Tanta linhagem latina em Tijoux, tantas vozes em Selma

Num muito movimentado 13º aniversário, o Festival Med, em Loulé, contou com Ana Tijoux e Selma Uamusse para fazer desta uma edição memorável.

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Quando se aproxima a hora de um dos concertos principais no Palco Matriz – assim baptizado por se encontrar na vizinhança da Igreja Matriz de Loulé –, há sempre quem avance em passo estugado, serpenteando pelas ruas labirínticas do centro histórico da cidade algarvia, tentando alcançar rapidamente o largo que se abre para o concerto. A tarefa não é fácil. Não só as ruas são estreitas como se enchem de um público a várias velocidades. Por vezes, amontoado em torno de pequenas animações de rua, de bares improvisados ou de bancas de artesanato que se descobrem um pouco por todo o lado; outras vezes, misturando o público de festivais e os habitantes do bairro que põem a conversa em dia à porta de casa – “então, senhor Manel, como é que tem andado?”, ouve-se a caminho de Ana Tijoux, sem tempo para ouvir se a resposta desvalorizaria eventuais maleitas ou as elencaria com um rigor científico.

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Quando se aproxima a hora de um dos concertos principais no Palco Matriz – assim baptizado por se encontrar na vizinhança da Igreja Matriz de Loulé –, há sempre quem avance em passo estugado, serpenteando pelas ruas labirínticas do centro histórico da cidade algarvia, tentando alcançar rapidamente o largo que se abre para o concerto. A tarefa não é fácil. Não só as ruas são estreitas como se enchem de um público a várias velocidades. Por vezes, amontoado em torno de pequenas animações de rua, de bares improvisados ou de bancas de artesanato que se descobrem um pouco por todo o lado; outras vezes, misturando o público de festivais e os habitantes do bairro que põem a conversa em dia à porta de casa – “então, senhor Manel, como é que tem andado?”, ouve-se a caminho de Ana Tijoux, sem tempo para ouvir se a resposta desvalorizaria eventuais maleitas ou as elencaria com um rigor científico.

No fim do labirinto, enfim o largo, enfim a rapper chilena Ana Tijoux na sua segunda sessão de sedução popular após a estreia, há um ano, no FMM de Sines. De início, uma perplexidade: concerto um tanto frouxo, o som demasiado enrolado numa banda composta por um naipe de três metais, guitarra, teclados e bateria, tudo mal calibrado e sem se perceber se era mais a vontade de ouvir temas como Mi Verdad ou Vengo do que a sua real eficácia em palco. De um ano para o outro, parecia Tijoux ter perdido capacidade explosiva e relaxado a sua sonoridade inebriante. Puro engano. Assim que o técnico acertou a equalização, o poderio mais rude desta nova banda – alguém comentava, com razão, que este era um conjunto com crueza de barrio latino – voltou a mostrar Tijoux como uma das intérpretes mais estimulantes da música actual.

Não é por acaso que vemos Capicua passear-se pelo Festival Med com uma imagem de Tijoux estampada nas costas do casaco; não é também acidental que pareça tão fácil perorar sobre a retirada de poder ao capitalismo (citando Naomi Klein), a reivindicação de espaços de emancipação e liberdade, e a destituição de uma sociedade patriarcal de uma forma tão musical. Tendo colhido a cultura hip-hop em França, onde nasceu e viveu os seus primeiros anos, a politização de Tijoux faz-se em sintonia com as veias abertas da América Latina (citando Eduardo Galeano, com a dedicatória a Victor Jara a explicitar a crença nessa linhagem) e na sua voz não mora apenas um matraquear rítmico mas também um irresistível fulgor melódico.

A comparação, mais tarde, com a presença de Emicida no Med deixaria o rapper brasileiro um pouco pálido. O indistinto travo brasileiro da música de Emicida (há um cavaquinho a piscar o olho ao samba e ao chorinho) ajuda a criar um universo singular e cativante, mas que resulta numa festa apontada sobretudo ao momento. Foi uma festa bonita, mas festas há muitas. Tal como músicas há muitas, e só Hindi Zahra dá conta de uma boa parcela delas. Ao abrigo da sua condição de marroquina radicada em França, a cantora vagueia com espantosa propriedade entre um som de estampa arábica e a canção pop, entre um jazz com Billie Holiday na garganta e a pista de Cesária Évora. Não é indecisão, é mesmo feitio. Bom feitio.

Aldina Duarte abriu a ementa de sexta-feira, logo após a hora de jantar, com um Lírio Quebrado de tal intensidade que ninguém diria que estava ainda a aquecer este seu fado que exige estar próximo para nele se ficar enredado. Poucas vezes se terá ouvido Aldina num palco – ainda mais num festival – tão próxima do seu efeito arrebatador no Sr. Vinho, onde o impacto das suas palavras cantadas não chega filtrado por microfones e colunas de som. Tal como canta no sublime Fado com Dono, vai-se atrás dela e até a natureza parece dar mostras de se distrair do seu curso habitual – é a terra que estremece, os rios que perdem o sentido do mar, as pedras que rolam de espanto.

