Artista português Vhils realizou vídeo para o novo álbum dos U2

Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, estava de férias quando foi contactado pelos U2 para a feitura de um videoclipe, que agora será incluído num novo lançamento visual intitulado Films of Innocence. É possível que também venha a participar na digressão do grupo no próximo ano.

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O vídeo de Vhils está incluído na edição de Films Of Innocence, um novo projecto visual à volta das canções do álbum Songs Of Innocence, que foi dado a conhecer esta terça-feira e que contém o trabalho de 11 artistas urbanos diferentes, organizados pelo realizador Jefferson Hack.

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O vídeo de Vhils está incluído na edição de Films Of Innocence, um novo projecto visual à volta das canções do álbum Songs Of Innocence, que foi dado a conhecer esta terça-feira e que contém o trabalho de 11 artistas urbanos diferentes, organizados pelo realizador Jefferson Hack.

A edição de Films of Innocence, cuja capa é da autoria do próprio Vhils, acontecerá a 9 de Dezembro ao preço de 9,99 euros, estando neste momento já em pré-venda na loja iTunes. É possível que venha a existir uma edição em formato físico, mas ainda não está confirmado. Para além de Vhils, estão representados artistas urbanos como Oliver Jeffers, Robin Rhode, D*Face, Mode 2 ou Maser, que tal como o português se inspiraram em canções dos U2 para a feitura de vídeos artísticos, reunidos em Films Of Innocence.

Tudo indica que Vhils também participará com trabalho visual na digressão mundial do grupo irlandês, que se deverá seguir no próximo ano, apesar da mesma também ainda não ter sido confirmada.

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Aos 27 anos, Alexandre Farto parece ter o mundo a seus pés. Está a ser um ano em grande para um dos artistas plásticos portugueses, oriundos da rua, com um trajecto internacional mais consolidado, com muitas solicitações de galerias, museus, bienais e projectos especiais, do Brasil à China.

E no entanto, a meio de Setembro, quando nos deu a conhecer o videoclipe para os U2, pela primeira vez a alguém exterior à sua equipa, era apenas alguém um pouco inseguro que nos olhava de frente. Estávamos no seu estúdio, finalizara o vídeo na véspera e estava acompanhado de Namalimba Coelho, responsável pela comunicação da Fundação Berardo e também da galeria Underdogs, que Vhils dirige com a namorada, Pauline Foessel.

Ao colocar o vídeo no computador para que o pudéssemos visualizar fê-lo com cuidado. Assinou um contrato de sigilo total sobre a operação com a equipa dos U2 que não pode ser quebrado nos últimos meses. Nem alguns membros da sua equipa, e muito menos os figurantes, sabiam o que estavam a fazer em Agosto, aquando das filmagens do vídeo nas instalações da Lisnave. O próprio Alexandre só foi avisado há poucos dias da data de lançamento da operação.

Os lobos

“Gostaram?”, perguntava, ansioso. “Mas gostaram mesmo?”, voltava a interrogar. Quem convive regularmente com artistas sabe que a insegurança é normal. Faz parte do processo criativo. Apesar do prestígio já alcançado, ele continua a viver todos os seus projectos como se fossem os primeiros. Não o exterioriza muito. É aparentemente tranquilo. Mas aquela chama iniciática está lá.

Não é a primeira vez que realiza um videoclipe. Já o fizera para os Orelha Negra ou Buraka Som Sistema. No novo vídeo dos U2 reconhecem-se técnicas que já utilizara, como o recurso à câmara-lenta, com os lobos correndo demoradamente por entre figurantes que deambulam numa paisagem industrial. E também se vislumbram algumas das explosões que lhe deram fama.

Começou a pintar paredes aos 13 anos, mas foi quando começou a escavá-las ligeiramente que captou a atenção. A técnica consiste em criar imagens em baixo-relevo através da remoção de camadas de materiais de construção. Agora essa técnica é aplicada no vídeo dos U2.

A canção não foi uma escolha sua, “mas foi perfeita para mim”, disse-nos. O contacto deu-se através da galeria que o representa em Londres, a Lazarides, a mesma de Banksy, por exemplo.

“Sabia através da minha galeria de Londres que já havia interesse da parte dos U2 que fizesse coisas para os concertos, nomeadamente ao nível dos explosivos. Ou seja, sabia que já conheciam o meu trabalho e que existia afinidade com o que fazia. Agora acabou por concretizar-se esse interesse”, afirma.

O convite surgiu no final de Julho, quando Alexandre se preparava para ir de férias, depois de meses esgotantes a preparar a exposição Dissecação, inaugurada pouco antes no Museu da Electricidade, em Lisboa.

“A minha primeira reacção foi: lixaram-me as férias!”, ri-se ele. “Estava muito cansado por causa da exposição do Museu da Electricidade e estava a precisar de desligar, mas com este convite era difícil. Os U2 são uma referência, não só pela música, mas porque em tudo o que fazem existe uma atitude criativa, seja na comunicação ou nas digressões. Existe sempre uma preocupação em tentar fazer de forma diferente e nova e isso é motivador.”

