Cartas inéditas da família de Pessoa encontradas no espólio de Hubert Jennings

O pessoano inglês esteve em Lisboa, nos anos 60, a investigar a célebre arca pessoana. Henriqueta Dias, meia-irmã de Pessoa, escreveu-lhe uma extensa carta em 1970, enviando-lhe dados para uma biografia do poeta.

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“Ele” tinha muito medo de trovoadas: escondia-se em lugares escuros para não ver os relâmpagos e cobria a cabeça para não ouvir os trovões”. “Ele é Fernando Pessoa, e quem o conta é a sua irmã Henriqueta Madalena Dias, conhecida por Teca, numa carta enviada em 1970 a Hubert D. Jennings, autor de Os Dois Exílios: Fernando Pessoa na África do Sul (1984), que foi um dos primeiros pessoanos de língua inglesa e é ainda hoje uma referência no que respeita aos anos de formação do poeta português em Durban.

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“Ele” tinha muito medo de trovoadas: escondia-se em lugares escuros para não ver os relâmpagos e cobria a cabeça para não ouvir os trovões”. “Ele é Fernando Pessoa, e quem o conta é a sua irmã Henriqueta Madalena Dias, conhecida por Teca, numa carta enviada em 1970 a Hubert D. Jennings, autor de Os Dois Exílios: Fernando Pessoa na África do Sul (1984), que foi um dos primeiros pessoanos de língua inglesa e é ainda hoje uma referência no que respeita aos anos de formação do poeta português em Durban.

A carta faz parte de um espólio com cerca de dois mil documentos que um filho de Jennings, Christopher, doou recentemente à Universidade Brown, em Providence, nos Estados Unidos. O jornal brasileiro Folha de S. Paulo foi o primeiro a divulgar a existência deste acervo num artigo em que anunciava a descoberta de uma “caixa com textos inéditos de Fernando Pessoa”.

Na verdade, não terão sido ainda descobertos no arquivo de Jennings quaisquer inéditos de Pessoa que não existam na Biblioteca Nacional, mas é possível que venham a ser encontrados. E se não for o caso, nem por isso este conjunto de papéis deixa de ter relevância para os estudos pessoanos, e designadamente para os biógrafos de Pessoa. A extensa carta da meia-irmã de Pessoa, Henriqueta Madalena (1896-1992), que inventaria as diversas casas onde o poeta viveu em Lisboa e evoca episódios da sua mocidade, era até agora inteiramente desconhecida dos investigadores, tal como uma carta enviada a Jennings por outro meio-irmão de Pessoa, Michael (nascido Luiz Miguel) Nogueira Rosa, esta mais centrada no livro que o seu correspondente inglês projectava dedicar ao poeta dos heterónimos, de quem já então tinha traduzido vários poemas.

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A extensa carta da meia-irmã de Pessoa, Henriqueta Madalena (1896-1992), que inventaria as diversas casas onde o poeta viveu em Lisboa e evoca episódios da sua mocidade, era até agora inteiramente desconhecida dos investigadores

Esta correspondência e outros materiais do espólio de Jennings integram o mais recente número da revista Pessoa Plural, publicada pela Universidade Brown, inteiramente dedicado ao autor de Os Dois Exílios, que nasceu em Londres em 1896 e veio a ser professor no liceu que Pessoa frequentou na África do Sul, a Durban High School. Susan Margaret Brown, tradutora de Fernando Pessoa e autora de ensaios sobre a influência de Walt Whitman na poesia de Alberto Caeiro, transcreve integralmente na revista ambas as cartas, precedidas de uma introdução e acompanhadas de abundantes notas.

Richard Zenith, que trabalha há já vários anos numa nova biografia de Pessoa, interessou-se especialmente pela carta da irmã Henriqueta - assinada com o diminutivo Teca -, que sem trazer propriamente factos novos, “confirma outras fontes” e refere questões que, não sendo  ignoradas, “também não eram assim tão sabidas como isso”. E dá como exemplo a passagem em que Teca conta a Jennings que a sua primeira filha, Maria Leonor, morrera aos 14 meses. “Lembro-me de Manuela Nogueira [sobrinha de Pessoa, filha de Henriqueta] me dizer que o ano de 1925 tinha sido terrível, porque morreu o tio Henrique Rosa, a mãe de Pessoa, e depois essa Maria Leonor, cuja morte causou um grande desgosto a Fernando Pessoa”.

