Uma só dose de vacina para o Zika protegeu ratinhos da infecção

Cientistas dos EUA e do Brasil conseguiram proteger animais do vírus Zika com dois tipos diferentes de uma vacina experimental. Estes resultados, publicados na revista Nature, são promissores para o desenvolvimento de uma vacina eficaz nos humanos.

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Centenas de cientistas de laboratórios em quase todo o mundo trabalham para conhecer melhor este vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti Jeff Miller (Universidade de Wisconsin-Madison.)

Quase todos os dias os cientistas dão um passo em frente na luta contra o vírus Zika. Desde que, em Fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o mundo estava perante uma emergência de saúde pública os avanços nos laboratórios sucedem-se a um ritmo impressionante. Desta vez, um grupo de cientistas anuncia na revista Nature que uma única dose de dois tipos diferentes de uma vacina contra o Zika, que já infectou milhares de pessoas no Brasil, foi capaz de proteger ratinhos do vírus. Optimistas, os investigadores acreditam que esta é uma boa notícia para o desenvolvimento de uma vacina eficaz para os humanos.

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Quase todos os dias os cientistas dão um passo em frente na luta contra o vírus Zika. Desde que, em Fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o mundo estava perante uma emergência de saúde pública os avanços nos laboratórios sucedem-se a um ritmo impressionante. Desta vez, um grupo de cientistas anuncia na revista Nature que uma única dose de dois tipos diferentes de uma vacina contra o Zika, que já infectou milhares de pessoas no Brasil, foi capaz de proteger ratinhos do vírus. Optimistas, os investigadores acreditam que esta é uma boa notícia para o desenvolvimento de uma vacina eficaz para os humanos.

Encontrar uma vacina segura e eficaz contra o vírus Zika para os humanos é actualmente uma prioridade a nível mundial. Centenas de cientistas de laboratórios em quase todo o mundo apoiados por governos ou empresas e outras entidades filantrópicas trabalham para isso, para conhecer melhor a doença e os mecanismos de infecção deste vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti e, assim, conseguir vencê-lo. E os resultados que têm vindo a público reflectem esse esforço extraordinário. Um estudo liderado por investigadores do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston (EUA), em colaboração com cientistas do Instituto de Investigação do Exército Walter Reed (em Maryland, nos EUA) e da Universidade de São Paulo (no Brasil) que começou há poucos meses é publicado esta terça-feira na revista Nature com a indicação: “Artigo para revisão urgente.”

Os cientistas apostaram em duas abordagens diferentes para testar a eficácia de uma vacina contra o vírus Zika: uma delas foi baseada no ADN do vírus usando sequências de uma estirpe do Brasil e a outra desenvolvida a partir do vírus o purificado e inactivado de uma estirpe de Porto Rico. As duas abordagens resultaram. Aliás, uma só dose de qualquer uma das duas vacinas foi suficiente para proteger os ratinhos que, após a imunização, foram expostos ao vírus durante quatro semanas. O grupo de controlo ficou infectado e o grupo de ratinhos vacinado não ficou.

“A eficácia destas vacinas, a protecção evidente dos anticorpos e a semelhança com outras vacinas que foram desenvolvidas para outros flavivírus [família de vírus a que pertence o Zika e outros como a da febre de dengue e a febre do Nilo] dá-nos grande optimismo que estamos no caminho certo que poderá levar ao desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz contra o Zika para humanos”, afirma Dan Barouch, investigador e um dos autores do artigo, no comunicado de imprensa do Centro Médico Beth Israel Deaconess.

Numa conferência de imprensa da Nature, o cientista nota que apesar dos resultados muito animadores ainda há algumas questões em aberto. Para já, os investigadores apenas podem garantir uma protecção de dois meses com a administração de uma única dose de qualquer uma das duas vacinas, porque simplesmente ainda não passou o tempo suficiente para observar mais do que isso. “Vamos esperar pelo Verão e Outono para perceber se esta protecção se mantém por mais tempo.”

Por outro lado, a equipa ainda não testou estas vacinas em ratinhos fêmeas grávidas, uma frente de trabalho importante tendo em conta os graves efeitos já provados que esta infecção têm nas mulheres grávidas, com um elevado risco para os fetos desenvolverem microcefalia e outras malformações fatais. “Vamos começar agora essa parte dos testes”, anunciou Dan Barouch, que espera também nos próximos meses continuar esta experiência com duas vacinas experimentais em modelos animais de maior porte. Depois, talvez no final do ano, seja altura de avançar para os ensaios clínicos.

Para já, o investigador não consegue dizer qual das duas abordagens para a vacina lhe parece ter mais potencial para que venha a servir de base para uma imunização a larga escala em humanos. “As duas têm vantagens e desvantagens”, disse o especialista, que antes se dedicava ao estudo do VIH e que reconheceu que actualmente não existe nenhuma vacina para humanos baseada no ADN aprovada pelas entidades reguladoras de saúde nos EUA. Ainda assim, frisou Dan Barouch, nesta fase a “diversidade de abordagens só será benéfica”. “Ninguém sabe quando teremos uma vacina para o vírus Zika”, reconheceu ainda o cientista quando questionado sobre prazos e cenários possíveis para os próximos tempos. Porém, garantiu, “será o mais rápido possível”.

A batalha contra o Zika envolve muita gente e muito dinheiro. Esta segunda-feira foi também notícia um acordo no valor de três milhões de dólares (2,7 milhões de euros) assinado entre o instituto de investigação brasileiro Butantan, a Autoridade de Desenvolvimento e Investigação Biomédica Avançada (que integra o Departamento de Saúde do Governo dos EUA) e a OMS. O objectivo é o desenvolvimento de uma vacina contra o Zika e a expectativa é que seja possível avançar para testes em humanos durante o primeiro semestre de 2017.

E enquanto alguns estão particularmente focados na busca de uma vacina segura e eficaz para as pessoas, outros investigadores esforçam-se para saber mais sobre o vírus. É o caso, por exemplo, de uma equipa norte-americana da Universidade de Wisconsin-Madison que, com um estudo em macacos, conseguiu demonstrar que a infecção do vírus Zika é mais prolongada na gravidez. Os resultados foram publicados também esta terça-feira na revista Nature Communications. Os investigadores concluíram que uma infecção com o vírus é capaz de proteger futuras infecções, mas a gravidez poderá prolongar drasticamente o tempo que o vírus permanece no organismo. Segundo perceberam, os animais (machos e fêmeas que não estavam grávidas) ficaram livres do vírus cerca de dez dias após uma infecção, enquanto as duas grávidas permaneceram com o vírus no sangue durante 30 a 70 dias.

De acordo com dados da OMS divulgados na semana passada, 61 países já registaram a transmissão continuada do vírus e dez países reportaram transmissão de Zika de indivíduo para indivíduo, provavelmente por via sexual. O Brasil, onde o vírus está mais disseminado, registou mais de 138 mil casos prováveis de infecção até 7 de Maio e mais de 1600 casos confirmados de microcefalia até 11 de Junho, segundo o Ministério da Saúde brasileiro citado pelo jornal O Globo.