Líder religioso saudita diz que as centenas de mortes em Meca foram "destino inevitável"

A Arábia Saudita é acusada de não ser capaz de organizar a peregrinação a Meca. Irão defende que o hajj deve ser gerido por uma organização de países islâmicos.

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Reuters

“Quanto às coisas que os homens não podem controlar, não podes ser culpado por elas. A fortuna e o destino são inevitáveis”, disse ao príncipe, citado pela agência de notícias do Estado.

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“Quanto às coisas que os homens não podem controlar, não podes ser culpado por elas. A fortuna e o destino são inevitáveis”, disse ao príncipe, citado pela agência de notícias do Estado.

Mohammed Nayef é irmão e herdeiro ao trono do rei Salman. O líder saudita ordenou uma revisão das medidas de segurança do hajj, a peregrinação a Meca que todo o muçulmano deve fazer na vida. Nayef, também líder do comité nacional da peregrinação, iniciou por sua vez uma investigação ao ocorrido na quinta-feira.

A Arábia Saudita está a ser mais transparente na comunicação a outros países e sobre a revisão de políticas internas em casos como este, explica a BBC – o rei Salman foi às televisões pouco depois do acidente para falar das medidas de segurança na peregrinação. Mas mesmo assim, pouco está a ser feito aos olhos de outros países islâmicos, sobretudo o Irão, que acusam as autoridades de Riad de serem incompetentes na gestão do hajj.    

Na tarde desta sábado, o numero de mortos confirmados pelas autoridades sauditas subiu para 769, de pelo menos 18 países. Pelo menos 131 são iranianos – a identificação dos corpos ainda não terminou. O segundo país mais afectado é Marrocos, que disse terem morrido 87 cidadãos seus na quinta-feira.

Morreram esmagados e sufocados quando duas colunas distintas de milhares de peregrinos se confrontaram numa intersecção dos bairros de Mina, a cerca de cinco quilómetros da Grande Mesquita de Meca. As multidões vinham em sentidos opostos numa rua estreita e sem caminhos de fuga. Gerou-se o caos, para o qual podem ter contribuído as temperaturas intensas da manhã, e os empurrões transformaram-se em espezinhamentos.

Teerão, o rival dos sauditas no Médio Oriente, disse na noite de sexta-feira que a organização do hajj deve ser partilhada pelos Estados islâmicos, uma vez que considera que os sauditas não o conseguem fazer sozinhos. “A Arábia Saudita é incapaz de organizar a peregrinação”, disse o ayatollah Mohammad Emami Kashani, durante uma cerimónia religiosa em Teerão. São “incompetentes” e devem ser “responsabilizados”, acrescentou. Ouviu-se o mesmo no Quénia. "O Governo saudita tem sido incompetente neste tema", disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional. 

A acusação mais comum à gestão saudita do hajj é a de que esta se tem centrado demasiado em grandes construções de expansão e pouco na segurança dos peregrinos. O acidente de quinta-feira é o mais mortífero dos últimos 25 anos da peregrinação a Meca, mas não é de todo solitário. Em 2006, mais de 360 peregrinos morreram esmagados numa situação semelhante e, em 1990 e 1994, morreram 1426 e 270 pessoas, respectivamente, também por espezinhamento.

Desde o último acidente, em 2006, os sauditas gastaram cerca de 1200 milhões de dólares em obras de renovação de edifícios e acessos, assim como de melhorias das condições de segurança. Nada que se compare aos cerca de 40 mil milhões de dólares que os sauditas investiram na expansão da Grande Mesquita. O problema prossegue, como escreve a Foreign Policy: “Os espaços continuam demasiado pequenos e os fiéis continuam a ser demasiados.”

A gestão do acidente pelas autoridades sauditas também não tem sido a melhor. A resposta securitária foi visível e, para este sábado, último dia do hajj e da cerimónia de Aïd al-Adha (ou Eid al-Adha), estão destacados 100 mil agentes da polícia, segundo o Ministério do Interior saudita. Mas as autoridades continuam a trocar acusações com os peregrinos sobre quem foi responsável pelo acidente de quinta-feira.

Peregrinos e testemunhas dizem que o espezinhamento poderia ter sido evitado se as ruas perto da intersecção onde se deu o acidente não estivessem vedadas. Têm-se ouvido também críticas à forma como a polícia está a conduzir as multidões de fiéis, como escreve a Al-Jazira. Já o Governo tem insistido que cabe aos peregrinos cumprirem as normas de segurança, sugerindo que a debandada não foi responsabilidade sua.