Rebeldes sírios começaram a deixar o seu último reduto em Homs

Quatro anos e meio depois do início dos protestos, regime controla totalidade da cidade. Começou na Arábia Saudita o maior encontro de facções sírias

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Centenas de pessoas, incluindo rebeldes, começaram nesta quarta-feira a sair da última área de Homs que ainda se encontrava em poder da oposição, ao abrigo de um cessar-fogo negociado com o governo sírio. A trégua entrou em vigor no mesmo dia em que dezenas de grupos da oposição se reúnem na Arábia Saudita para tentar encontrar uma posição comum com vista a futuras negociações com Damasco.

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Centenas de pessoas, incluindo rebeldes, começaram nesta quarta-feira a sair da última área de Homs que ainda se encontrava em poder da oposição, ao abrigo de um cessar-fogo negociado com o governo sírio. A trégua entrou em vigor no mesmo dia em que dezenas de grupos da oposição se reúnem na Arábia Saudita para tentar encontrar uma posição comum com vista a futuras negociações com Damasco.

Os autocarros começaram a chegar ao início da manhã a al-Wair, um subúrbio da cidade que em 2011 se reclamava “capital da revolução” e que era o último reduto dos rebeldes desde que, em Janeiro do ano passado, a oposição armada deixou a Cidade Velha de Homs, ao abrigo de uma trégua idêntica. Um jornalista da AFP no local conta que os primeiros a embarcar foram mulheres e crianças, que esperavam desde a madrugada pelos dez autocarros que partiram pouco depois para uma zona controlada pela oposição na vizinha província de Idlib. Uns metros adiante, uma centena de combatentes, alguns empunhando armas ligeiras, outros feridos, entraram noutros cinco autocarros com o mesmo destino.

“Estamos a concretizar a primeira fase [da evacuação] que deve estar concluída até ao fim da próxima semana”, disse à agência de notícias o governador da cidade, Talal Barzani, adiantando que só nesta quarta-feira iriam sair de al-Wair 700 pessoas - 400 civis e 300 combatentes. Ao todo, dois mil rebeldes e as suas famílias deverão deixar a zona nos próximos dias.

Entre os que saem estão combatentes de uma facção da Frente al-Nusra, o braço sírio da Al-Qaeda, que não aceitou a trégua negociada entre outros grupos da oposição e Barzani. “Vou-me embora para continuar a combater noutro lugar”, disse um rebelde num vídeo da evacuação que foi colocado online por activistas dos Comités de Coordenação Local. Grande parte da província de Idlib está em poder do Exército da Conquista, uma aliança de grupos armados da qual faz parte a al-Nusra.

Muitos activistas dizem que estes cessar-fogos não passam de uma rendição às forças do Presidente Bashar al-Assad, após meses (às vezes anos) de cerco e ataques indiscriminados contra civis. Mas para a população, esgotada pela guerra, a trégua abre a esperança de um regresso à normalidade. “Esperamos o melhor. O que haveríamos de desejar se não segurança?”, disse um residente à BBC. Naquele subúrbio, onde antes da guerra viviam 300 mil pessoas, estarão agora pouco mais do que 75 mil habitantes, que receberam no início da semana os primeiros carregamentos de comida em quase um ano. 

Os observadores sublinham também que esta trégua - ao contrário da que a que é tentada há semanas para os subúrbios de Damasco - foi negociada directamente entre os grupos rebeldes e o regime, com condições definidas localmente. E, contrariando a ideia de rendição, o acordo prevê que os grupos que aceitaram cessar as hostilidades podem manter as suas armas e ficar responsáveis pela segurança das suas comunidades - só a polícia, e não o Exército, poderá entrar em al-Wair.

Um diplomata que acompanha a situação na Síria adiantou à Reuters que há esperança que a trégua neste subúrbio de Homs sirva de exemplo a outros zonas onde a guerra entrou no impasse. “Algumas pessoas dizem que há 40 ou 50 cessar-fogos locais que estão à espera de ser discutidos”, adiantou, sem revelar mais pormenores. 

Negociações em Riad

Com a guerra na Síria transformada num conflito cada vez mais internacional e complexo, as Nações Unidas acreditam que a chave para uma resolução poderá estar na multiplicação de tréguas locais, capazes de criar condições mínimas para a realização de negociações políticas. 

No final de Outubro, 17 países que apoiam ou o regime ou a oposição síria acordaram em Viena um roteiro que inclui negociações, a começar já em Janeiro, entre a oposição sem ligações a grupos terroristas e o governo sírio, seguidas de um cessar-fogo, da formação de um governo de transição no prazo de seis meses e da realização de novas eleições, já segundo uma nova Constituição, dentro de um ano e meio. 

A dispersão da oposição, com quase uma centena de grupos armados a lutar no terreno e nenhuma liderança política reconhecida, é um dos grandes entraves à aplicação deste plano, o que levou a Arábia Saudita a chamar a Riad um número sem precedentes de facções numa tentativa para unificar posições. “Começou a maior reunião da oposição síria”, noticiou a agência SPA, revelando que o chefe da diplomacia saudita, Adel Al-Jubeir, deu nesta quarta-feira as boas vindas a cem delegados de dezenas de grupos. A reunião vai durar dois dias e no fim das discussões, à porta fechada, será emitido um comunicado com as conclusões.

Da lista de convidados não fazem parte os grupos curdos sírios, nem a Frente al-Nusra que, tal como os extremistas do Estado Islâmico, estão classificados como terroristas. Mas em Riad está o Ahram al-Sham, próximo da Al-Qaeda, e considerado o mais bem armado depois do EI e da Al-Nusra. No comunicado em que confirma a sua presença na reunião, o grupo lamenta a “ausência de representantes das facções jihadistas à altura” do seu peso no conflito e avisa “não aceitará os resultados desta conferência” se da lista de exigências a apresentar a Damasco não fizer parte a saída de russos e iranianos da Síria, o derrube de Assad e o “desmantelamento dos serviços militares e de segurança sírios”.

Na véspera do encontro, o príncipe herdeiro saudita Mohamed ben Nayef encontrou-se com representantes de alguns grupos armados a quem garantiu que Riad “não abandonará em nenhuma circunstância o povo sírio” e não aceitará que Assad permaneça no poder, de forma transitória ou interina, adiantaram à AFP alguns dos convidados.