Carol e uma furtiva fuga

O filme de Todd Haynes mostra um certo paraíso do gosto, da convenção, da carpintaria de argumento e da construção de personagens. A convenção domina. Fica o espaço para uma furtiva fuga.

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Carol: uma espécie de documentário inventado

Fica de Carol aquilo que nos outros filmes podem ser apenas planos de ligação, ou a prova para o espectador de que ali houve reconstituição de época, “exibindo-se” a produção: os planos dos carros, os anos 50 nas ruas, como se andava?, como se apanhava um autocarro? Como se uma luz furtiva incidisse sobre um quotidiano que continua desconhecido e por revelar apesar, ou por causa, daquilo que fixam os chamados “filmes de época”.

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Fica de Carol aquilo que nos outros filmes podem ser apenas planos de ligação, ou a prova para o espectador de que ali houve reconstituição de época, “exibindo-se” a produção: os planos dos carros, os anos 50 nas ruas, como se andava?, como se apanhava um autocarro? Como se uma luz furtiva incidisse sobre um quotidiano que continua desconhecido e por revelar apesar, ou por causa, daquilo que fixam os chamados “filmes de época”.

Fica de Carol, se quisermos, uma espécie de documentário inventado, um arquivo de gestos, comportamentos e guarda-roupa da vida privada americana. Mas sabe-se: o filme está ao lado, há uma narrativa de que esses planos dependem - embora a beleza deles seja essa, estarem em fuga, desprendendo-se de qualquer âncora.

A história, então, o filme, que está ao lado.

É o “trabalho de amor” da argumentista Phyllis Nagy, autora da adaptação de The Price of Salt, o romance lésbico que Patricia Highsmith escreveu em 1952 sob o pseudónimo de Claire Morgan. A ele estava associada desde o início Cate Blanchett, Todd Haynes chegou mais tarde, a tempo de impedir que o projecto se gorasse por indisponibilidade do realizador escolhido. Christine Vachon, sua produtora e cúmplice de há anos, foi decisiva. Outra cumplicidade é a do director de fotografia Ed Lachman (Longe do Paraíso, I’m not There, Mildred Pierce).

Com a sua equipa, Haynes torna-se meticuloso tradutor dos silêncios da história de aproximações e distâncias entre as personagens interpretadas por Blanchett e Rooney Mara. Há um momento do filme em que, de um grupo de figuras que espreita uma sessão de cinema em que se exibe O Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, alguém diz que o que lhe interessa é o fosso entre aquilo que as personagens dizem e aquilo que elas sentem. Poderia estar a falar de Longe do Paraíso (2002), anterior filme de Haynes, que era tanto sobre os anos 50 como sobre aquilo que estrebucha na perfeição das imagens à espera de se revelar - por isso era um filme “sirkiano”; e mais do que homenagem a Douglas Sirk, era um tratado sobre a convenção como opressão, violência. Em cada plano desse filme podíamos, então, experimentar uma fractura nas personagens, a tal diferença entre o que diziam e o que sentiam – o resultado era a performance intensificada das emoções que ameaçava romper o filme, destruí-lo.

Carol não é sirkiano. É um filme em que aquilo que as personagens dizem equivale na essência ao que elas sentem. É um filme em que as regras são apenas sobressaltos que as personagens contornam. O modelo de Carol não é Far From Heaven, é a mini-série televisiva Mildred Pierce (2011). Carol é um certo paraíso do gosto, da convenção, da carpintaria de argumento e da construção de personagens. A convenção sobrevive, não ameaça autodestruir-se. Fica a memória de uma furtiva fuga.