South Thanet não quer ser “a mancha negra” no mapa do Reino Unido

Na cidade costeira de Ramsgate, de onde se vê França num dia bom, as brigadas anti-Europa saem para a rua e os trabalhistas falam na “vergonha” de eleger Farage. Foi a campanha mais polarizada do Reino Unido.

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Se não for eleito, Farage promete afastar-se da liderança do UKIP BEN STANSALL/AFP

Foi por este círculo eleitoral do condado de Kent que Nigel Farage, o líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), decidiu candidatar-se a Westminster. A notícia fracturou a comunidade e a guerra partidária vê-se nas ruas. É a região mais polarizada do Reino Unido, que nesta quinta-feira escolhe um novo Parlamento e um novo Governo.

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Foi por este círculo eleitoral do condado de Kent que Nigel Farage, o líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), decidiu candidatar-se a Westminster. A notícia fracturou a comunidade e a guerra partidária vê-se nas ruas. É a região mais polarizada do Reino Unido, que nesta quinta-feira escolhe um novo Parlamento e um novo Governo.

“South Thanet não quer ser a mancha negra no mapa”, diz Peter Wallace, conselheiro municipal em Dover. Dover não pertence a South Thanet, mas Wallace está na sede do Partido Trabalhista da vizinha Ramsgate, a ajudar na campanha contra Farage. “Temos que usar todos os recursos, ajudar em tudo o que pudermos, para evitar a eleição deste homem”.

No Reino Unido, não há quem ouse classificar o UKIP de extrema-direita. Apesar das declarações do líder contra os homossexuais e os imigrantes do Leste, e do discurso nacionalista sobre fazer regressar o país à glória de antigamente. Por isso, diz-se que é xenófobo e isolacionista (anti-União Europeia). Para os apoiantes de Farage que estão na sede do partido no centro de Ramsgate, o líder do UKIP é simplesmente um “patriota”.

À espera de melhores dias
Ramsgate é uma pequena cidade de 40 mil habitantes na costa de Kent. O centro resume-se a meia dúzia de pequenas ruas numa encosta que cai sobre o canal da Mancha. Num bom dia, vê-se França do outro lado. Há uma praia ampla de areia grossa e branca.

Vive do turismo, Ramsgate. Mas a cidade tem uma atmosfera decadente – os bares e restaurantes colados uns aos outros na pequena marginal, o centro de lazer coberto com máquinas de jogos e carrosséis, as lojas de gelados, os edifícios do antigo porto de pesca, o mercado, a frota de barcos de recreio, alguns com bandeirinhas dos partidos e fotografias dos candidatos. Tudo e todos parecem esperar melhores dias.

Farage promete-os. Na sede do UKIP na cidade, toda decorada a roxo – a cor do partido –, as propostas para South Thanet forram as paredes.

Farage fez pouca campanha em South Thanet. Nos últimos dias, porém, multiplicou os encontros com os “seus eleitores”. Na segunda-feira, esteve em Gimsby, que, no final do século XIX e início do século XX, foi o mais importante porto de pesca do Reino Unido. Já não é, mas o candidato prometeu que voltará à glória do passado, quando o país sair da União Europeia (se ele ganhasse, a primeira coisa que fazia era abandonar Bruxelas).

À sua plateia, Farage disse que, por causa da EU, a frota pesqueira britânica foi desmantelada, e a que resta só pode ficar com 20% do que apanha. “O resto vai para a Europa”.

Na terça-feira, esteve em Margate, uma cidade igual a Ramsgate. A região, em crise (o desemprego é baixo mas, como no resto do país, o trabalho é cada vez mais precário e mal pago) e com uma população envelhecida, é um terreno fértil para Farage. O candidato prometeu reabrir o aeroporto (fechado por falta de procura), reactivar o ferry para o continente (também encerrado, Dover é o grande centro de ligação a França), salvar South Thanet dos imigrantes (um tema que ali não é um problema, 98% da população é branca) e, mais uma vez, ressuscitar a indústria da pesca.

