Seis mortos e crescentes divisões deixam cessar-fogo na Ucrânia por um fio

Combates em Donetsk, no Leste, fazem pelo menos seis mortos. Tropas norte-americanas e de outros 14 países iniciam exercício militar no extremo oposto do país.

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Os dois lados acusam-se mutuamente de violarem a trégua PHILIPPE DESMAZES/AFP

A trégua assinada no dia 5 de Setembro nunca foi cumprida integralmente, mas estava a servir pelo menos para travar o crescente número de vítimas mortais entre a população civil. Desde o início da guerra no Leste da Ucrânia, em Abril, já morreram cerca de 2700 pessoas e várias centenas de milhares procuraram refúgio em outras zonas do país e na Rússia.

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A trégua assinada no dia 5 de Setembro nunca foi cumprida integralmente, mas estava a servir pelo menos para travar o crescente número de vítimas mortais entre a população civil. Desde o início da guerra no Leste da Ucrânia, em Abril, já morreram cerca de 2700 pessoas e várias centenas de milhares procuraram refúgio em outras zonas do país e na Rússia.

O cenário agravou-se nas últimas 24 horas com a notícia de seis mortos e 15 feridos em Donetsk, uma cidade controlada pelos combatentes separatistas pró-russos. Como tem sido habitual desde a assinatura do cessar-fogo, as duas partes acusam-se mutuamente de violarem o acordo.

Na noite de sexta-feira houve combates no aeroporto de Donetsk, que é uma das poucas áreas ainda controladas pelas forças do Exército ucraniano. O correspondente da BBC na região, Paul Adams, viu disparos de artilharia nas proximidades do aeroporto, mas também rockets, numa acção que descreveu como "mais concertada" do que até então.

De acordo com o porta-voz do Conselho de Defesa e Segurança Nacional da Ucrânia, Andri Lisenko, as forças de Kiev conseguiram resistir ao ataque dos separatistas e no sábado à noite continuavam a controlar o aeroporto de Donetsk.

Os combates reacenderam-se no domingo, com "os rebeldes a dispararem a partir de zonas residenciais e as forças ucranianas a responderem do aeroporto", segundo jornalistas da agência AFP.

OSCE em perigo
Ao balanço de seis vítimas mortais – avançado à AFP pelo vice-presidente da Câmara de Donetsk, Kostiantin Savinov – junta-se o relato dos observadores da OSCE, que dizem ter escapado por pouco a um bombardeamento.

No boletim diário sobre a situação no terreno, a missão especial da OSCE na Ucrânia relata uma visita no domingo ao mercado de Putilovka, na cidade de Donetsk, que tinha acabado de ser atingido.

"Elementos da 'República Popular de Donetsk' presentes no local disseram que quatro pessoas tinham sido mortas no incidente. A cerca de 20 metros da sua posição, a equipa da OSCE viu o corpo de uma mulher civil na rua", lê-se no comunicado.

Ainda no local, os membros da organização presenciaram a queda de "quatro projécteis", que "explodiram num espaço de 20 segundos a cerca de 200 metros da posição da equipa".

"A equipa de monitorização parou noutro local, a um quilómetro do mercado. Cerca de dez minutos mais tarde, caiu outro projéctil, a 100 metros da posição da equipa, que saiu imediatamente da área", conta a OSCE.

Em declarações à agência Reuters, o porta-voz Michael Bociurkiw disse que "todos os colegas conseguiram regressar à base, mas ambos os veículos ficaram seriamente danificados".

"É um incidente muito sério. É a primeira vez que os nossos veículos foram atingidos", disse o porta-voz da OSCE, sublinhando que não sabia quem tinha sido responsável pelo bombardeamento e que nada indicava que o alvo era a equipa de monitorização.

Situação "preocupante"
A contínua violação do cessar-fogo assinado no dia 5 de Setembro entre o Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, e os líderes das autoproclamadas repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk já fez mudar o tom de relativo optimismo que se ouvia no início da semana passada.

No sábado, o primeiro-ministro da Ucrânia, Arseni Iatseniuk, disse que o seu país continuava em "estado de guerra" com a Rússia, que Kiev e a NATO acusam de enviar tropas para lutar ao lado dos separatistas – uma acusação negada por Moscovo.

Para o chefe do Governo ucraniano, o Presidente russo, Vladimir Putin, "não consegue lidar com a ideia de que a Ucrânia vai fazer parte de uma grande família europeia", e o seu objectivo é "restaurar a União Soviética".

Nesta segunda-feira, o líder da autoproclamada República Popular de Donetsk, Alexander Zarkashenko – um dos homens que assinou o acordo de cessar-fogo no dia 5 de Setembro, em Minsk –, questionou a relevância da realização de uma nova ronda de negociações esta semana, anunciada pelo antigo Presidente ucraniano Leonid Kutchma, que representa a Ucrânia nas negociações.

"De que serve falarmos novamente esta semana e que iremos nós discutir? Primeiro é preciso respeitar o cessar-fogo. Kiev não respeita as condições da trégua alcançada nas negociações de Minsk. Os bombardeamentos sobre as nossas cidades e as nossas posições continuam", acusou Alexander Zarkashenko.

Também o Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, começa a afastar o seu discurso do optimismo manifestado nos primeiros dias do cessar-fogo. Numa conversa telefónica com a chanceler alemã, Angela Merkel, os dois líderes "expressaram preocupação com os casos de violação do cessar-fogo na região do Donbass e concordaram em fazer mais esforços para resolver a situação de forma pacífica".

O acordo assinado a 5 de Setembro prevê a aprovação pelo Parlamento ucraniano de uma lei que concede um "estatuto especial a alguns distritos das regiões de Donetsk e Lugansk".

Com o passar dos dias, tornou-se evidente que os termos do acordo não satisfaziam algumas facções de ambos os lados – em Kiev falou-se em concessões excessivas e do lado dos separatistas houve acusações de traição aos representantes presentes nas negociações, já que muitos não aceitam menos do que a independência das duas províncias.

Também em Kiev houve acusações de traição, mas por causa do adiamento da entrada em vigor do acordo com a União Europeia por um ano, para finais de 2015, o que é visto pelos opositores de Petro Poroshenko como uma vitória da Rússia. "Não pode haver um único dia em que travamos o nosso caminho em direcção à Europa", disse a antiga primeira-ministra Iulia Timoshenko, que descreveu o adiamento como "uma traição aos interesses nacionais".

Enquanto os combates prosseguem no terreno, com maior violência na região de Donetsk, centenas de tropas dos Estados Unidos e de outros 14 países iniciam nesta segunda-feira um exercício militar no extremo oposto do país, junto à fronteira com a Polónia.

O exercício Rapid Trident 14, liderado pelo comando das Forças Armadas norte-americanas na Europa (USAREUR), tem como objectivos "promover a estabilidade e a segurança regional, fortalecer a capacidade de parceria, fomentar a confiança e melhorar a articulação entre a USAREUR, as forças terrestres da Ucrânia e outras nações (da NATO e parceiras)", lê-se no site oficial.