Nessa noite, ouvidos houve ainda para outras guitarras portuguesas. Primeiro, a dos Marafona, empregue como suplemento vitamínico de uma abordagem à música tradicional portuguesa, tocada frequentemente como uma guitarra eléctrica e exemplo perfeito do trabalho constante de recontextualização do grupo. Canções-histórias com invenção suficiente para conseguir manietar e ultrapassar problemas de som, mais uma vez, muito pouco amigos. Mais tarde, a dos Fandango, no projecto de Luís Varatojo e Gabriel Gomes que desfia melodias de guitarra e acordeão por cima de uma maquinaria rítmica de fazer corar qualquer festival de electrónica. Armados com os instrumentos e com computadores da maçã, foram intérpretes e DJ, criando uma música popular tão apta para os arraiais quanto para as discotecas.

Quantas Selmas em Selma?

Quantos anos tem a voz de Selma Uamusse? Há muito de intrigante em ouvir a cantora moçambicana instalada em Portugal. Se começamos por escutá-la como uma filha de Miriam Makeba ou Oumou Sangaré, Selma logo se transforma numa herdeira de Nina Simone ou numa discípula de Erykah Badu. Mas é mais do que isto. Selma Uamusse, cujo esperado primeiro álbum a solo (conhecemo-la dos WrayGunn, dos Cacique 97 ou de Rodrigo Leão) não pára de fazer salivar em antecipação, é uma cantora com várias vozes dentro, com mais anos do que aqueles que o seu corpo alguma vez pudesse acumular, como se dentro dela fermentasse um canto composto por uma acumulação de vidas que, naturalmente, não são suas (embora lhe pertençam também).

Se pode primeiro soar demasiado cru aquilo que a cantora apresenta, com um trio de músicos que se ocupa do pulsar rítmico da música, de imediato se percebe que só poderia ser assim. Esta música existe para rodear a voz, mas nunca para lhe roubar espaço, ao mesmo tempo que soa sempre a um rumor da terra, à criação de um ambiente sem artifícios em que Selma possa reclamar aquilo que anuncia: a revolução como sinónimo de liberdade e de amor. E isso implica tanto partilhar o palco com uma dona Ondina que é chamada espontaneamente para ensinar uns passos de marrabenta, quanto dar voz a uma arrepiante Song of Africa, cantada no meio do público – não como truque de espectáculo, mas como concretização da comunhão que defende.

Ainda Selma canta no Palco Castelo, no sábado, já os tuaregues Tinariwen se apresentam no Palco Matriz. É curioso verificar como uma das bandas cimeiras do circuito da world music se tornou já tão popular e frequente em Portugal que, a caminho do concerto, muitos comentem já os terem visto antes e, portanto, não haver pressa em chegar. Os Tinariwen tornaram-se, neste contexto, uma banda de massas, de fácil apelo blues-rock para os ouvidos europeus, tão assimilados que conseguem fazer verdadeiro braço-de-ferro com as televisões que, em redor do largo, transmitem o interminável desempate futebolístico entre Itália e Alemanha nas grandes penalidades.

Não é apenas a familiaridade com os Tinariwen, no entanto, que os torna hoje menos obrigatórios do que há dez anos. Desde os conflitos resultantes da tomada do norte do Mali, em 2012, pelo grupo islamita radical Ansar Dine (entretanto contrariada), o fundador e líder do grupo Ibrahim Ag Alhabib passou a estar menos disponível para se afastar da zona do Saara em que os tuaregues vivem, empobrecendo claramente um grupo que se distinguia dos seus semelhantes pela guitarra e pela voz hipnotizantes de Ibrahim. Falta-lhes agora esse rasgo.

Aos mexicanos Sonido Gallo Negro, pelo contrário, nada falta. Oito tipos em palco vestidos com hábitos negros e ostentando máscaras tradicionais que parecem um cruzamento entre os ZZ Top e os ewoks da Guerra das Estrelas, passa pelas mãos desta trupe um maravilhamento de chicha e cumbia psicadélicas, endiabradas, transportada para ambientes sci-fi e para outros que, à falta de melhor definição, se poderiam designar por western burrito (Morricone no México alucinado, precisamente). Excelente estreia em palcos portugueses – ao contrário, segundo é relatado ao Público, do que terá acontecido com os congoleses Mbongwana Star, na quinta-feira, versão enfraquecida do disco From Kinshasa, numa noite em que reinou António Zambujo.

Conhecidas destas andanças, Alo Wala e Capicua providenciaram a habitual festa rija na despedida. Se a cantora indo-americana funciona sobretudo como dínamo de energia, tornando-se mais interessante sempre que denuncia a sua origem indiana e se transforma em mais do que uma versejadora sobre batidas que parecem antecipar um terramoto, a rapper portuguesa continua a mostrar o quão exímia se tornou em palco, parecendo faltar-lhe apenas uma profundidade instrumental que acompanhe a sua agudeza discursiva e inventividade no rap. Talvez “Fumo Denso”, tema com DJ Ride, seja uma boa pista para avançar até ao futuro.