O séc. XXI, um segundo século americano?

As elites que mandam no Ocidente não aprenderam nada com a História e continuam a olhar para o mundo com uns óculos neocoloniais grossos.

Fukuyama disse que tínhamos chegado ao fim da História e a uma época de paz: com a implosão da União Soviética (tida como a derrota do comunismo), 45 anos depois da derrota de Hitler, sobrava a democracia liberal, modelo anglossaxónico, que se ampliaria a todo o mundo. O disparate ruiu rapidamente, até porque insinuava um futuro sem guerras que não agradava nada a quem não queria ver a indústria bélica a perder uma despesa pública que se sabia impune. 

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Fukuyama disse que tínhamos chegado ao fim da História e a uma época de paz: com a implosão da União Soviética (tida como a derrota do comunismo), 45 anos depois da derrota de Hitler, sobrava a democracia liberal, modelo anglossaxónico, que se ampliaria a todo o mundo. O disparate ruiu rapidamente, até porque insinuava um futuro sem guerras que não agradava nada a quem não queria ver a indústria bélica a perder uma despesa pública que se sabia impune. 

A segunda tese, de Samuel Huntington, teve muito mais êxito porque solucionava o problema da anterior: julgou-se que o triunfo do capitalismo significava o fim dos conflitos? Nada disso! O mundo continuava dividido em bons e maus, já não opostos na ideologia mas na “cultura”: entráramos na era do choque de civilizações. A tese era sedutora porque solucionava os problemas de autoestima que os ocidentais pós-descolonização tinham tido, basicamente retomando o velho discurso do “fardo do homem branco”, de que falara Kipling: cabia ao Ocidente a tarefa de civilizar o resto do mundo. Acariciava-se o ego ocidental ao se insinuar que o problema era o misto de inveja e de ódio que o resto do mundo tinha pelo western way of life. Os inimigos do Ocidente não era gente que pensava de forma diferente; eram diferentes, ponto final! Em linguagem racista dos manuais de liceu do séc. XIX, dividia-se o mundo em oito civilizações (Huntington não sabia bem se os africanos teriam uma...), três delas estavam a associar-se contra o Ocidente: a “Islâmica”, a “Eslava-Ortodoxa” (na boa tradição germânica de deseuropeizar os eslavos) e a “Confuciana”. Num texto medíocre, Huntington, tomado a sério por meio mundo (por alguma razão ele ensinava em Harvard, era conselheiro do governo, dos militares e da CIA), vinha dar um ar de grande ciência às velhas teorias da conspiração dignas de uma banal mesa de café: o mundo está contra o Ocidente; este que nem pensasse em desarmar, agora que já não havia União Soviética, porque continuava a haver muçulmanos malvados (ainda que Bin Laden fosse, nos anos 90, na Bósnia e no Kosovo, um recrutador de mujahedin para os americanos, pouco antes de se virar contra eles); russos e sérvios podiam ter deixado de ser comunistas mas continuavam a ser cristãos ortodoxos (portanto, menos cristãos); e os chineses ainda pareciam algo comunistas. Era o capitalismo predador do Ocidente responsável pelos conflitos que atraía contra si, pelas guerras mundiais e coloniais que havia desencadeado? Huntington tranquilizava os ocidentais: da mesma forma que os europeus tinham achado que as guerras contra a sua dominação colonial haviam resultado de esquemas de Moscovo e de Pequim contra colonos que só queriam o bem de africanos e asiáticos, também agora o Ocidente devia armar-se contra um mundo de inimigos da civilização, fossem eles Saddam, Miloševic, Al-Qaeda, Ahmadinejad, Chávez, Putin, Estado Islâmico, ou a China inteira (lá chegaremos...).

50 anos depois da descolonização, as elites que mandam no Ocidente não aprenderam nada com a História e continuam a olhar para o mundo com uns óculos neocoloniais grossos como fundo de garrafa! O Choque de Civilizações, incompatível com tudo quanto as Ciências Sociais têm provado em décadas de investigação, continua a ser a bíblia de demasiada gente, sobretudo quando se descreve o mundo como as aventuras de um super-herói (os EUA), seguido pelos seus colegas, frequentemente cobardes, de uma organização esforçada (a NATO) que, ao contrário da ONU, só quer a segurança do mundo, como (e só nestes últimos 13 anos) bem se demonstrou no Afeganistão, no Iraque, na África Ocidental, na Líbia, na Síria, em Gaza, na Ucrânia…

É assim que se quer fazer do séc. XXI o segundo século americano, nascido no 11 de Setembro de 2001. Com uma diferença - uma enorme diferença – relativamente ao séc. XX: os EUA, hiperespecializados na guerra, serão cada vez mais a tropa de choque do planeta, já que estão a deixar rapidamente de ser uma potência económica decisiva perante a ascensão de uma Ásia e, secundariamente, de uma América Latina, que vão ganhando cada vez mais autonomia. Porque a Europa, essa, é cada vez mais um atrelado. E mais o será quanto mais achar, como acham os governantes conservadores e ex-socialdemocratas deste continente, que, apesar de tratados como suspeitos (veja-se as escutas da espionagem americana a todos eles), há que correr a reconstituir a unidade do Ocidente sob a liderança do Capitão América e a sua promessa de uma economia permanentemente renovada em grande aventuras armamentísticas - veja-se o apelo de Obama e Cameron a aumentar o gasto público militar, num modelo de reativação da economia por via do rearmamento que produziu nada menos que a II Guerra Mundial.

Na era da guerra permanente, que se recusa a explicar os conflitos e os resume todos a um mesmo terrorismo, sempre dos outros, perderam-se todas as veleidades europeias de autonomia (como as da França e da Alemanha que se opuseram, há 11 anos, aos EUA e aos seus ineptos aliados britânicos no Iraque) e, entre a islamofobia e a russofobia populares, volta-se a um discurso neocolonial do choque de civilizações.