Os professores não sabem escrever ou ignoraram Acordo Ortográfico?

IAVE não tem dados para se perceber se erros ortográficos na prova de avaliação dos docentes estão ou não relacionados com o novo acordo. Mas há quem considere que é essa informação que diz se professores não sabem escrever ou se só não aceitam acordo.

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Não há contas feitas sobre o número de professores necessários se o Inglês se tornar obrigatório Nelson Garrido/Arquivo

Certo é que mais de seis em cada dez docentes deram erros ortográficos e isso está a gerar polémica. “São dados preocupantes”, diz João Costa, professor da Universidade Nova e antigo presidente da Associação Portuguesa de Linguística, para quem as condições em que a prova foi feita, marcada por boicotes e tumultos, ou o facto de no exame só ser considerada correcta a grafia que segue o novo acordo, não desculpam os números.

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Certo é que mais de seis em cada dez docentes deram erros ortográficos e isso está a gerar polémica. “São dados preocupantes”, diz João Costa, professor da Universidade Nova e antigo presidente da Associação Portuguesa de Linguística, para quem as condições em que a prova foi feita, marcada por boicotes e tumultos, ou o facto de no exame só ser considerada correcta a grafia que segue o novo acordo, não desculpam os números.

Na PACC, cujos resultados foram divulgados na segunda-feira e na qual 85,6% dos candidatos passaram, uma das partes implicava escrever um texto. Neste grupo, 62,8% das respostas acusaram um ou mais erros ortográficos; 66,6% um ou mais erros de pontuação; e 52,9% um ou mais erros de sintaxe.

“Pressupõe-se que um aluno à saída do ensino secundário seja capaz de escrever sem erros, parece-me natural que um professor de qualquer área domine a ortografia, a pontuação e a sintaxe. E a pontuação e a sintaxe não têm a ver com o acordo”, diz João Costa que concorda que os critérios de correcção incluam o novo acordo, uma vez que quem quer dar aulas vai ter de o aplicar nas escolas.

O PÚBLICO perguntou ao Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) se os erros ortográficos registados na prova são, na maioria, por incumprimento do novo acordo ou não, mas o IAVE respondeu que “não existem dados específicos que possam responder a essa questão”. Lembrou que o novo acordo “está em vigor nas escolas”, pelo que “é coerente que seja exigido aos candidatos a professores” que escrevam segundo essa grafia e ressalvou que a pontuação e a sintaxe “não têm qualquer relação com o acordo”.

O IAVE disse ainda que nos casos em que o novo acordo o permite, foi “respeitada e aceite a dupla grafia”.

Sintaxe é mais “importante”
O secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira, discorda que os professores sejam penalizados se optarem por não escrever segundo o novo acordo. Alega que “não é obrigatório” por lei usar o novo acordo e que, embora tenha sido adoptado nas escolas, os docentes “não tiveram formação” nem para escrever, nem para ensinar segundo as novas regras.

“Não estou a justificar ou desculpar, professores não podem dar erros. Mas acho que teria utilidade perceber se são erros de aplicação do acordo, se são gralhas, ou se são erros de quem não sabe escrever”, argumenta. E garante que vai “divulgar os erros ortográficos dos documentos” que a Fenprof recebe do Ministério da Educação e Ciência (MEC): “Se fez essa divulgação dos erros, também deve achar inadmissível dá-los nos seus documentos.”

Cerca de 15% dos professores deram cinco ou mais erros ortográficos; 18% deram três ou quatro erros e 30% um ou dois; 37% não deram nenhum.

Já para o antigo presidente da Associação de Professores de Português, Paulo Feytor Pinto, “a ortografia oficial do país” é a do novo acordo, é a seguida nas escolas, a que é exigida nos exames aos alunos, e, por isso, “faz sentido” que na correcção da prova dos professores se penalize quem não escreva segundo essas regras.

Ainda assim, gostava que o IAVE divulgasse o tipo de erros de que se está a falar, porque podem ter “a ver com a formação inicial” dos docentes ou, então, podem dizer “apenas se os professores aderiram ou não ao acordo”. Para Paulo Feytor Pinto, os docentes já tiveram tempo de dominar a grafia do novo acordo e se não dominam é “porque não querem”.

Porém, ressalva, “a ortografia é a parte mais visível da escrita, mas não é a mais importante”: “É tão pouco importante que pode mudar por lei, o que mostra o nível superficial da ortografia. Já a sintaxe não se muda por lei. Na sintaxe é que está a estruturação e ordenação do texto. Onde passa o raciocínio do autor é na sintaxe. Preocupa-me mais que uma pessoa não saiba pôr duas ideias seguidas do que troque um ‘s’ por um ‘z’. ‘Quiser’ há 100 anos escrevia-se com ‘z’, a lei pode mudar isso”, defende.

Foi na sintaxe que os docentes se saíram melhor: nas respostas de 47,1% nada há a apontar. “A sintaxe é o mais importante, por isso não estou aflito. A ortografia pode ter a ver com um problema de aceitação dos professores [do novo acordo], é um problema superficial”, diz Paulo Feytor Pinto.

O facto de docentes de diferentes disciplinas terem ido fazer a prova também não é irrelevante para este professor, uma vez que “ao longo da formação”, alunos de outras áreas, que não de Português, são menos penalizados pelos erros. “Os professores de outras disciplinas raramente descontam erros, nas avaliações. É sobretudo avaliado o conteúdo, não a forma.” E dá como exemplo o estudante que, num exame de Ciências, escreva bactéria sem acento, considerando que não será penalizado.

O dirigente da Associação Nacional dos Professores Contratados, César Israel Paulo, também defendeu, em declarações à agência Lusa, que a situação dos erros na prova “não é anormal”, tendo em conta as condições em que se realizaram os exames. “O IAVE e o MEC tiveram realmente muita preocupação em relevar a questão dos erros ortográficos. Queria saber porquê, mas [o facto de se terem registado os erros] não me parece anormal devido ao novo acordo ortográfico e às condições de realização” da prova, disse.

Lista de aprovados
O desempenho dos docentes na PACC foi conhecido na segunda-feira. Nesse dia, a Fenprof questionou a razão pela qual as listas tornadas públicas tinham apenas os professores aprovados e não aqueles que reprovaram. O PÚBLICO questionou o MEC sobre este aspecto que respondeu que “todos os candidatos têm conhecimento da sua situação específica”, acendendo à plataforma do Sistema Interactivo de Gestão de Recursos Humanos da Educação. “Em termos de divulgação pública, o dado relevante é de facto a aprovação, uma vez que serão os candidatos nessa lista aqueles com menos de cinco anos de serviço que poderão concorrer aos concursos de recrutamento e selecção de professores”, lê-se na resposta. Com A.S.