga a reputação do festival, e o primeiro dia de projecções trouxe dois filmes que sublinham os riscos que aqui se correm. Ainda por cima, um deles é português.

Na competição oficial, Correspondências, de Rita Azevedo Gomes, encena a correspondência de 20 anos entre Sophia de Mello Breyner Andresen, poetisa que ficou no Portugal cinzento salazarista onde tudo se percebia nas entrelinhas, e Jorge de Sena, escritor auto-exilado, primeiro no Brasil e depois nos EUA, em busca de uma liberdade que também acabaria por sentir escapar-lhe entre as mãos. No concurso Cineastas do Presente, I Had Nowhere to Go, de Douglas Gordon, pega no diário de Jonas Mekas, figura maior do cinema independente e vanguardista norte-americano do pós-guerra, para dar voz e alma às experiências do lituano como desalojado durante a Segunda Guerra Mundial e após a sua emigração para os EUA.

À falta de melhor descrição, chamemos-lhes filmes-ensaio, ou “não-ficção”. Não são documentários no sentido tradicional do termo, embora também não sejam narrativas ficcionais. São construções audiovisuais extremamente trabalhadas, em que imagem, som, ideia, concretização, espaço, presença, ausência trabalham em conjunto para retratar os seus sujeitos.

No caso de I Had Nowhere to Go, dá-se o caso de o retratado ainda estar vivo (e até presente em Locarno, aonde veio acompanhar a estreia mundial do filme e apresentar em complemento uma projecção do seu magnum opus, Walden). Talvez porque Mekas passou a vida a acumular uma série infinita de imagens, o artista plástico e multimédia escocês Douglas Gordon partiu exactamente na direcção oposta: é o som (a voz encantatória de um Mekas que continua a falar com um forte sotaque lituano mesmo depois de 50 anos nos EUA, e um trabalho extraordinariamente detalhado de design de som a cabo de Frank Kruse) que conduz o filme.

Porque, como Gordon disse na apresentação de I Had Nowhere to Go à imprensa – com um pequeno gague performativo envolvendo uma chamada telefónica da mãe , em 98 minutos de projecção haverá aí dez minutos de imagem. O resto é um ecrã negro pontuado por batatas, símios, mãos e o próprio Jonas Mekas hoje, aos 92 anos de idade, lendo os “fragmentos” dos seus diários escritos entre 1944 e 1954 e compilados em 1991. (Sim, João César Monteiro fez isto antes na tão controversa Branca de Neve e Derek Jarman igualmente no seu Blue.)

“Podem ver estas linhas como uma carta de um estranho com saudades de casa, ou como fragmentos, ou mesmo como uma ficção,” ouve-se às tantas – e é significativo que estas cartas de um Mekas jovem para a posteridade sejam, também elas, uma “correspondência” entre espaços e tempos, como a que Rita Azevedo Gomes desenha em Correspondências.

Se I Had Nowhere to Go é um filme “concentrado” no seu dispositivo formal e no seu texto de origem, Correspondências é “disperso” pelo modo como convoca uma multiplicidade de formas e de pessoas para dar vida às cartas que Sophia e Jorge de Sena trocaram entre 1959 e 1978. Desde leituras mais ou menos encenadas a imagens de arquivo do Portugal dessa época (tanto verdadeiras como truncadas), com um elenco de dezenas de figuras de todo o mundo e ligadas a todo o tipo de artes, do cinema à pintura e à literatura, Rita Azevedo Gomes não quer “encerrar” os poetas numa simples linearidade cronológica ou numa relação de causa-efeito.

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Correspondências faz passar as palavras de Sophia e Sena de boca em boca, de pessoa em pessoa, até ao nosso tempo

Há aqui também um efeito encantatório proveniente da palavra, mas onde Gordon subtrai a imagem, a realizadora reforça-a, construindo – lá está  “correspondências”, diálogos entre as palavras e as imagens que as fazem passar de mão em mão, de boca em boca, de pessoa em pessoa, dos tempos em que foram escritas aos nossos tempos. Nesse processo, pinta também um retrato de Portugal que nos deixa, a nós portugueses, com a corda na garganta, porque reconhecemos o quanto do Portugal que enfurecia e deliciava Sophia e Jorge de Sena nos tempos “da outra senhora” continua presente e detectável nos nossos próprios dias, meio século depois.

São, há que dizê-lo, dois filmes “quixóticos”  como toda a poesia o é, aliás. Correspondências é um “testemunho” que se vai passando entre gerações e nacionalidades, como quem diz que a poesia é algo de intemporal e imortal; é algo que subjaz também a I Had Nowhere to Go, a ideia de “prestar testemunho” sobre uma vida que atravessou uma das grandes tragédias do século XX, de um modo que ressoe com o espectador muito para lá do fim da projecção. Fazem-no de maneiras diferentes – um como um filme mais ou menos reconhecível, outro como uma experiência temporal numa sala de cinema  e sem ceder terreno nem fazer concessões, mesmo que os resultados finais não sejam perfeitos. Mas a perfeição é uma coisa que nem mesmo a poesia consegue atingir. O importante é querer alcançá-la, sabendo que está lá longe.