Manuela Nogueira já evocou também várias vezes uma habitual brincadeira de infância com o tio Fernando - fazer de conta que o barbeava -, agora confirmada nesta carta da sua mãe a Jennings. “A Manuela divertia-se a simular que barbeava o Fernando: sentava-se no seu joelho, enchia-lhe a cara de espuma de sabão e escanhoava-o com um qualquer instrumento não cortante”. Uma cena “muito frequente”, conta, na Rua Coelho da Rocha, onde a família então vivia, no edifício que é hoje a Casa Fernando Pessoa.

Henriqueta enumera ainda os diversos parentes com quem Pessoa foi vivendo quando regressou sozinho da África do Sul, refere o primeiro andar que este alugou e mobilou na Rua Gonçalves Crespo com dinheiro de uma herança que recebera da sua avó Dionísia, e até indica o nome de uma das governantas e mulheres-a-dias que lhe foram tratando das várias casas onde morou. Para se perceber o detalhe das informações que envia a Jennings, é preciso ter em conta que o inglês preparava na altura um livro sobre Fernando Pessoa, que incluiria uma breve biografia e uma antologia da sua poesia. Teca ajudou-o na biografia, enquanto o irmão, Michael, lhe enviava poemas do espólio e respondia a dúvidas relacionadas com a obra.

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Carta enviada a Jennings por outro meio-irmão de Pessoa, Michael (nascido Luiz Miguel) Nogueira Rosa, mais centrada no livro que o seu correspondente inglês projectava dedicar ao poeta dos heterónimos

Quando Jennings, que fora professor da Durban High School (DHS), é convidado a escrever a história da escola, em 1959, depara com uma carta do poeta sul-africano Roy Campbell em que este diz a um amigo: “Imagina que descobri que Fernando Pessoa, o melhor poeta em qualquer língua neste meio século, também frequentou a Durban High School”. A carta foi decisiva para acender em Jennings a fagulha pessoana, que nunca mais se extinguiria, mas Capbell nunca soube disso, observa Susan Margaret Brown no seu artigo, uma vez que morrera em 1957 em Setúbal, num acidente de automóvel.

Jennings publica a sua monografia sobre a DHS em 1966, e nela dedica dois capítulos a Pessoa: um relato factual da sua passagem pela escola, intitulado That long Patience which is Genius, e um assumido interlúdio ficcional, Judica Me Deus, no qual assume Pessoa como personagem literária. Essa sua veia ficcional é confirmada nos papéis agora depositados na Brown, onde se encontraram vários contos inéditos que escreveu em Lisboa, um dos quais encena uma conversa no café A Brasileira, entre Pessoa e Camões.

A carta de Michel é justamente do final de 1966, e percebe-se através dela que o meio-irmão de Pessoa está a tentar ajudar Jennings a preparar um livro sobre Pessoa, cujo esquema geral lhe sugere: “E que tal uma biografia, não demasiado abreviada, seguida de traduções de alguns poemas de Fernando enquanto Fernando, depois os poemas completos de Alberto Caeiro e, a finalizar, alguns poemas de Ricardo Reis e Álvaro de Campos”. Susan Brown acrescenta que “Jennings completaria um tal livro por volta de 1974, dando-lhe o título de The Poet With Many Faces”. Mas a obra acabou por não sair, e muito do seu material iria parar, dez anos mais tarde, a Os Dois Exílios, a obra que deu notoriedade ao autor nos estudos pessoanos.

Em 1966, Jennings tem já 70 anos, mas o seu entusiasmo por Pessoa leva-o a aprender português e consegue uma bolsa da Gulbenkian para passar 18 meses em Portugal, no final dos anos 60, investigando o espólio do poeta, então ainda em casa da família. Igualmente divulgado neste número da Pessoa Plural, o inventário do espólio tal como o encontrou no final dos anos 60, é um dos documentos mais importantes do seu arquivo, que pode ainda reservar muitas surpresas.