O brasileiro, o britânico e a quinta de Manoel de Oliveira

Dois estrangeiros apaixonados por Portugal encontraram na Quinta de Covela o lugar ideal para o projecto de vinhos. Enfrentaram um banco insolvente e um granizo impiedoso, mas saíram vencedores.

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O telefone deu sinal indicando a chegada de uma mensagem. Era de Marcelo. “Você conhece a Quinta de Covela?” Tony Smith respondeu imediatamente: “Não conheço a quinta mas conheço os vinhos e são muito bons. Porquê?”

A mensagem vinha do Rio de Janeiro. Marcelo Lima estava com a mulher num hotel, à beira da piscina, aproveitando o feriado, e acabara de conhecer dois portugueses, construtores civis de Braga que tinham chegado à cidade procurando novas oportunidades de negócio e foram surpreendidos pela notícia de que era feriado.

Em conversa, os dois acabam por falar da Quinta de Covela, em Baião, na região dos Vinhos Verdes, no Norte de Portugal. Acontece que Marcelo, empresário brasileiro com negócios em áreas que vão da moda à banca passando pela publicidade ou a refrigeração, e Tony, britânico, antigo jornalista e ex-correspondente em Portugal da Associated Press, andavam há já algum tempo à procura de uma quinta de produção de vinho para comprar. E daí o sms do Rio para São Paulo, onde Tony vivia na época.

Foi pura coincidência o facto de Tony já conhecer os vinhos da Covela. Mas esta, como se verá, é uma história feita de muitas coincidências. Durante os muitos anos que viveu em Portugal — primeiro como correspondente em Lisboa, onde chegou pela primeira vez em 1988, depois como repórter de guerra, mas com base ainda nessa cidade —, Tony costumava ir frequentemente ao Algarve. “Lembro-me perfeitamente”, conta à Revista 2. “Um dia estávamos num bar na praia Ferragudo e um amigo apresentou-me os vinhos, dizendo-me: ‘Tens de experimentar, são de uns tipos lá no Minho que estão a fazer umas coisas diferentes.’ E de facto, na época, misturar Avesso com Chardonay era bem diferente.”

Hoje, passados cinco anos, são Marcelo e Tony os novos “tipos lá no Minho a fazer umas coisas diferentes”. Os dois amigos e empresários, fundadores da Lima&Smith, entraram no mundo dos vinhos em Portugal, comprando primeiro, em 2011, a magnífica Covela, antiga propriedade do realizador Manoel de Oliveira, e mais tarde as quintas das Tecedeiras e da Boavista, no Douro. E é esta história, de coincidências e de surpresas, de aventuras e de desaires, de paixão e de visão, que os dois se preparam para contar, no cenário cinematográfico da Covela.

As nuvens escuras e ameaçadoras enrolam-se no céu sobre as nossas cabeças e aumentam o dramatismo das ruínas do século XVI situadas numa das partes altas da quinta — uma capela, ao lado, um solar, com uma escadaria imponente e, na fachada que ainda permanece de pé, as janelas abertas para o vazio, como um palco à espera dos cantores de ópera.

“Contratámos um arqueólogo para fazer um estudo sobre estas ruínas porque não há registos históricos sobre elas”, explica Marcelo. “Este conjunto provavelmente é do século XVI e tem um pouco um conceito de cenário, é muito mais imponente do lado de fora do que do interior. Tem essa escadaria cinematográfica, meio hollywoodiana, e essa estrada que vai descendo até ao rio Douro. Foi construída de forma a que do Douro se visse ao longe a casa e a capela.”

Viemos à Covela neste domingo do final de Setembro porque era a véspera do regresso de Marcelo ao Brasil e era, por isso, uma oportunidade única para o conhecer e ouvi-lo contar a história desta aventura. Uma história que, neste texto começou com o sms do Rio para São Paulo, mas que, na verdade, podia ter começado antes, num lugar improvável: o Uzbequistão.

Foi na capital uzbeque, em 2000, que Marcelo ouviu falar pela primeira vez em Tony. “Um dia eu estou em Bukhara tomando uma cerveja com um alemão e um australiano à beira de uma praça do século XII, falei que era de São Paulo, e o alemão me disse: ‘Um amigo meu superbacana acabou de se mudar para São Paulo, vou te dar o contacto dele’.” A viagem continuou e ao grupo inicial juntaram-se mais um italiano, uma portuguesa e um espanhol. “A característica mais alucinada desse grupo”, recorda o brasileiro, “é que a única língua em comum era o português”.