Da sua sede de Ramsgate, uma brigada de voluntários sai para a rua, em campanha. São homens, aparentam todos ter mais de 50 anos, e têm a mensagem bem decorada. “Nos anos 70, votámos num referendo para entrar na Comunidade Económica Europeia. Aceitámos entrar num clube de comércio, mas isso já não existe, agora querem obrigar-nos a uma união política. Não aceitamos, não queremos ser governados por estrangeiros, queremos a nossa soberania de volta”, explica um voluntário, que não diz o nome e remete as perguntas para o gabinete de comunicação do UKIP.

Tudo empatado
Farage escolheu South Thanet para se candidatar (pela sexta vez) ao Parlamento de Londres por ter nascido em Kent. “Ele quer jogar com a ideia de que é um filho da terra, mas aqui todos sabem que isso não é verdade, ele nunca cá está”, diz o trabalhista Peter Wallace. Alguns analistas disseram que foi uma jogada arriscada, a de Farage. South Thanet é um dos círculos eleitorais mais erráticos do país, no passado tanto elegeu conservadores como trabalhistas.

As sondagens dizem aqui o que dizem em todo o lado: não se sabe quem vai ganhar. Há três candidatos muito próximos. Farage, o conservador e o trabalhista. O conservador chama-se Craid MacKinlay e já foi do UKIP – apesar de já não pertencer ao partido anti-imigrantes, a notícia de que tem uma empresa que recruta húngaros para trabalharem no Reino Unido foi um escândalo.

O trabalhista chama-se Will Scobie e também foi apanhado em falta, ainda que menos grave – na semana passada, foi visto com uma gravata roxa muito parecida com as que se vendem na sede do UKIP.

Scobie (os media locais preferem chamar-lhe Will) só tem tem 26 anos, mas é um político experiente e já foi presidente da Câmara de Margate. Por inerência, é o líder do movimento  “Stand Up to UKIP” (ergue-te contra o UKIP, criado por um jornalista local). Na semana passada, gente do Stand Up e das brigadas do UKIP envolveram-se em confrontos no centro de Ramsgate.

Scobie tem um obstáculo grande no seu caminho para Westminster: há uma parte da população que culpa os trabalhistas, que estavam à frente da administração local, pela decadência da região. A sua campanha centrou-se quase exclusivamente em temas locais: a revitalização da região, a reabertura do aeroporto e do ferry, a recuperação do sector do turismo. Se Farage for eleito, sugeriu o trabalhista, será uma vergonha para a região e um problema para a economia. “Esta terra vive do turismo e é a reputação da zona que está em jogo. Os comerciantes estão assustados, Farage não é um bom cartaz de promoção”, sublinha o conselheiro trabalhista de Dover.

As sondagens realizadas pelo UKIP mostram a vitória do seu líder. “Raios, parece que vamos ganhar”, disse o candidato numa ida a South Thanet, na semana passada, que fez primeiras páginas de jornais nacionais porque Farage, que gosta de cerveja, bebeu de mais e estava embriagado quando falou com os jornalistas.

Na sede trabalhista, desvalorizam as sondagens do UKIP. Wallace está convencido de que a maioria dos eleitores registados em South Thanet é contra Farage. Porém, ao contrário do que acontece noutras partes do país, em Ramsgate, Margate, Gimsby e todas as cidades e vilas de South Thanet, poucos têm vergonha de dizer que são apoiantes de Nigel Farage. A prova são os cartazes colados nas janelas das casas nas zonas residenciais de Ramsgate – há tantos cartazes com o vermelho trabalhista como com o roxo de Farage.

Will Scobie gostava de ganhar e ser eleito, mas também gostava de entrar na história como o homem que acabou com a carreira política de Farage – se perder South Thanet, prometeu este, sai de cena.

“Gostávamos que isso acontecesse, que Farage se fosse e o UKIP com ele”, diz o trabalhista de Dover. Se Farage abandonar a liderança, o partido pode mergulhar numa crise – o UKIP é considerado um partido de um só homem, demasiado dependente da personalidade e carisma do chefe.

A promessa está feita e até foi impressa. No capítulo 8.º do seu livro Revolução Púrpura – em que lembra e celebra a eleição como deputado europeu –, Farage escreveu: “Se perder South Thanet, é o cair do pano para mim”. O livro tem um subtítulo que promete ao Reino Unido que 2015 é o “ano da mudança”.