Siza desembrulhou a "prenda" que Portugal quis dar a Veneza

Álvaro Siza foi o foco de todas as atenções na abertura do Pavilhão de Portugal na 15.ª Bienal de Veneza. Onde António Costa defendeu que a arquitectura “é a chave para a integração social e a grande arma contra o medo, a xenofobia e o fecho das fronteiras”.

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Chega-se à ilha da Giudecca voltando as costas – mas sem nunca deixar de olhar para trás – ao recorte único da frontaria contígua à Praça de S. Marcos. Ao desembarcar na paragem de vaporetto de Zitelle, o visitante pode escolher entre ver a exposição de fotografia de Helmut Newton – White Women, Sleepless Nights e Big Nudes – no velho palacete Tre Oci, ou o Pavilhão de Portugal, intitulado Neighbourhood – Where Álvaro Meets Aldo, também publicitado num outdoor à borda da laguna.

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Chega-se à ilha da Giudecca voltando as costas – mas sem nunca deixar de olhar para trás – ao recorte único da frontaria contígua à Praça de S. Marcos. Ao desembarcar na paragem de vaporetto de Zitelle, o visitante pode escolher entre ver a exposição de fotografia de Helmut Newton – White Women, Sleepless Nights e Big Nudes – no velho palacete Tre Oci, ou o Pavilhão de Portugal, intitulado Neighbourhood – Where Álvaro Meets Aldo, também publicitado num outdoor à borda da laguna.

Como também Siza teve em Veneza, até meados deste mês, uma exposição de desenhos eróticos com o seu colega italiano Carlo Scarpa (1906-1978), na Fundação Querini Stampalia, e porque o tempo agora é da Bienal, seguimos em direcção à arquitectura. Somos guiados pelo painel em que o arquitecto português surge fotografado, como viajante e como um cidadão igual aos outros, nos quatro bairros – Giudecca, Haia, Berlim e Porto – que desenhou desde a década de 1970, quando achou que a habitação social tinha dignidade e importância suficientes para reivindicar a arquitectura.

Entrando na Calle Michelangelo, desembocamos num complexo habitacional inacabado, mas finalmente em vias de ser concluído. Uma cerca alta em contraplacado, ornamentada com fotografias dos moradores dos bairros desta ilha, mas também da Bouça (Porto), do edifício Bonjour Tristesse (Berlim) e de Schiderswijk (Haia), e do próprio Siza com eles, embrulha a “prenda” que Portugal quis dar este ano aos habitantes da Giudecca. É a prometida e já retomada construção da banda em falta, ainda desenhada pelo arquitecto português, que se ocupará também da urbanização da ampla praça do Campo de Marte. Isto porque “o Pavilhão de Portugal é uma obra em construção”, realça o italiano Roberto Cremascoli, que com Nuno Grande idealizou a participação portuguesa na 15.ª Bienal de Arquitectura de Veneza – a inauguração oficial é no próximo sábado, sob comissariado do chileno Alejandro Aravena, o prémio Pritzker de 2016.

Mas a inauguração da exposição portuguesa aconteceu já esta quarta-feira, num clima múltiplo de festa popular, evento mediático e manifestação política, que incluiu mesmo as presenças do primeiro-ministro António Costa, à frente de uma forte delegação portuguesa, e do presidente da Bienal, Paolo Baratta.

Siza chegou à Giudecca ao final da manhã, pouco antes de Costa. Falou aos jornalistas do “deslumbramento” que Veneza sempre lhe proporciona, de tal modo que quando transporta a cidade para os seus desenhos “o pensamento fica toldado e a mão treme”. Depois, já com Costa, seguiu para o “estaleiro” do pavilhão português, num percurso repetidamente interrompido pelas solicitações e os cumprimentos dos moradores ao arquitecto.

Crua e pura

Siza e os curadores Roberto Cremascoli e Nuno Grande guiaram então o primeiro-ministro pela exposição-instalação Neighbourhood. Assumindo por inteiro a condição de estaleiro e a crueza de uma obra em curso, o projecto evoca, no primeiro espaço, o encontro de Siza com o italiano Aldo Rossi, desde que este o convidou a participar na Bienal de Veneza de 1976. “Esta sala é também a evocação dos 40 anos desse encontro que teve grande importância, tanto para a obra futura de Siza como para a relação que a partir desse momento se estabeleceu entre a arquitectura italiana e a portuguesa”, realçou ao PÚBLICO Nuno Grande.

