Jazidas fósseis de Santa Maria contam história dos Açores “congelada” no tempo

A mais antiga ilha dos Açores é a única do arquipélago com fósseis marinhos que dão dicas sobre o impacto do aquecimento global nas espécies de há 130 mil anos. Durante três dias, o PÚBLICO acompanhou paleontólogos, geólogos e biólogos que embarcaram numa verdadeira viagem no tempo.

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Aterrar em Santa Maria é como entrar numa máquina do tempo instalada no meio do oceano Atlântico. Das nove ilhas do arquipélago, esta é a mais antiga, com sete a oito milhões de anos, e a que está há mais tempo (mais de dois milhões de anos) sem actividade vulcânica. É por isso a única com fósseis marinhos, o que a torna um verdadeiro paraíso na Terra para paleontólogos, biólogos e geólogos. Em toda a ilha, estão identificadas cerca de 20 jazidas com algas calcárias, moluscos, crustáceos, ouriços-do-mar, corais e cetáceos – incluindo baleias –, entre outros organismos marinhos, fossilizados há milhares de anos.

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Aterrar em Santa Maria é como entrar numa máquina do tempo instalada no meio do oceano Atlântico. Das nove ilhas do arquipélago, esta é a mais antiga, com sete a oito milhões de anos, e a que está há mais tempo (mais de dois milhões de anos) sem actividade vulcânica. É por isso a única com fósseis marinhos, o que a torna um verdadeiro paraíso na Terra para paleontólogos, biólogos e geólogos. Em toda a ilha, estão identificadas cerca de 20 jazidas com algas calcárias, moluscos, crustáceos, ouriços-do-mar, corais e cetáceos – incluindo baleias –, entre outros organismos marinhos, fossilizados há milhares de anos.

O PÚBLICO acompanhou durante três dias o 11.º Workshop Internacional “Paleontologia em Ilhas Atlânticas”, que se realizou de 19 a 28 de Junho. Nesta expedição, participaram cerca de 20 investigadores portugueses e estrangeiros de diversas áreas de estudo mas com um objectivo comum: identificar, catalogar e datar os fósseis e caracterizar os sedimentos onde estes se encontram.

“Quando olhamos para a fauna fóssil do último estádio interglaciar [entre 120 a 130 mil anos atrás], é como se estivéssemos a abrir uma janela para o passado”, explica Sérgio Ávila, biólogo e paleontólogo da Universidade dos Açores (UA), coordenador científico da expedição. Naquele período, o mar estava seis metros acima do nível actual e a temperatura da água e do ar era mais alta. “Conseguimos entender o que aconteceu com estas ilhas numa altura em que o aquecimento global aconteceu de forma natural”, sem intervenção do Homem, afirma.

O estudo dos fósseis de Santa Maria dá também pistas sobre a forma como a ilha, isolada no meio do Altântico, foi sendo colonizada pelas espécies marinhas. “O isolamento levanta novas questões sobre a migração das espécies para locais tão remotos”, observa o polaco Alfred Uchman.

“Estas ilhas são ‘degraus’ importantes para a distribuição das espécies. Antes de surgir o arquipélago, não havia nada entre a Europa e a América do Norte. Com o surgimento dos Açores, as espécies que não conseguiam atravessar o Atlântico ficaram aqui”, completa o alemão Bjorn Berning. Para este especialista em briozoários, pequenos organismos invertebrados que vivem em colónias, só assim se explica que em Santa Maria existam fósseis de espécies que existem no continente.

Espécies extintas nos Açores
Desde que começaram a estudar os fósseis de Santa Maria, há pouco mais de uma década, os cientistas encontraram 140 espécies de bivalves, moluscos, equinodermes, corais, cetáceos e algas fossilizadas, muitas actualmente extintas no arquipélago. Só nos primeiros três dias desta expedição, descobriram mais quatro. “Não são espécies novas para a ciência, mas sim novas nos Açores”, sublinha Sérgio Ávila, que “trata por tu” quase todas as espécies “congeladas” nas arribas.

Mal desembarca na jazida fóssil da Pedra-que-pica, na costa sul da ilha, Sérgio Ávila aponta para o chão, onde se encontram milhões de conchas (algumas com mais de 20 centímetros de diâmetro) e ouriços-do-mar como que enterrados na rocha. “Isto é uma craca. Chama-se Zullobalanus santamariensis e foi descrita por nós”, afirma, referindo-se ao grupo de trabalho de paleobiogeografia marinha, que coordena na UA.   

A Pedra-que-pica, com cerca de cinco milhões de anos, é uma das jazidas fósseis mais antigas de Santa Maria. Tem sete metros de altura a partir do fundo marinho e cerca de 2000 metros quadrados. A área tem diminuído devido à acção do mar, que abriu enormes fendas na jazida e erodiu as zonas mais expostas à força das ondas. Quando a maré baixa, uma parte fica fora de água, parecendo uma língua de areia mesclada ao longe.

Na arriba, o mar foi deixando as suas pegadas ao longo do tempo, perfeitamente visíveis: há 130 mil anos, estava cinco ou seis metros acima do nível actual. “Sabemos isso porque conseguimos ver o ângulo de costa e percebemos onde é que a praia terminava e começava a arriba”, explica o geólogo Ricardo Ramalho, da Universidade Columbia, de Nova Iorque (EUA), apontando para as diferentes camadas de sedimentos.

