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Elas são jovens que não querem ser mães (e não são menos mulheres por isso)

Não se imaginam com um filho nos braços. São menos mulheres por isso? Vanessa, Eduarda e Silvana respondem: “Claro que não”. Como são vistas estas jovens, que dão uso à sua cidadania reprodutiva para tomarem uma decisão que ainda é minoritária?

Vanessa Moreira tem 27 anos e nenhuma vontade de ser mãe. Ouvir alguém dizer “daqui a uns anos falamos” quando revela que não quer ter filhos é coisa que a deixa irritada. “É natural: ou se quer ou não se quer, é algo que se sente. E eu sinto que não quero.” Não está sozinha nesta tomada de decisão. Integra aquilo que Ana Cristina Santos, investigadora que se dedica aos estudos de género, diz corresponder a “processos mais amplos de transformação na esfera da cidadania sexual, íntima e reprodutiva”. “Obviamente não é um processo novo”, ressalva em entrevista ao P3, “encontra é hoje condições para o seu exercício e discussão pública de uma outra forma”.

Quando as amigas começaram a dizer que queriam ser mães, Eduarda Ferreira, também com 27 anos, percebeu que não sentia a mesma vontade: “Comecei a projectar-me no futuro e a imagem que tenho — e que espero que um dia se concretize — sou eu com um homem e um cão. Nunca me consegui imaginar com mais do que isso”. Não querer ser mãe é, para Silvana Mota-Ribeiro, da Universidade do Minho (UM), “uma fuga ao padrão” — no fundo, é a “negação do discurso dominante da maternidade”, diz ao P3. Esta “falha na matriz”, como lhe chama, faz com que as mulheres que assumem não querer ter filhos sejam constantemente questionadas por quem está à sua volta.

“A quem, com a minha idade, disser que quer muito ser mãe, ninguém diz que é nova de mais”, argumenta Vanessa, natural de Aveiro. “É algo que aceitam como natural. Porque não aceitar como natural que eu diga, com esta idade, que não quero?”, questiona. “Começa a chatear-me um bocadinho ter que me justificar.” A estudante de mestrado em gestão estratégica de relações públicas sabe, desde criança, que não tem o desejo de ser mãe. Entende que as pessoas evoluem e, por isso, os comentários que ouve — “vais arrepender-te” é um entre muitos — deixam-na “um bocadinho desconfortável”. “É horrível, como quem diz que todas as mulheres que não querem ser mães são as primeiras a sê-lo (…) Parece que não temos o direito a mudar de ideias.”

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Para Silvana, estas mulheres são vistas como sem capacidade de amar que não a pessoa com quem estão Nelson Garrido

Falar de pressões sociais é falar de expectativas, de uma “biografia” que nos é imposta. “Temos aqui este guião, apoiado num imaginário do que é o cidadão ou o cidadã ideal, e temos de ir cumprindo”, aponta Ana Cristina Santos. Existe uma tendência, sugere, para a “menorização da capacidade de escolha das mulheres, a quem são passados autênticos certificados de menoridade”. Se tomam a decisão de não ser mãe “é porque terão algum problema de saúde que não nos estão a contar, passa-se ali qualquer coisa ou não encontraram a pessoa certa”. Há sempre um défice. Mesmo que estejam em relações estáveis e seja uma decisão alcançada em conjunto. “Estas pessoas são vistas como sem capacidade de amar que não a pessoa com quem estão”, perspectiva Silvana. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a percentagem de casais sem filhos aumentou de 32,2 em 1991 para 41,2 em 2011, ano dos últimos Censos.

Direito à cidadania reprodutiva

Pressões e expectativas interferem na “cidadania reprodutiva” de cada um. A investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC) explica: “Cada pessoa é chamada à responsabilidade e ao direito de determinar os termos em que decide ser cidadã, constituir ou não família, iniciar formas de conjugalidade convencionais ou não”. O argumento da “responsabilização moral das mulheres” é um dos que põe em causa o seu direito de exercer a cidadania reprodutiva. “Isto é alimentado por aquele fantasma extraordinário das baixas taxas de natalidade em Portugal e que colocam em causa, a médio-longo prazo, a sustentabilidade do estado social”, reflecte a também responsável pelo projecto Intimate. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), o índice sintético de fecundidade de Portugal situava-se, em 2013, nos 1,21 — valor muito abaixo do nível de substituição geracional (2,1).

Quando se espera que todas as mulheres sejam mães, “a verdade é que se espera mais de umas do que de outras”. De mulheres que pertencem a “grupos dominantes, educadas, brancas, de classes sociais favorecidas, casadas, heterossexuais”, nas palavras de Ana Cristina, espera-se que sejam reprodutivas. Já solteiras, adolescentes ou em situação económica precária são consideradas “irresponsáveis” quando engravidam. “Há uma diferença muito clara entre as expectativas sociais e culturais face à maternidade, em função do tipo de mulher que estamos a falar.”