Deslocou-se a Londres para ouvir em estúdio a canção ainda não finalizada e depois trabalhou as ideias visuais a partir da letra. “Só consegui fechar tudo quando tive acesso à canção final no fim de Agosto”, revelou.

“Antes tinha apenas a letra e mesmo essa, a meio do processo, foi alterada. A letra acaba por conter uma série de referências que se adequam com o meu trabalho, no sentido em que existe um registo quase documental nas alusões às cidades. Foi perfeito ter uma linha condutora integrada no meu trabalho.”

O conceito e a concepção foram concretizados até 20 de Agosto. Seguiram-se nove dias de preparação, dois de filmagens, “foi um processo que demorou um mês”, afirmou.

A escolha do espaço da Lisnave, em Cacilhas, não foi acaso. É um lugar que o fascina. “Já tinha trabalhado lá no vídeo dos Buraka, apesar de isso não ser muito evidente, mas o meu encantamento pela Lisnave vem de longe. Cheguei a entrar lá para pintar algumas vezes. É um espaço com enorme potencial e que está abandonado há não sei quanto tempo, porque ninguém sabe muito bem o que fazer com aquilo.” 

Durante o processo criativo existiram contactos entre Vhils e a equipa dos U2, mas a liberdade foi total. “Foi tudo feito aqui, sem nenhum envolvimento exterior. A partir do momento em que ficou assente que a minha ideia fazia sentido e percebi que eles ficaram motivados com ela, foi desenvolvê-la, através de mim e de outras pessoas, como o André Santos, em termos de edição.”

A reacção em Londres foi excelente, afirma Vhils. “Existiram outros artistas convidados que optaram por trabalhar obras animadas e parece-me que eles não estavam nada à espera de uma coisa no registo que criei. Mas a verdade é que sempre tive esta forte relação com o acto de filmar e é algo que gosto de explorar. Para mim é um videoclipe, mas é também uma peça.”

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O artista em frente a uma obra de 2012 nos muros da antiga Fábrica de Braço de Prata, Lisboa Miguel Manso

Ao contrário do que se possa imaginar, tendo em atenção a dimensão dos U2, o orçamento para a feitura do vídeo não foi muito elevado, segundo Alexandre. Sem referir números, garante que embora seja “um valor substancial para os dias de hoje”, não é nada de significativo se tivermos em atenção “o que foi filmado ao longo de dois dias e as pessoas que envolveu”.

Estava disponível um grande número de figurantes. Mas mesmo assim, em determinados momentos, teriam sido necessários mais. É por isso que o próprio Alexandre entra numa das cenas. “Não foi opção, foi contingência”, disse-nos, revelando que nem sempre foi fácil coordenar figurantes e lobos. Ou melhor, meio lobos, meio cães.

“Não foi fácil encontrá-los, mas acabou por acontecer em Mafra, são 40% lobos e 60% cães checos, e portaram-se muito bem. Se fossem lobos puros seria provavelmente mais problemático.”

Foto
Obra em Ponta Delgada, Açores Rui Soares

Nos últimos tempos, Alexandre tem tido enorme reconhecimento. Em Portugal a exposição do Museu da Electricidade fê-lo chegar ao grande público. E talvez pela primeira vez também se ouviram vozes críticas ao seu trabalho. É o outro lado da visibilidade. 

O vídeo dos U2, um grupo que convoca admiração mas também polémica, poderá exponenciar algumas resistências. “Talvez. Não sei”, afirma. “Para já sinto-me agradecido por perceber que todo este trabalho que tenho feito faz sentido. É bom sentir-me envolvido em projectos aliciantes em que sou obrigado a puxar pelos meus limites. A minha motivação para fazer este vídeo é a mesma que tenho quando faço uma obra ou uma peça. É apenas um meio diferente, nada mais.” 

Neste momento Vhils encontra-se no Brasil, em Recife, onde inaugura, a 21 de Novembro, a mostra Incisão, que estará patente na Caixa Cultural Recife até 25 de Janeiro, com entrada gratuita.

A exposição desenvolve questões que têm sido transversais ao seu trabalho: identidade, desenvolvimento, interacção entre comunidades, adaptação e sobrevivência no caos do mundo contemporâneo.

Apresentada pela primeira vez na Caixa Cultural Curitiba, Incisão, é fruto da estadia que o artista ali realizou em Março de 2014 e que se estendeu à comunidade Guarani de Araçai, em Piraquara, Paraná.

Não é a primeira vez que Vhils opera no Brasil. Em 2012 desenvolveu o projecto Providência e, em 2013, Fragmentos, ambos no Rio de Janeiro. O último projecto, inserido no conjunto de iniciativas do Ano de Portugal no Brasil, era constituído por uma exposição individual de 15 trabalhos inéditos (no Clark Art Center) e por interferências na fachada da própria galeria e em três espaços públicos de Copacabana.