No final, regressando ao Brasil via Lisboa, Marcelo levava o contacto de outro conhecido do alemão, com quem jantou e que lhe falou, novamente, de Tony, o tal “amigo superbacana”. Não havia como não o contactar, e foi isso que Marcelo fez. Ficaram amigos até hoje. E — agora é Tony quem conta — em São Paulo costumavam encontrar-se para tomar um copo de vinho ao final da tarde. Nessas conversas, já nenhum se lembra bem como, começaram a falar da ideia de um dia fazerem vinho.

“De repente”, diz Tony, “estávamos vendo o preço por hectare de vinícolas em Napa Valley”, na Califórnia. Marcelo é um pragmático. “Comecei a avaliar a ideia de investir depois que vi que faz algum sentido económico. Não queria fazer alguma coisa só por diletantismo, porque é cool.” Correram vários países, Áustria, Itália, Espanha, puseram a hipótese da Alemanha, da França. E, claro, Portugal, onde viram mais de 40 propriedades por todo o país. “Fomos ao Alentejo, a Azeitão, que parecia perfeito, perto de Lisboa, lugar lindo, a propriedade chegava até ao mar, tinha bosques, campos, depois a gente olhou no Dão, na região de Monção, Ponte de Lima, e acabou tomando a decisão com a Covela, que foi daqueles casos de amor fulminante”, resume Marcelo. Mas não foi fácil.

Percorremos os caminhos da Covela ao lado de Marcelo, ouvindo a história. Já começou a chover. Passamos pela antiga casa de pedra, onde habitou Manoel de Oliveira. As histórias desse tempo, Marcelo e Tony só as conhecem através do senhor António, o feitor. Conta-se que quando Manoel de Oliveira quis casar com Maria Isabel Brandão de Meneses de Almeida Carvalhais, o pai desta argumentou que ele não tinha “bens ao luar”. O jovem noivo comprou então a propriedade que ficava em frente da Covela, que já então pertencia à família da noiva. E assim, passou a ter “bens ao luar” e, com o casamento, a Covela quase duplicou de tamanho.

Dessa casa de granito — a quinta fica na fronteira entre a zona granítica da Região dos Vinhos Verdes e a região de xisto dos Vinhos do Porto — avista-se toda a paisagem romântica da Covela, com a vinha, os pomares, o riacho, o antigo moinho de pedra agora recuperado. Ao lado da casa há um tanque. Marcelo pára por um momento para contar uma história.

“A gente soltou uns peixinhos dourados neste tanque. Eles ficaram felizes aqui um ano, um ano e meio. Aí, no Inverno passado, chegou um pato selvagem que decidiu ficar por aqui e que ficava sempre na borda do tanque.” Tony interrompe: “A gente pensava: porque é que esse pato está sempre aí? E, depois, um dia: onde estão os peixinhos?” Marcelo completa, rindo: “O pato tinha comido os peixinhos, mas depois os cachorros atacaram o pato. Foi a cadeia completa.”

Só Tony vive na Covela (embora passe os primeiros seis meses do ano quase sempre a viajar). Marcelo vem com a mulher e as filhas no Verão, e depois volta na altura da vindima, para acompanhar os trabalhos. Mas quando o ouvimos falar temos a impressão de que vive aqui o tempo todo — conhece cada detalhe, cada história, sabe tudo acerca das castas, da vindima, dos vinhos, encanta-se com os trabalhos de melhoramento, a recuperação do antigo moinho de água, a construção da pequena ponte sobre o riacho, que tem o nome da mãe dele porque foi feita para que ela pudesse passar, quando aqui esteve com as suas cinco irmãs.

Estamos precisamente no antigo moinho, e na nova ponte, de onde temos de fugir rapidamente porque chove cada vez mais. Ouvimos Marcelo contar:

“Nasci no Brasil, numa região chamada Triângulo Mineiro”, começa a contar. “A minha mãe nasceu numa fazenda que tinha a vila mais próxima a dois dias a cavalo e não tinha estradas. O meu avô, para que as filhas estudassem, tomou a decisão de se mudar para essa vila, chamada Campina Verde, onde abriu uma loja de tecidos e onde eu nasci. Mas, mesmo nessa altura, era uma cidade sem energia eléctrica, só tinha um motor a diesel que funcionava algumas horas por dia, não tinha água encanada, não tinha asfalto. A cidade mais próxima era a quatro horas e meia por uma estrada que não era pavimentada.”