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Vanessa, 27 anos

“Apesar de há décadas ter sido conseguida, através da medicina, a separação entre sexualidade e reprodução, a verdade é que essa separação, em termos culturais, não se deu na sua totalidade”, continua. Mulheres que decidem não ter filhos, independentemente de outras questões, estão a contribuir para duas transformações, enumera Ana Cristina Santos: “A primeira é a desnaturalização do sexo (que não tem de ser reprodutivo) e a segunda é a desnaturalização, também, dos papéis de género atribuídos às mulheres”.

Para se sentir realizada, uma mulher não tem de ser mãe, crê a mesma académica. E para ser feliz também não, defende Silvana. “Estas mulheres não são menos mulheres e não são uns seres egoístas”, sublinha a última, que também se refere a si mesma. Com 40 anos e uma relação estável há perto de dez, Silvana já respondeu que não queria ter filhos porque gosta de dormir. Fê-lo para desarmar quem lhe dirigiu tal pergunta, claro, mas admite que é mal visto: “Temos de usar alguma ironia para lidar com isto, para ridicularizar a coisa”. “Não me lembro de alguém ter perguntado as razões por detrás do facto de pessoas com uma relação estável decidirem ter filhos. Quando me perguntam porque não quero, costumo dizer: ‘E porque não?!’.”

Relógio biológico, uma construção

Já vimos esta cena em muitos filmes: uma mulher olha para as crianças que brincam no parque e, de repente, sente um clique e passa a desejar ter filhos. Esta construção, desvenda Silvana, “não implica outra pessoa” — o que deita por terra o conceito de relógio biológico. “Não encontrar uma pessoa para dar corda ao relógio biológico é a sua negação porque, supostamente, quando se fala de um relógio, fala-se de um prazo. Acredita-se que, numa determinada altura, por obra e graça das nossas hormonas, vamos querer ter filhos. Como se fosse uma necessidade biológica que acontece mais cedo ou mais tarde”, contextualiza.

O conceito da pessoa certa está sempre presente quando o assunto é a maternidade. Ao contrário de Eduarda, que admite ponderar a decisão se “encontrar alguém que a faça repensar o tema”, Vanessa duvida que isso possa acontecer. “A pessoa certa, para mim, será aquela que também não tenha um projecto de vida que passe por um filho”, afirma. “Se assim for (…), se ela quiser constituir família nesse sentido, eu não sou a pessoa certa para ela.”

“O argumento ‘não queres ter filhos porque ainda não encontraste a pessoa certa’ é particularmente curioso”, na opinião de Silvana. Faz parte de um discurso de complementaridade entre feminino e masculino, “ancestralmente imposto como tendo por fim principal a reprodução”, e que se integra numa sociedade que, “apesar de tudo, tem o catolicismo em cima”. “Vais acabar sozinha, não vais ter ninguém para cuidar de ti” é outro dos discursos comuns, “um fantasma brutal nas sociedades ocidentais” na opinião da investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da UM.

Contexto económico também importa

“[A maternidade] assusta-me mais a nível pessoal, porque todas as coisas que ainda quero fazer não se coadunam com um filho, mas acho que haveria sempre alguma implicação a nível profissional”, pensa Eduarda, para quem as mulheres, “quando querem muito ser mães”, escolhem correr esse risco. A argumentação apoiada no desenvolvimento da carreira profissional reflecte, para Ana Cristina Santos, um “contexto patriarcal e sexista”. “Mulheres que decidem não ter filhos — centradas na carreira e que a colocam à frente da família — são [vistas como] egoístas, o que também nunca se aplica no caso de homens que fazem a mesma escolha.” A jovem fotógrafa do Porto consegue compreender quem diz que é algo egoísta, embora não concorde — “egoísta seria querer fazer muita coisa e também ter filhos, não lhes dando depois a atenção devida”.

Neste momento Eduarda não tem “estabilidade económica nem independência total”, pelo que nem sequer considera a maternidade. “Se não posso, então não penso que o vou realizar”, diz a jovem fotógrafa. “Se estivesse numa situação mais estável, talvez fosse mais fácil definir o que queria ou não. Mas a vontade não está lá e não me parece muito que venha a surgir”, prossegue. “É uma questão demasiado grande para pedir a alguém que abdique. Mas as ideias mudam.”

Evitando generalizações, Ana Cristina Santos admite que não podemos dissociar esta decisão do contexto de crise económica, influente na medida em que “a autonomia e a vida independente são, cada vez mais, adiadas em termos etários”. Optar por frequentar uma universidade na área de residência de origem e ficar na casa dos pais até mais tarde tem consequências “ao nível da cidadania sexual e reprodutiva das jovens mulheres ou dos jovens homens”. Assim se explica, ainda que não só, o aumento da idade média da mãe ao nascimento do primeiro filho: entre 2010 e 2013, esta subiu de 28,9 para 29,7, segundo dados do INE.

Tanto Eduarda como Vanessa acreditam que podem vir a sentir maior pressão familiar ou da parte de amigos quando (e se) estiverem numa relação mais séria, futuramente. “Quando eu tiver mais uns aninhos em cima, se calhar vou perceber que a coisa está mais ou menos resolvida — não só porque decidi mas porque o tempo já passou. E quando isso acontece, metade do peso é-nos tirado de cima”, completa Silvana.