Nas quatro salas seguintes, placards com textos, diaporamas com desenhos, projectos, maquetas e fotografias históricas, ao lado de documentários realizados pela jornalista da SIC Cândida Pinto, documentam as intervenções mas também a vida actual nos quatro bairros citados.

Como denominador comum a todos os espaços da exposição-instalação, a frieza das paredes de betão, mas também os graffiti transportados agora para o interior do edifício, e que ao longo dos últimos anos foram dando conta da irritação dos moradores perante a interrupção das obras. Le case a chi ne ha bisogno, si all’auto recupero” (“A casa a quem dela precisa; sim à auto-recuperação”), ou “Stop Mafia  especulazioni” –  palavras de ordem que nos trazem à memória os tempos do SAAL, em Portugal. Mas também há inscrições mais pessoais e íntimas, como “G + M  amici forever”… E, nos documentários, pode assistir-se a momentos tocantes, como quando um refugiado sírio a habitar no bairro de Haia fala a Siza da felicidade que é viver no seu apartamento de 77 metros quadrados – “como sou solteiro, metade chegava-me”, confessa –, e acaba a partilhar com o arquitecto o seu drama pessoal, os pais ainda em Homs, sujeitos à guerra num “país onde já não há casas, nem pessoas, nem nada…”.

No final da visita, António Costa mostrou-se orgulhoso da representação portuguesa, considerando “muito interessante”, além da reactivação do projecto, estar a mostrar-se que o trabalho de Siza não são apenas as obras icónicas que fez em todo o mundo, mas também o que fez no domínio da habitação social. “A arquitectura é a chave para a integração social, a grande arma contra o medo, a xenofobia e o fecho das fronteiras”, acrescentou o primeiro-ministro.

O projecto Neighbourhood pareceu ser bem recebido pela generalidade dos convidados, que praticamente entupiram a entrada na exposição. José Sasportes, ex-ministro da Cultura e actualmente a viver entre Veneza e Lisboa, elogiou a ideia de “work in progress” e de intervenção social na cidade, considerando que ela faz jus ao legado de Aldo Rossi. O secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, classificou-o como “original e notável”, acrescentando que a exposição trata bem a questão da relação da arquitectura com a mobilidade social e com a habitação social.

O recém-demitido director-geral das Artes Carlos Moura-Carvalho – que repetiu não desejar pronunciar-se sobre o seu processo antes de receber a resposta oficial do Ministério da Cultura à sua contestação – viu na exposição a concretização fiel daquilo que tinha imaginado quando, em Julho do ano passado, desafiou os curadores e Siza a regressarem a um trabalho de campo em Veneza. Salientou a importância social e política da intervenção, e ainda “os custos contidos da operação”, que andarão pelos 230 mil euros.

Entre os visitantes encontrava-se também a alemã Brigitte Fleck, que na década de 1970 foi responsável pelo convite a Siza para participar no concurso para a urbanização que iria resultar no icónico edifício Bonjour Tristesse. “Gosto muito desta instalação: é crua, pura, está concentrada naquilo que é a arquitectura e não é feita para as pessoas repararem nos vestidos e nos fatos dos convidados”, disse a arquitecta alemã.

No final da inauguração, moradores e visitantes da Giudecca encontraram-se numa tavolata, um almoço ao ar livre entre os edifícios já construídos de Siza, Rossi e Carlos Aymonino, debaixo de um sol quente de Primavera. Foi também um encontro de duas culturas gastronómicas, com Portugal a responder às pastas e aos enchidos italianos com pataniscas e vinhos do Douro.

À tarde, Siza continuava a dominar as atenções, numa tavola rotonda (mesa-redonda) sobre os caminhos actuais da arquitectura e o seu papel na habitação social. Seria a ligação com o tema geral da bienal de Alejandro Aravena, que começa no fim-de-semana

O PÚBLICO viajou a convite da Experimenta Design e da Assimagra