Foi aí que morou até aos 13 anos. Aos 14, foi sozinho para Belo Horizonte para estudar e, aos 16, Marcelo, que “como todo o mineiro não conhecia o mar”, foi pela primeira vez ao Rio de Janeiro. “Adorei. Liguei para o meu pai e falei: ‘Pai, estou pensando fazer faculdade aqui no Rio, tudo bem?’ Aí, ele falou: ‘Mas acha que vai ser bom para você?’, e eu, olhando aquela praia toda, respondi: ‘Bom? Acho que vai ser óptimo’”, recorda, com uma gargalhada.

Foi no Rio que conheceu Beatriz Kopschitz Bastos, com quem casou, e depois iniciou a sua carreira, primeiro num banco e a seguir como empresário, quando achou que não podia ficar apenas dando conselhos para os outros sem arriscar. “Decidi comprar 50% de uma agência de publicidade cuja receita era um pouco maior do que o meu salário e, como aconteceu depois em todos os meus negócios, todo o mundo falou que eu estava louco. Mas correu superbem.”

Hoje, Marcelo Lima é accionista do grupo Artesia e tem investimentos em áreas muito variadas, a mais recente das quais é a dos vinhos. “Não tenho a pretensão de tocar cada um desses negócios e não acredito que se tentasse ser o gestor do dia-a-dia de cada um deles seria bom. O meu talento é mais ter a visão. Quando me perguntam qual o meu plano para daqui a cinco anos, eu digo que não sei. O meu plano é fazer o melhor possível nos próximos dois, três anos. Mas, acima de tudo, acredito que as pessoas devem ser recompensadas, que é importante o mérito e a qualidade.”

Tendo nascido numa vila pequena, Marcelo tornou-se um homem do mundo, com uma paixão por viajar. Quando era adolescente, aborrecia-se com a ideia de ter de passar férias na fazenda da família. “A família do meu pai era da mesma região que a da minha mãe. Ele tinha 12 irmãos, o mais velho foi ser padre e levou o seguinte com ele para estudar, esse formou-se em Direito e levou o outro para estudar, e assim com os outros. O meu pai acabou decidindo ser comerciante, era dono de uma farmácia.”

Mais tarde, o pai comprou uma fazenda (e depois ainda chegou a comprar parte da fazenda do avô materno de Marcelo) e era aí que os perto de 80 primos passavam as férias. “Os meus primos da cidade todos contentes e eu, pré-adolescente, pronto para conhecer o mundo e pensando ‘meu deus, quero viajar, conhecer coisas novas’.” E, no entanto, foi ele quem herdou a parte da fazenda que tinha sido do avô materno e onde hoje tem gado e até plantou teca, a madeira do Sudeste asiático que demora 30 ou 40 anos para ficar pronta para vender.

Foi só em 2000 que Marcelo e Beatriz viajaram até Portugal. “Apaixonei-me por Portugal sem o conhecer. Eu e Beatriz fomos ver o filme A Casa da Rússia com o Sean Connery e a Michel Pfeiffer. Ele tinha uma casa em Alfama e ficava olhando Tejo. Eu adorei, e fiquei idealizando esse lugar até que viemos de viagem.”

 
Tony apaixonara-se por Portugal 12 anos antes. Tinha então 26 anos. “Cheguei aqui em 1988, um dia depois do incêndio do Chiado. Vinha enviado pela Associated Press, e o facto de no meu primeiro posto como correspondente ter um país inteiro para mim foi uma coisa fantástica.” Não era só um país, porque o posto em Lisboa veio com as ex-colónias, para onde também passou a viajar com frequência.


“Nunca tinha estado em Portugal. Quando recebi o convite, vim passar um final de semana para saber se ia gostar. Cheguei a Lisboa, olhei para aquela luz, olhei para rio, para o mosteiro dos Jerónimos…” Marcelo interrompe: “Ele disse que parecia Tânger.” De novo Tony: “Era exótico, diferente do resto da Europa, aquela luz, o céu azul, o branco das casas, disse logo que sim.” Até esse momento, a sua experiência profissional tinha sido em Frankfurt a cobrir o Bundesbank, e Lisboa era, claro, muito diferente. Só havia um problema: Tony não falava uma palavra de português.

“Tive de aprender”, conta. “De manhã ia para o Cambridge, na Av. da Liberdade, das 8h às 10h, e depois ia para o escritório na Praça da Alegria, por cima do Maxim’s. E rezava para que o telefone não tocasse, porque não entendia nada.” Ligava o rádio para ouvir o programa de António Sala, que “tinha uma dicção fantástica”. E foi aprendendo.

