Alejandro Aravena: um Pritzker para a arquitectura social

O mais importante prémio de arquitectura distingue uma obra que revolucionou a habitação social.

O arquitecto chileno Alejandro Aravena, conhecido pelos seus revolucionários projectos de habitação social, nos quais os residentes são estimulados a aumentar e melhorar as casas por sua própria iniciativa, é o prémio Pritzker de 2016. A escolha foi anunciada esta quarta-feira, dia 13, e Aravena, que é também o curador da edição deste ano da Bienal de Arquitectura de Veneza, receberá o prémio, no valor de cem mil dólares (cerca de 72 mil euros), no próximo dia 4 de Abril, numa cerimónia que decorrerá no edifício das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Director executivo do estúdio Elemental, centrado em projectos de interesse público e com impacto social – o gabinete chileno já desenhou mais de 2.500 habitações sociais de baixo custo, além de projectos de espaços públicos, infraestruturas e sistemas de transportes –, Alejandro Aravena foi elogiado por Tom Pritzker, filho do fundador do prémio e actual presidente da fundação, por mostrar "que a arquitectura, no seu melhor, pode melhorar a vida das pessoas”.

É a primeira vez que o Pritzker é entregue a um chileno e a quarta vez que a distinção vai para a América Latina, depois de ter consagrado o mexicano Luis Barragán, em 1980, e os brasileiros Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, respectivamente em 1988 e 2006.

A escolha de Alejandro Aravena é significativa não apenas por se tratar de um arquitecto relativamente jovem, 48 anos, e que não tem para apresentar um vasto conjunto de obras emblemáticas, como a generalidade dos premiados anteriores, mas também por sugerir que o júri do Pritzker terá reconhecido que o tempo das grandes estrelas mundiais da arquitectura pode estar a dar lugar, nestes anos de crise económica, ao regresso de uma arquitectura mais socialmente empenhada.

Aravena assinou algumas obras de grande dimensão, como o Centro de Inovação e as Torres Siamesas da Universidade Católica de Santiago do Chile, ou os dormitórios da universidade de St. Edwards, em Austin, no Texas, ou ainda o edifício da Novartis, presentemente em construção em Xangai. Mas quando anunciou o vencedor do prémio, Tom Pritzker destacou, significativamente, outras características do trabalho do arquitecto chileno: “Oferece oportunidades aos menos privilegiados, mitiga os efeitos dos desastres naturais [uma referência ao projecto de reconstrução sustentada da cidade chilena de Constitución após o terramoto e o tsunami que a atingiram em 2010], reduz o consumo de energia e cria espaços públicos convidativos."

“Um dos maiores erros que os arquitectos cometem é a tendência para lidarem com problemas que só interessam a outros arquitectos”, disse o próprio Aravena em entrevista ao jornal inglês The Guardian, quando “o maior desafio é lidar com questões importantes exteriores à arquitectura – pobreza, poluição, congestionamento, segregação – e aplicar-lhes os nossos conhecimentos específicos”.

Afirmando que o modo como Alejandro Aravena soube compatibilizar a dimensão artística da arquitectura com os desafios sociais e económicos dos nossos dias contribuiu para “expandir significativamente o papel do arquitecto”, o júri do Pritzker vê exemplarmente representado na sua obra “o renascimento de uma arquitectura mais socialmente comprometida, especialmente no seu compromisso de longo prazo com o combate à crise da habitação e com a luta por um ambiente urbano mais qualificado”.

Presidido por Peter Palumbo, um promotor imobiliário e coleccionador de arte britânico, o júri desta edição incluiu ainda Stephen Breyer, Yung Ho Chang, Kristin Feireiss, Glenn Murcutt, Richard Rogers, Benedetta Tagliabue e Ratan N. Tata. No final da sua declaração, o júri observa que “o papel do arquitecto está hoje a ser desafiado para responder às grandes necessidades sociais e humanitárias” e reconhece que Aravena “respondeu a esse desafio de forma clara, generosa e integral”.

Talento e qualidade

Álvaro Siza, que recebeu o prémio Pritzker em 1992, disse ao PÚBLICO que não conhecia pessoalmente Aravena, mas sabe tratar-se de “um arquitecto com muito talento e qualidade, reconhecido em todo o mundo, e com uma obra diversificada, apesar de ser ainda muito novo”.

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