A maioria dos cubanos quer sair da ilha

Numa rara sondagem, os habitantes de Cuba defendem uma aproximação aos EUA e mostram-se descontentes com o sistema político em que vivem.

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Os cubanos têm muito melhor imagem de Obama do que de Raúl ou Fidel

As raras sondagens na ilha dos irmãos Castro são sempre controladas pelo regime. As excepções são os inquéritos promovidos clandestinamente por organizações anti-Castro. Daí o valor da sondagem agora divulgada, baseada em 1200 entrevistas pessoais feitas em Março e realizada sem autorização governamental pela empresa Bendixen & Amandi International sob encomenda dos grupos de media Univision Noticias e Fusion. O jornal The Washigton Post associou-se à divulgação.

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As raras sondagens na ilha dos irmãos Castro são sempre controladas pelo regime. As excepções são os inquéritos promovidos clandestinamente por organizações anti-Castro. Daí o valor da sondagem agora divulgada, baseada em 1200 entrevistas pessoais feitas em Março e realizada sem autorização governamental pela empresa Bendixen & Amandi International sob encomenda dos grupos de media Univision Noticias e Fusion. O jornal The Washigton Post associou-se à divulgação.

Apesar do optimismo face ao novo período que se avizinha, os cubanos sabem que as consequências no seu quotidiano vão demorar – principalmente quando se trata de mudanças reais no sistema político ou na economia. Talvez por isso, o optimismo é acompanhado por um profundo descontentamento. E nada fala mais dessa insatisfação do que o número de cubanos que gostaria de deixar o seu país. São 55% os que querem viver fora, mais de dois terços quando apenas se consideram os jovens até aos 35 anos. Metade destes escolheria os EUA como destino.

“Apesar de o povo estar muito optimista com a nova abertura e com o que esta representa em termos do impulso que pode dar à situação económica, a grande maioria ainda quer ir-se embora, viver noutro país – em particular a geração do futuro”, faz notar, em declarações ao diário espanhol El País, Fernand Amandi, da empresa responsável pela sondagem.

Três quartos dos entrevistados admitem ter cuidado quando expressam as suas opiniões políticas. Faz sentido. São 53% os que se dizem “nada ou não muito satisfeitos” com o sistema político – e 58% os que dão nota negativa ao Partido Comunista. Quase metade (49%) explica esse descontentamento com a falta de liberdade, enquanto 52% defendem que devia haver mais partidos no país – ainda assim, para 28%, o Partido Comunista é suficiente.

Quase oito em dez (79%) não estão satisfeitos com o sistema económico – isto, apesar das reformas introduzidas por Raúl Castro, que ocupou o lugar de Fidel em 2006 e, desde então, abriu algumas áreas do mercado à iniciativa privada e permitiu aos cubanos vender e comprar propriedades.

E é assim que acabam por surgir como naturais as opiniões negativas que muitos cubanos têm dos seus líderes, Raúl, com quem 48% dos cubanos não estão contentes, ou Fidel, visto negativamente por 50% dos habitantes do país onde fez a revolução. Raúl reúne opiniões mais positivas entre a população mais velha, que, de forma geral, está menos optimista com as consequências de uma reaproximação aos EUA (ao mesmo tempo, os jovens tendem a ser mais positivos).

Já Barack Obama goza de uma imensa popularidade, com 80% dos entrevistados a darem-lhe nota positiva, tantos como os que têm uma boa opinião do Papa Francisco, que se sabe ter desempenhado um papel importante na defesa da normalização das relações junto dos líderes de Cuba e dos EUA. Mas já só metade dos cubanos vê os EUA como um país amigo (também são só 10% os que consideram o país inimigo), apesar de tantos ambicionarem lá viver um dia.

Em relação ao que funciona e ao que não resulta no país, as melhores notas vão para as áreas em que se sabe que o regime apostou fortemente, com pelo menos dois terços dos cubanos “muito” ou “de alguma forma” satisfeitos com os seus sistemas de Educação e de Saúde.

Supermercados e farmácias
Quando questionados sobre as suas prioridades para Cuba, 48% falam na melhoria da economia. A sondagem mostra que a maioria acredita que o fim do embargo trará benefícios para o turismo e diz estar interessada no acesso a bens básicos. No caso de haver um aumento das trocas comerciais com os EUA, o que os cubanos põem no topo da sua lista de necessidades são supermercados e farmácias. Em termos pessoais, daqui a cinco anos a maioria dos cubanos gostaria de se ver a viajar para o estrangeiro, a abrir um negócio ou uma conta-poupança.

“A minha impressão é que os cubanos continuam muito optimistas sobre este acordo [com os EUA]”, diz ao Washington Post Geoff Thale, director de programas do instituto Washington Office on Latin America. O desafio para o Governo cubano, defende Thale, é gerir as expectativas de mudanças rápidas dos cubanos e o tempo que vai demorar até que se verifiquem quaisquer alterações.

“Se formos um cubano a viver no centro de Havana, não vamos assistir a melhorias na nossa vida quotidiana durante algum tempo”, afirma o investigador. “É inevitável que as mudanças económicas abram um debate político e acredito que vai haver uma abertura e uma flexibilização política. Mas ninguém espera que daqui a três anos exista um sistema multipartidário.”