Até mudar radicalmente de vida e dedicar-se aos vinhos, Tony foi sempre um homem do jornalismo e, durante um período da sua vida, foi mesmo correspondente de guerra, escrevendo para a Associated Press e também para o The New York Times. Esteve em vários conflitos, da ex-Jugoslávia a África — até ao dia em que, durante uma breve passagem por Lisboa, entre uma guerra e outra, pensou que aquilo já não fazia sentido para ele.

Dedicou-se depois ao trabalho de editor, sobretudo com revistas, e era isso que fazia, para a Condé Nast Internacional, quando se mudou de Lisboa para São Paulo nesse ano de 2000 — o ano em que Marcelo e Beatriz fizeram uma longa viagem por Portugal, antes de Marcelo partir sozinho para o Uzbequistão, onde ouviu pela primeira vez falar em Tony.

Contada a história até aqui, temos de regressar ao tal momento, do início do texto, em que, depois de muito procurarem quintas, os dois decidem ir conhecer a Covela. Estávamos em 2009. “Marcelo estava indo para Istambul e eu para uma reunião da Condé Nast em Londres, trocámos os nossos voos e encontrámo-nos no Porto, fizemos um passeio com o senhor António, estava a chover a potes, para variar, e no final da visita ambos sentimos que aqui tinha tudo o que a gente queria: uma marca, beleza natural, algum património histórico e uma história interessante pela ligação com o Manoel de Oliveira. E, além disso, o Covela era o meu vinho do Verão.”

A quinta pertencia ao banco BPN, então já em insolvência, e por isso ia a leilão (já pela segunda vez, dado que na primeira não tinha havido comprador). Tony e Marcelo discutiram quanto iam oferecer e ficou decidido que seria um valor um pouco acima do preço base de licitação. “Fomos, e não havia mais ninguém a licitar”, conta o britânico. “Ainda hoje vejo a cena em câmara lenta, o homem com o martelo: uma, duas e… antes da terceira vem o protesto. Alguém disse ‘alto!”, só faltava aparecer a Julia Roberts a dizer ‘não vou casar, vou fugir’.”

Hoje Tony ri-se quando recorda o episódio, mas na altura ficou incrédulo, primeiro, e depois “tristíssimo”. A objecção veio do advogado do próprio BPN, que declarou que o banco não estava de acordo com o valor e se reservava o direito de fazer uma licitação própria. Saiu da sala por instantes para telefonar e quando voltou apresentou um valor 86% mais alto que o de Marcelo e Tony. Não havia nada a fazer. “O homem bateu o martelo, o BPN ganhou.”

Estamos agora a jantar no restaurante da Fundação Eça de Queiroz (um lugar favorito dos dois amigos e de Beatriz), especializado, como não podia deixar de ser, em “pratos queirosianos”, e enquanto nos servimos do frango alourado e do arroz de favas à moda de Tormes, em homenagem ao Jacinto de A Cidade e as Serras, Tony prossegue com a saga da Covela.

“Uma semana mais tarde, estava eu já de regresso ao Brasil, o nosso advogado liga-nos a dizer que o BPN não pagou o sinal, nem sequer a comissão do leiloeiro e que o administrador da insolvência estava tão furioso que os ia colocar em tribunal.” Tony e Marcelo pensaram que era o fim, imaginando já o caso a arrastar-se na justiça durante décadas. Mas — mais uma coincidência —, a certa altura, o amigo que apresentara a Tony os vinhos da Covela telefona-lhe a dizer que tinha sabido que o banco ia ser obrigado a vender tudo.

Marcelo intervém: “Fomos ao BPN para uma reunião, e comprámos a propriedade.” Estávamos em 2011 e a Covela tinha ficado abandonada durante praticamente dois anos. Os vinhos da vindima de 2009, que na primeira visita dos dois amigos estavam nas cubas, tinham sido abandonados e estavam estragados. Tony: “Eles podiam ter dito ao feitor, o senhor António, para ficar com as uvas, mas mandaram todo o mundo embora, e chegou uma altura em que não pagaram a conta da electricidade. A luz foi cortada e os 60 mil litros de vinho de 2009 perderam-se.”

