O tigre e o jacaré, ou a vida real filmada pelo cinema no IndieLisboa

Numa das melhores competições de sempre do festival, uma mão-cheia de “ficções do real” constroem-se a partir do mundo à sua volta. E a melhor delas é brasileira: Ela Volta na Quinta

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Enquanto isso, há quem guarde um tigre e um jacaré no 21º andar de um bloco de apartamentos do Harlem nova-iorquino. Parece ser o tipo de coisa de que só o cinema se lembra, mas aconteceu mesmo na vida real e serve de pretexto para falarmos de uma das mais intrigantes linhas de programação do IndieLisboa 2015: a presença cada vez mais forte na sua competição internacional dos chamados “cinemas do real”, filmes que diluem deliberadamente a fronteira entre “ficção” e “documentário”.

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Enquanto isso, há quem guarde um tigre e um jacaré no 21º andar de um bloco de apartamentos do Harlem nova-iorquino. Parece ser o tipo de coisa de que só o cinema se lembra, mas aconteceu mesmo na vida real e serve de pretexto para falarmos de uma das mais intrigantes linhas de programação do IndieLisboa 2015: a presença cada vez mais forte na sua competição internacional dos chamados “cinemas do real”, filmes que diluem deliberadamente a fronteira entre “ficção” e “documentário”.

Se é no DocLisboa que se tem sentido uma atenção mais regular aos cinemas do real, a verdade é que, dos onze títulos a concurso no Indie 2015 – e é um dos concursos mais fortes de sempre do certame -, quatro instalam-se propositadamente nessa “terra de ninguém”. Contam histórias que são verdadeiras embora não tenham acontecido exactamente assim, ou que não são verdadeiras mas podiam ter sido. Vêm dos quatro cantos do planeta e a sua proximidade em termos de produção e estilo é significativa do que se passa no mundo real onde o cinema não precisa de super-heróis para falar ao seu público.

Comece-se mesmo pela história do tigre e do jacaré: o nova-iorquino Antoine Yates teve mesmo durante alguns anos um tigre e um jacaré, a que chamou respectivamente Ming e Al, no seu apartamento do Harlem, e que foram descobertos em 2003. O artista plástico britânico Phillip Warnell conta essa história como ponto de partida para questionar ideias de inocência, natureza e civilização na sua longa Ming of Harlem – Twenty One Storeys in the Air (Culturgest, domingo 26, 21h30; Ideal, quarta 29, 22h00). O filme é francamente interessante nas suas “pontas” documentais, que acompanham Yates a regressar aos seus velhos poisos nova-iorquinos e recordar a sua relação com Ming. A secção central, contudo, é enfurecedora: espantosas imagens do tigre a habituar-se à casa (filmadas em 2014 num apartamento simulado na segurança de um jardim zoológico), por si só fortíssimas na sua abordagem falsamente documental, aparecem sonorizadas por um texto insuportável do filósofo Jean-Luc Nancy que leva, infelizmente, Ming of Harlem para o ensaio abstracto.

Daqui passamos para as ficções semi-improvisadas com actores na sua maioria não-profissionais. Da Eslováquia chega-nos Koza (São Jorge, sábado 25, 16h00; Ideal, segunda 27, 22h00), onde Ivan Ostrochovsky filma o antigo boxeur olímpico checo Peter Baláz numa ficção inspirada pela sua própria vida. No filme, Baláz vive de biscates e ensaia um regresso aos ringues para ganhar o dinheiro suficiente para pagar o aborto da namorada; na vida real, era um sem-abrigo que a demorada produção do filme (quatro anos) permitiu manter à tona e devolver a uma vida normal. Ostrochovsky, que havia anteriormente filmado um curto documentário sobre o boxeur, desenvolve Koza como uma ficção clássica sobre a exploração do homem pelo homem que se parece construir pacientemente sob os nossos olhos, mas o resultado final não traz sinais particulares que o distingam do neo-realismo pós-moderno na senda dos irmãos Dardenne.

É, aliás, um pouco esse o problema de Sivas (Culturgest, quarta 29, 19h00; Ideal, sexta 1, 22h00), do documentarista turco Kaan Müjdeci, ainda assim mais sólido do que Koza. A história de um miúdo que recupera um cão de combate como atalho para a sua aceitação e respeito é uma ficção sem complacências baseada na realidade da Anatólia rural e na própria experiência do realizador a filmar a região, contaminada por um olhar atento às tradições e jogos de poder locais que se mantém sempre à altura do seu herói (Dogan Izci, um miúdo não-profissional com uma presença de fazer inveja a muito veterano). Tanto Koza como Sivas evitam o exotismo sórdido, mas escorregam em demasia para a gaveta do “filme de festival” que se está a tornar numa armadilha perigosa.

Sobra o mais estimulante e convincente destes exercícios - tanto mais estimulante quanto marca a constante “pontaria” do Indie na divulgação dos novos talentos do cinema do “país irmão”. Depois de Kleber Mendonça Filho (O Som ao Redor) em 2012, Marcelo Lordello (Eles Voltam) em 2013 e Renata Pinheiro (Amor, Plástico e Barulho) em 2014, é a vez de André Novais Oliveira com Ela Volta na Quinta (São Jorge, terça 28, 21h45; Ideal, sábado 2, 22h00), exemplo perfeito do que deve ser uma “ficção do real”. O que aparenta ser um documentário sobre o quotidiano dos pais do realizador revela-se rapidamente ser uma ficção encenada, inspirada por factos verdadeiros e interpretada pelos próprios intervenientes. Ela Volta na Quinta mantém intacta a curiosidade e a disponibilidade do olhar documental (onde uma coisa tão simples como uma amolgadela num frigorífico pode ser um ponto de partida), mas usa-o como motor de uma ficção montada com estonteante naturalidade, uma estafeta entre os modos diferentes como os Novais Oliveira (pai, mãe e dois filhos) vão reagindo, enquanto indivíduos, às questões que os afectam enquanto família. 

É um dos momentos altos de uma das melhores secções competitivas de sempre do Indie, no exacto ponto intermédio entre a ficção desenvolta e fresca de Güeros, do mexicano Alonso Ruizpalacios, e o magnífico documentário-ensaio de Jean-Gabriel Périot, Une Jeunesse Allemande. E não são precisos super-heróis para chegar lá; basta só gente real.