Almeida Faria conseguiu não chorar na FLIP

Dois cavalheiros da literatura, o chileno Jorge Edwards e o português Almeida Faria contaram histórias de amizades literárias no último dia da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

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O brasileiro, que publicou apenas três livros e cuja obra está entre o que há de melhor na literatura brasileira, já viajava muito pouco naquela época (agora não viaja quase nada) e desde 1984 que não publica livros. E disse ao escritor português: “Este meu livro saiu agora no Brasil e como eu acho que ele deve muito ao seu livro A Paixão eu quis vir oferecer-lhe o livro pessoalmente”.

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O brasileiro, que publicou apenas três livros e cuja obra está entre o que há de melhor na literatura brasileira, já viajava muito pouco naquela época (agora não viaja quase nada) e desde 1984 que não publica livros. E disse ao escritor português: “Este meu livro saiu agora no Brasil e como eu acho que ele deve muito ao seu livro A Paixão eu quis vir oferecer-lhe o livro pessoalmente”.

Foi assim que, no domingo à tarde, o único português convidado para esta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) contou como conheceu pessoalmente um dos mais misteriosos escritores brasileiros. “Graças a este encontro breve nós tornámo-nos amigos, mas amigos à distância. Depois disso estive muitos anos, mais de 25 anos, sem o ver. Em 2001 vim a São Paulo e claro que o visitei e agora, esta semana, irei visitá-lo. Serão três encontros ao longo da vida mas são encontros a que dou muita importância.”

É precisamente este livro, A Paixão, de 1965, que acaba de ser publicado no Brasil pela Cosac Naify - editora onde também está publicado Valter Hugo Mãe. O escritor Paulo Roberto Pires, moderador da sessão na Tenda dos Autores, disse que “o livro é um espanto”. No entanto Almeida Faria considera hoje que Lavoura Arcaica é ainda melhor do que A Paixão

Outro dos encontros memoráveis do escritor português de 71 anos aconteceu mais recentemente, há dois anos, quando foi convidado para a Festa Literária de Porto de Galinhas (Fliporto) e pediu para o colocarem em diálogo no palco com Ariano Suassuna (1927-2014), escritor que morreu no mês passado. Ele aceitou e o tema foi o sebastianismo. “Convidou-me também para ir a casa dele, toda a manhã leu-me o seu romance inédito e ofereceu-me 30 quilos das suas obras completas. E depois participámos num debate assistido por milhares de pessoas e foi muito divertido. No último dia da festa dedicou-me o seu espectáculo, disse que era dedicado 'àquele portuguesinho desconhecido'”, contou Almeida Faria, que tem agora a ideia de escrever uma continuação do seu romance O Conquistador (1990), que se passará no Brasil e poderá ter Ariano Suassuna entre as personagens. 

Almeida Faria é um leitor de poesia brasileira desde muito cedo. “Como sou feminista tenho um grande fraquinho pelas escritoras”, brincou. “Clarice Lispector, que era também um poeta em prosa, sempre me pareceu uma escritora fora do comum. Aliás anotei aqui uma frase dela que considero muito próximo daquilo que eu quero fazer: ‘A palavra é a isca para pescar o que não é palavra’.” E explicou que isto quer dizer que a literatura deve tentar ir além dela própria e dizer mais do que o que está nas palavras. “Graças a essa isca das palavras podemos ultrapassar-nos a nós mesmos. Pelo menos no meu caso, no final de um livro fico a saber sempre mais sobre mim do que sabia no princípio.”

A outra grande escritora brasileira que Almeida Faria muito admira é Cecília Meireles. “Escreveu um poema que descreve bem o que é envelhecer. O poema chama-se Retrato". E recitou: “Eu não tinha este rosto de hoje,/assim calmo, assim triste, assim magro,/ nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo./ Eu não tinha estas mãos sem força,/ tão paradas e frias e mortas;/ eu não tinha este coração que nem se mostra./Eu não dei por esta mudança,/ tão simples, tão certa, tão fácil:/ Em que espelho ficou perdida a minha face?” A sala aplaudiu, muito. “Consegui não chorar, ao contrário de Valter Hugo Mãe”, disse o escritor. E ouviram-se risos, do palco à plateia.

Rubem Braga, o mago do whisky

O escritor Jorge Edwards, que nasceu no Chile em 1931 e ganhou o Prémio Cervantes em 1999, foi o companheiro de palco do escritor português nesta FLIP. Com uma longa carreira diplomática que encerrou este ano em Paris, está a lançar no Brasil um dos seus romances mais conhecidos, A origem do Mundo, que se passa em Paris entre exilados chilenos. Também ele contou na Tenda dos Autores divertidas histórias de amizade no meio literário, lembrando que em Santiago, no Chile, nos anos 1950, quando tinha 20 e tal anos, se passavam coisas. “Não muitas, mas um dia chegou um brasileiro para ser chefe do escritório comercial do Brasil. Era um personagem bastante silencioso e quando falava não entendíamos quase nada do que dizia. Era silencioso e difícil de compreender.”

Um dia, alguém alertou Jorge Edwards dizendo-lhe que aquele brasileiro calado, que andava por lá a beber whisky, era um óptimo escritor chamado Rubem Braga (1913-1990). Jorge Edwards foi ler as suas crónicas, que lhe pareceram uma prosa extraordinária, e acabaram por ficar muito amigos. “Bebemos muito whisky juntos, tenho de confessar. Porque no Chile naquela época não podíamos importar whisky, só tínhamos o chileno - que era muito perigoso e podia até matar uma pessoa que fosse saudável”, contou. Rubem Braga aparecia com garrafas importadas, porque tal lhe era permitido sendo diplomata. “Quando ele aparecia com aquelas garrafinhas, era como se chegasse com uma chave que abre todas as portas. Eram a lâmpada de Aladino.”

Pablo Neruda convidou-os um dia para irem a sua casa. Era a sua festa de anos. Rubem levou duas garrafas, uma para oferecer ao poeta e outra para eles próprios beberem. Quando as 50 pessoas na festa perceberam que bebiam whisky autêntico apanharam a garrafa rapidamente. “Tivemos de ir resgatar a garrafa que Rubem tinha dado a Neruda que estava debaixo da cama dele. O Neruda escondeu a garrafa debaixo da cama mas ficou sem ela, nós bebemos. Naquele tempo as coisas eram assim.”

Jorge Edwards está agora a escrever as suas memórias, “enquanto tem memória”, e revelou que o livro vai ter muitas histórias brasileiras. Mas do amigo não recordou só as bebedeiras. “Rubem Braga era um fino leitor de muita coisa. E mandou-me ler Machado de Assis. E também Clarice Lispector.” Mas quando Edwards ia ao Rio ficava no apartamento que o amigo tinha na Rua Prudente de Moraes. Na esquina havia um boteco. Entretinham-se a beber cerveja, a comer camarão frito e a ver passar as moças para a praia de Ipanema. Tal e qual como na canção.