Música

25 anos depois, os Prodigy de sempre são os bons Prodigy

No segundo dia do NOS Alive, os Prodigy foram iguais a si mesmos e isso era tudo o que lhes podíamos pedir. Os Mumford & Sons quiseram mostrar a sua nova vida e perderam-se pelo caminho.
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Olhamos para o palco e pouco conseguimos distinguir entre as "flashadas" de luz. Olhamos para os ecrãs e também nada se distingue: a imagem vem num preto e branco em que surgem recortadas silhuetas vagas. Não vemos, mas ouvimos. O som frenético e diabólico de uma rave em roda livre, de um concerto punk apocalíptico, de um concerto rock (estão lá baixo, guitarra e bateria) que é também electrónica de sintetizadores sinistros e ritmos quebrados. Os Prodigy chegaram ao fim da noite (0h30) para encerrar o palco principal NOS Alive. Não haver novidade no que mostraram foi tudo menos um problema.

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No segundo dia do festival que, desde 2007, se instalou no Passeio Marítimo de Algés, em Lisboa, a novidade foi, de resto, uma desilusão. Os australianos Sheppard estrearam-se em Portugal e, alternando o protagonismo entre o vocalista saltitão e a muito enérgica vocalista de cabelo azul (“Joy!” lia-se em cores garridas na t-shirt), mostraram-se uma estranha salgalhada de pop, rock e, ocasionalmente, folk-rock, com refrãos tão felizes e tão orelhudos que passaram por catálogo de jingle radiofónico – e lá chegou no final Geronimo, o hit que todos conhecem, como prova. Os Mumford & Sons, que lhes sucederam no palco principal, apesar de serem uma das bandas mais aguardadas da noite, foram conseguindo alienar o público sempre que mostravam as novas canções de Wilder Mind, o álbum editado este ano em que trocaram o folk-rock de refrão épico e bombo bombeando o ritmo, por rock eléctrico falho de identidade (podia ser qualquer coisa, podiam ser os Coldplay, pensámos aqui e ali).

O pouco memorável segundo dia do NOS Alive não nos ofereceu nenhum concerto arrebatador (reportamo-nos ao que vimos, naturalmente, dado que num festival desta dimensão é impossível ver tudo), mas os melhores momentos chegaram de “velhos” conhecidos. Foi o caso, no palco NOS Clubbing, da Batida criada por Pedro Coquenão, que reúne à sua volta uma imensa trupe e que é um verdadeiro festim para os sentidos pela riqueza dos ritmos mesclados (África nova e África antiga, Angola e Portugal unidos no mesmo gesto), pela união de performance de palco, com dança e coreografia livre, e de montagens vídeo que tanto nos mostravam o carnaval de Luanda (e Alegria chegou para a despedida) como serviam de homenagem a um gigante da rádio (e eis António Sérgio recordado).

Foi também o caso de Capicua, que encheu o mesmo palco, de si já lotado, com a verve admirável que trouxe ao hip hop português, capaz de ternura (Casa no campo), de festa bem afinada (a inevitável Vayorken) e de denúncia consequente (a magnífica Medo do medo e a não menos magnífica Medusa, desarmante no retrato do flagelo da violência doméstica, que trouxe o convidado Valete a palco). Apoiada pela habitual companheira de palco M7, suportada pelas ilustrações em tempo real que ofereciam no ecrã uma nova camada de leitura da música, mostrou uma vez mais que é uma rapper necessária e em estado de graça.

A eficácia dos Bleachers

No dia em que os Future Islands provocaram uma onda de entusiasmo no palco Heineken, com o público tão rendido ao synth pop e cintilância 80s da música, quanto à incontida e histriónica dança do vocalista Samuel T. Herring, nesse dia em que James Blake regressou para, uma vez mais, mostrar as suas canções rarefeitas, voz erguendo-se sobre o silêncio, perante uma tenda gigantesca mas, ainda assim, pequena para todos os que queriam vê-lo à uma da madrugada, descobrimos quando o sol ainda brilhava no céu que os Bleachers, sendo de Nova Iorque, só podiam ser de New Jersey - e isso foi a novidade do dia que valeu a pena.