Sobre a formação da jazida, os investigadores apontam uma hipótese. Santa Maria nasceu há sete ou oito milhões de anos e não teve actividade vulcânica durante um longo período, o que fez com que tivesse “desaparecido” debaixo de água devido à acção conjunta da erosão e das ondas. A Pedra-que-pica terá sido formada há cinco milhões de anos, a cerca de 50 metros de profundidade, após uma grande tempestade que fez acumular numa cova natural milhões de organismos marinhos, arrastados para aquele local pela força das ondas.

Com o ressurgimento da actividade vulcânica, há dois milhões de anos, Santa Maria emergiu novamente (por isso se diz que foi ilha duas vezes) e elevou-se dos fundos oceânicos pelo menos 200 metros, e os cientistas acreditam que talvez ainda esteja a fazê-lo. Muitos daqueles animais – espécies de águas tropicais, equivalentes às que hoje banham Cabo Verde – fossilizaram, e a camada de fósseis foi “selada” por outra de partículas finas de sedimentos vulcânicos, alguns deles cobertos por escoadas lávicas submarinas, entretanto emersas.

“O mais parecido com isto que já vi é o Havai. Mas no Atlântico a ilha de Santa Maria é única, é a primeira vez que vejo esta quantidade de fósseis neste ambiente”, observa o italiano Alessio Rovere, do Centro para as Ciências do Ambiente Marinho, da Alemanha.

Durante a expedição, este especialista em geomorfologia costeira utilizou um GPS especial para encontrar marcas geológicas que indicam, com uma margem de erro de poucos centímetros, onde estaria o nível do mar há 120-130 mil anos nos Açores. Para já, tudo indica que estava quatro a seis metros acima do actual. “Mas, em alguns locais, há evidências de que esteve oito a dez metros acima do que está hoje”, nota Sérgio Ávila.

A medição com GPS vai ajudar a perceber onde poderão chegar as águas se houver um aumento da temperatura semelhante ao que se registou naquela altura, explica o investigador, alertando para a necessidade de repensar investimentos nas zonas costeiras. “Têm sido feitos investimentos brutais em portos, marinas, já para não falar nas habitações em zonas costeiras. Já não será na nossa geração, mas se as águas subirem tantos metros quanto no último estádio interglacial, é provável que tudo fique coberto por água.”

Enquanto uns medem o tamanho dos fósseis, outros fotografam, outros mergulham para ver as jazidas submersas, outros ainda recolhem pequenas amostras que serão depois analisadas em laboratório. É como diz o norte-americano Markes Johnson, especialista em geologia marinha: “Quando chegamos aqui pela primeira vez, temos que olhar para as diferentes relações, ver por que é que umas rochas são diferentes das outras, temos que juntar as peças como num puzzle e depois sair daqui com uma história.”

Fósseis vão ser produto turístico
Os resultados da investigação sobre os fósseis de Santa Maria não vão ficar na gaveta dos cientistas. “É preciso conhecimento científico, mas este só faz sentido se for divulgado e aproveitado do ponto de vista económico, de forma sustentável”, defende Sérgio Ávila.

O objectivo é promover a Rota dos Fósseis, que inclui quatro trilhos pedestres e um marítimo em toda a volta da ilha. “Santa Maria tem o único trilho marítimo homologado nos Açores”, sublinha o investigador. Este percurso consiste numa volta à ilha de barco, com desembarque (se o mar permitir) em algumas jazidas – Pedra-que-pica, Ponta do Castelo e São Lourenço –, com guias formados a bordo para descreverem e explicarem as particularidades daqueles locais.

Segundo Sérgio Ávila, há já empresas interessadas nesta área, mas, por enquanto, o mergulho amador é a principal aposta dos operadores marítimo-turísticos. Santa Maria é cada vez mais procurada pelos mergulhadores interessados em ver jamantas, entre outras espécies pelágicas. No entanto, esta oferta pode ser complementar: “As empresas ainda não estão a aproveitar o facto de, no dia anterior à viagem de avião, os turistas não poderem mergulhar. O trilho marítimo pode ser feito nesse dia”, exemplifica Sérgio Ávila.

O projecto da Rota inclui também a Casa dos Fósseis, orçada em 600 mil euros, anexa ao Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo em Vila do Porto, onde ficarão expostos alguns elementos paleontológicos e geológicos recolhidos na ilha, bem como conteúdos científicos que têm estado a ser preparados pela equipa coordenada por Sérgio Ávila.

Esta equipa está também a escrever um livro técnico sobre a jazida da Pedra-que-pica, cujo lançamento está previsto para Dezembro. Em breve deverá estrear uma série documental televisiva intitulada Os Fósseis de Santa Maria, financiada pelo Governo dos Açores, cujo objectivo é divulgar o património paleontológico da ilha. 

Na calha está outro projecto “bastante ambicioso”, complementar ao da Rota dos Fósseis: classificar Santa Maria como o primeiro paleoparque de ilha do mundo, uma figura de protecção semelhante à de reserva da biosfera mas direccionada para as jazidas fossilíferas. “Com o apoio do Governo Regional dos Açores, vamos produzir uma proposta legislativa, que será votada na Assembleia Legislativa Regional e depois entregue à UNESCO”, explica Sérgio Ávila. A ideia tem o apoio da Associação Internacional de Paleontologia e do Geoparque Açores (que é também único a nível mundial, por englobar um arquipélago). Segundo o biólogo, a proposta deverá avançar no fim do ano ou no início de 2015, seguindo-se dois anos de trabalho no projecto do paleoparque.

A jornalista viajou a convite da Universidade dos Açores