Costa do Marfim, um alvo previsível no concurso pela jihad em África

A luta entre a Al-Qaeda e o Estado Islâmico pela liderança da jihad global está a transformar o continente. Grupos fundamentalistas aproveitaram a falência da Líbia para evoluir.

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Cadáver na praia atacada. Maioria das vítimas eram habitantes locais. SIA-KAMBOU/AFP

O atentado de domingo em Grand-Bassam chocou a Costa do Marfim, mas não a apanhou de surpresa. Há anos que o país sabe que está na lista de alvos prioritários da versão norte-africana da Al-Qaeda. Depois de o grupo ter atacado nos últimos meses o Mali e o Burkina Faso, os responsáveis militares na região sabiam que era apenas uma questão de tempo até países como a Costa do Marfim e o Senegal serem atingidos pela onda revigorada do fundamentalismo islâmico em África.

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O atentado de domingo em Grand-Bassam chocou a Costa do Marfim, mas não a apanhou de surpresa. Há anos que o país sabe que está na lista de alvos prioritários da versão norte-africana da Al-Qaeda. Depois de o grupo ter atacado nos últimos meses o Mali e o Burkina Faso, os responsáveis militares na região sabiam que era apenas uma questão de tempo até países como a Costa do Marfim e o Senegal serem atingidos pela onda revigorada do fundamentalismo islâmico em África.

Essa onda rebentou nas praias desprotegidas de Grand-Bassam ao início da tarde. Um carro com um número ainda incerto de homens armados conduziu até um areal que dá acesso a três hotéis. Os atacantes começaram aí uma campanha de disparos indiscriminados contra os turistas que se apinhavam em restaurantes e habitantes locais. A Associated Press diz que durante o ataque um dos terroristas se aproximou de dois rapazes novos e lhes falou em árabe. Um deles ajoelhou-se para rezar. O outro não o fez e foi abatido.  

Corinne, neozelandesa, dá a sua versão do sucedido ao Le Monde. “Éramos dezoito, numa saída relaxada. Apareceram quatro homens, reuniram-se e gritaram ‘Vamos!’. Depois começaram a disparar à queima-roupa. Foi terrível!”. Falou ao jornal francês no centro hospitalar, de roupão e em lágrimas. Perdeu dois amigos e outros estavam em estado grave. A última actualização do Governo dá conta de quinze civis e três soldados mortos, para além de três atacantes abatidos. Há 33 feridos, a maioria deles ainda no hospital.

Pelo menos dois jihadistas escaparam às forças de intervenção, que demoraram cerca de duas horas a chegar. O país está em estado máximo de alerta desde que o seu vizinho Burkina Faso foi atacado em Janeiro, mas o principal reforço militar aconteceu nas fronteiras, grandes cidades e Norte do país, onde a maioria da população é muçulmana. Os atacantes alvejaram um ângulo-morto: o grande contingente de segurança estava a cerca de 30 quilómetros, em Abidjan, o centro financeiro da Costa do Marfim. “Poderíamos ter evitado a carnificina se tivéssemos feito descolar mais rapidamente um helicóptero”, lamentou um responsável militar ao Le Monde, sob anonimato.

O panorama do jihadismo em África alterou-se substancialmente ao longo do último ano e os efeitos dessa transformação são visíveis no atentado de domingo. O ataque foi reivindicado pela Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, ou AQMI, a mesma organização que em Novembro matou 19 pessoas num hotel em Bamaco e, apenas dois meses depois, mais 29 num outro hotel, este em Ouagadougou. Seguem o rasto de outros atentados no último ano, tão sangrentos quanto mediáticos, na Tunísia, Líbia e Chade. Na Nigéria, apesar de um esforço militar regional, o Boko Haram prossegue a carnificina que em seis anos matou cerca de 17 mil pessoas.

Os grupos jihadistas em África estão mais bem treinados, armados e financiados do que no passado. Estão também mais ambiciosos. Há duas grandes razões para isso: a Líbia ter-se tornado num estado sem lei, o que facilitou o tráfico de armas pela região e permitiu que vários comandos islamistas se instalassem no país; e também o aparecimento de uma competição pelo domínio da jihad global entre a Al-Qaeda e o grupo Estado Islâmico, o que atraiu novas “figuras de patronato” que antes não tinham interesse em África, como explicava o New York Times no início do ano, ao escrever sobre a nova encarnação do terrorismo no continente.

“A rivalidade entre a Al-Qaeda e o Estado Islâmico significou o abrir de uma nova corrida por África, especialmente no Norte e Oeste”, escreve Ayesha Kahee, especialista em governação e desenvolvimento democrático em África, sob o título “Um ataque na Costa do Marfim era inevitável”, publicado esta segunda-feira no portal da Al-Jazira. “As vitórias do Estado Islâmico no Médio Oriente provocaram o declínio da Al-Qaeda nessa região e a AQMI é actualmente a mais bem-sucedida filial do seu franchise de terror global.”

Há sinais claros de um maior investimento do grupo em África. No momento de reivindicar o ataque de Novembro ao hotel Radison Blue de Bamaco, a Al-Qaeda anunciou que estava novamente a operar com um dos grupos terroristas mais temidos no continente, o Al-Mourabitoun, liderado pelo célebre veterano jihadista Mokhtar Belmokhtar. Jason Burke, correspondente do Guardian em África e especialista em extremismo islâmico, resume a situação: “A parada é alta. Se [a AQMI] desaparecer definitivamente de cena, o mesmo acontecerá com a sua organização-mãe. A preeminência do Estado Islâmico ficaria sem rival.”

Nesta batalha, a Costa do Marfim é um alvo precioso. À semelhança dos vizinhos Mali e Burkina Faso, o país vive um processo de reconciliação nacional, depois de quase uma década de guerra civil que opôs as duas grandes confissões cristã e muçulmana e dividiu o território a meio. Alassane Ouattara — reeleito Presidente em Outubro com uns avassaladores 83,7% do voto — governou durante os últimos cinco anos de paz, grande crescimento económico e reconstrução institucional. Tudo contra os interesses da Al-Qaeda na África Ocidental, como explica Remi Piet, professor na Universidade do Qatar. "O objectivo destes ataques é alimentar o ódio e a xenofobia e ao mesmo tempo tentar impedir o desenvolvimento económico de sociedades onde os fundamentalistas esperam poder recrutar mais zelosos."