O grupo que, em boa hora, reuniu Jack Antonoff, guitarrista dos anódinos Fun., é, digamos, um verdadeiro animal de festival. Tem um saxofonista que se arroja no chão em solos estrepitosos, um baixista que sobe o gradeamento de luzes para fazer um solo, tem Bruce Springsteen (por alturas de Born in the USA) a espreitar sobre o ombro de várias canções (daí falarmos de New Jersey), e faz de cada canção palco para muito, muito, movimento, muita excitação, descidas até às grades para comunhão com o público e pedidos para que este junte a sua voz à dele, e o público junta-se porque gosta de festa e comunhão. Não é certamente Springsteen, mas sabe muito bem como dar um concerto num festival de Verão.

Sem a enchente registada no primeiro dia, que levou 55 mil ao Passeio Marítimo de Algés para ver os Muse, mas com o recinto num corrupio constante de gente em deambulação, o público aglomerou-se frente ao palco principal, primeiro, para ver os Mumford & Sons. A banda trocou os coletes e as camisas brancas por casaco de cabedal, para condizer com o som eléctrico do novo álbum, e alternou entre o formato folk velha guarda, com contrabaixo, banjo e metais, e a nova vida eléctrica.

Marcus Mumford cantou o lamento que redundará em catarse, naquele neo-folk cruzado com o tom épico legado pelos Arcade Fire, e ouviu-se I will wait ou, com o vocalista sentado à bateria, Lover of the light. O som saído de palco era cristalino e o público aproveitava cada momento em que a cadência rítmica aumentava e as guitarras e banjo seguiam a aceleração com convicção para improvisar pequenas danças de celeiro em rodopio. O som saído do palco continuava cristalino, mas canções de Wilder Wind como Believe, o primeiro single, ou, principalmente, Tompkins Square Park, ligação directa ao rock FM de má memória da década de 1980 (solo virtuoso incluído no início da canção e tudo), castravam o entusiasmo do público. Tudo somado, resultou num concerto soluçante que não deixará grande memória. Também não é certo que os Prodigy a deixem, mas o seu concerto foi isento de solavancos.

O elogio do previsível

Se afirmamos que não há certezas que a banda fundada em 1990, autora de Fat of the land, tenha assinado um concerto que perdure na memória, fazemo-lo por culpa da natureza dos Prodigy. 25 anos depois, a banda ressurge como se o seu presente fosse sempre o mesmo, independentemente do ano em que os encontramos. E isso, neste caso, é um elogio.

Arrancam com Breathe, um dos clássicos, e a partir daí, não serenam por um segundo. Keith Flint e Maxim, os dois vocalistas, correm, esperneiam e cantam como se o mundo estivesse para acabar naquele preciso momento (e eles nada preocupados). À segunda canção, já se vê uma tocha iluminar-se entre o público. Quando chega Firestarter, outro clássico, já se abriu uma gigantesca roda de mosh, e ilumina-se outra tocha enquanto os corpos chocam na agressividade sem violência da dança. No palco, a banda toca sob uma torrente de flashes. Na plateia, vive-se uma euforia que ainda não tinha sido testemunhada no segundo dia de NOS Alive, misto de nostalgia pela memória que a música evoca e reacção instintiva à intensidade do som. Um fluxo contínuo, em que a indispensável Smack my bitch up convive sem sobressaltos com Rok-weiler, uma das novas de The Day Is My Enemy, álbum editado este ano. Não houve segredo nenhum, não houve espaço para qualquer surpresa. Foram os Prodigy de sempre. Não podíamos pedir melhor.

O NOS Alive termina este sábado. Os Jesus & Mary Chain a interpretar Psychocandy, Disclosure, Azaelia Banks, Sleaford Mods, Mogwai, Sam Smith ou Dead Combo são alguns dos concertos em destaque.