Marcelo e Tony decidiram recontratar a antiga equipa da Covela, sete pessoas, todas de Baião. “Uma das coisas que nos chamou a atenção foi o facto de o salário das mulheres ser 40% mais baixo que os dos homens, para o mesmo trabalho”, recorda o brasileiro. “A gente achou totalmente sem sentido isso e subimos o salário das mulheres.”


As recontratações incluíram, claro, o enólogo Rui Cunha. Se era ele o homem que tinha já conseguido fazer vinhos diferentes, e muito bons, na Covela, seria ele a estar também nesta nova fase. “Na primeira reunião com o Rui, perguntei: ‘O que é que você precisa para fazer os seus vinhos de sonho aqui na Covela?’”, recorda Marcelo. “Ele me deu uma lista e eu disse: ‘Tudo bem, mas se daqui a três anos esse vinho não for realmente bom você não vai poder dizer que não tinha as condições ideais. O ‘se’ não vai valer.’ E ele aumentou a lista.”

A quinta, de produção biológica, foi toda recuperada, a vinha foi replantada, foram tomadas as decisões-chave. Uma das apostas de Rui Cunha era fazer um vinho verde. Mas essa é outra história. É que, mesmo depois de resolvido o problema da compra da quinta, as coisas continuaram a não ser fáceis para a firma Lima&Smith. É Tony quem recorda: “Tomámos a decisão de não vinificar a vindima de 2011 para não corrermos o risco de o nosso primeiro vinho não ser do nível que queríamos. E aí veio a vindima de 2012 — e deu tudo errado.”

O ano de 2012 foi assim: em Janeiro e Fevereiro “nem uma gota de chuva, tudo seco, seco”; e Março — precisamente na altura em que Tony concretizou a sua mudança radical de vida, transferindo-se de São Paulo para Baião — “foi o dilúvio”. No dia 29 de Julho, Tony estava sentado na varanda da sua casa, com vista para o Douro. “Olho para a esquerda e vejo uma coisa branca em cima do rio, vinda de Espanha. Era uma nuvem. De repente, ouço um barulho, pic, pic, pic. Pensei ‘isso não é chuva’. Olhei para fora — era granizo. Foram dois concelhos apanhados, Sabrosa e Baião. E nós perdemos metade do Chardonay. Foram, no máximo, dois minutos. É aí que você reconhece o seu lugar no esquema das coisas, percebe que não somos nada. Logo no primeiro ano, a gente não merecia isso. Tínhamos tido tanto cuidado, foi tudo muito bem pensado e, de repente, dois minutos e você não pode fazer nada.”

Decidiram dar a volta e tentar encontrar algo de bom no desastre. Rui tinha falado em fazer um vinho verde com a casta Avesso, mas tinham decidido que nesse ano iam fazer apenas uma experiência-piloto. Com a perda do Chardonay, “transformámos o piloto do Avesso no nosso plano B”. E o vinho foi um sucesso. Uma casta de Baião, muito pouco conhecida e “muito sensível” revelou-se uma aposta ganha. Depois fizeram o Arinto e as coisas correram também muito bem. “Na [revista] Wine & Spirits conseguiu 92 pontos, o que para um branco é muito bom e para um verde é quase inédito, só os Alvarinho é que geralmente conseguem pontuação acima dos 90”, afirma Tony.

“A gente acredita nas castas locais, o Avesso, o Arinto”, frisa Marcelo. “Antes fazia-se aqui 50% de tinto e 50% de branco. Decidimos, com o Rui, aumentar a percentagem dos brancos, e hoje, brancos e rosés representam quase 90%. O rosé — a ideia foi fazer um rosé mais leve — foi espectacularmente bem sucedido, foi quase todo vendido no primeiro dia da prova.” O terroir dos brancos estava encontrado e agora os dois investidores procuravam quintas onde pudessem dedicar-se aos tintos. No Verão de 2013, compraram à Sogrape a Quinta da Boavista (80 hectares, 40 dos quais de vinha e 9 de vinhas velhas), uma das mais emblemáticas do Douro. É para lá que nos dirigimos, com Tony ao volante, na manhã seguinte. E de seguida compraram à Dão Sul a Quinta das Tecedeiras (67 hectares, na sub-região do Cima-Corgo) e um nome herdado das freiras que ali viviam e que se dedicavam à tecelagem do linho), onde fazem o Flor das Tecedeiras e o Porto Quinta das Tecedeiras LBV.

Tony pára o carro à entrada da Boavista. Para os vinhos desta quinta histórica, ligada ao Barão de Forrester, que aqui pernoitava enquanto desenhava o seu célebre mapa do Douro, a Lima & Smith vai contar com uma consultoria de luxo: Jean Claude Berrouet, o enólogo que durante cerca de 40 anos fez em Bordéus um dos mais prestigiados e mais caros vinhos do mundo, o Pétrus. Berrouet já está a trabalhar com Rui Cunha e os primeiros vinhos da Boavista deverão chegar ao mercado no final de 2015.

A aproximação ao famoso enólogo francês, conhecido pelo enorme respeito pelas características de cada terroir, foi facilitada pela ligação da Lima&Smith à Champy, histórica casa de vinhos da Borgonha, em cujo capital os dois produtores do Douro entraram este ano.

Situada na margem direita do Douro, perto do Pinhão, a quinta tem uma paisagem completamente diferente da da Covela, mas não menos impressionante, mantendo ainda os terraços antigos, anteriores à filoxera que destruiu as vinhas da região. Ao fundo dos socalcos, junto ao cais para as embarcações, surge o Douro. Tony aponta para a entrada da quinta. “Aqui é a antiga alfândega. Antigamente a Boavista servia não só para as próprias uvas serem transportadas rio abaixo, mas também para as uvas de outras quintas, que pagavam portagem aqui.”

Um papa-figos levanta voo sobre a vinha. Tony continua: “Quando descobriram que a cura para a filoxera era o [porta-enxerto] ‘americano’ onde eram enxertadas as castas locais, voltaram a plantar vinha mas toda em terraços novos, ninguém plantou nos antigos.” De onde estamos vê-se o “oratório”, com os terraços altos, ondulando no terreno. “São dos terraços mais altos do Douro, alguns têm oito e nove metros de altura.”

A quinta — onde além da paisagem extraordinária, existem os velhos lagares de pedra, preservados, e o cais onde se pode chegar de barco — vai poder ser visitada, tal como já acontece com a Covela. Tony e Marcelo querem apostar no enoturismo de dia, que permite aos visitantes conhecer as quintas e provar os vinhos num ambiente descontraído. “Normalmente, quando você vai numa vinícola, explicam tudo, desde o carvalho francês à maceração, e essas coisas técnicas não interessam à maioria das pessoas”, diz o brasileiro. “O que nós queremos fazer é aquilo a que se chama casual tasting [provas informais], acredito que esse deverá ser o nosso caminho.”

Sentamos-nos para almoçar na Casa do Barão. Conversamos sobre os projectos da Lima&Smith, a aposta nos mercados internacionais, sobretudo Brasil, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, nos estrangeiros que têm trazido à região e que daqui saem sempre encantados com a paisagem do Douro. Mas também da necessidade de se fazer mais para promover os vinhos portugueses e o Douro, de pensar melhor nas infra-estruturas — “em Napa Valley, há um wine train que sobe e desce o vale quatro vezes por dia, com almoço a bordo se você quiser”, lembra Tony.

Na véspera, Marcelo dissera que a valorização do vinho português é o seu objectivo de médio e longo prazo: “É um trabalho que nós, produtores de vinho em Portugal, vamos ter de fazer em conjunto para ganhar mais espaço nas listas de vinhos do mundo inteiro. Não faz sentido que hoje Portugal não tenha num qualquer restaurante no estrangeiro um espaço de garrafeira pelo menos igual ao de países como a África do Sul ou a Nova Zelândia. Há críticas muito boas aos vinhos portugueses, mas temos de traduzir essas críticas em melhor distribuição e num trabalho de branding, para combater a tendência que ainda existe de os vinhos portugueses ficarem só nos restaurantes portugueses.”

Olhamos lá para fora. É possível que, no século XIX, o barão de Forrester tenha olhado por esta mesma janela, vendo os terraços plantados com vinha e o Douro lá em baixo, enquanto desenhava o seu mapa e pensava no futuro do vinho do Porto.

Hoje, no século XXI, quem olha pela mesma janela são um britânico e um brasileiro, com uma história que começa no Uzbequistão, atravessa oceanos, percorre países vinícolas à procura da propriedade certa, encanta-se com a que pertenceu ao mais histórico dos realizadores de cinema portugueses, enfrenta um banco em desnorte e um granizo impiedoso para chegar até aqui, às margens do Douro.

E para, mais uma vez, transformar estas uvas em vinhos únicos e especiais. Não foi por acaso que, depois de anos a percorrer quintas no mundo, Marcelo e Tony chegaram aqui e pararam.