Hoje não é dia de Rock In Rio Lisboa, hoje é dia de Rolling Stones

A banda de (I can't get no) Satisfaction toca esta noite num Parque da Bela Vista com lotação esgotada. 90 mil no Rock In Rio Lisboa.

Fotogaleria

A primeira digressão, há mais de cinco décadas, fez-se numa velha carrinha Volkswagen, com  banda e instrumentos atafulhados no minúsculo interior. Agora, aterram num jacto privado onde se destaca na fuselagem o icónico logótipo que não existia ainda quando dessa primeira digressão – é verdade, senhoras e senhores, houve um tempo em que esse logótipo não existia. Na primeira viagem aos Estados Unidos, a suite onde pernoitaram quando da passagem por Nova Iorque foi a sala da mãe de Ronnie Spector, vocalista do girl-group The Ronettes – agora têm camarins decorados propositadamente para utilizarem algumas horas e uma pista de atletismo à disposição. Não se é a “maior banda rock’n’roll do mundo” sem vantagens.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

A primeira digressão, há mais de cinco décadas, fez-se numa velha carrinha Volkswagen, com  banda e instrumentos atafulhados no minúsculo interior. Agora, aterram num jacto privado onde se destaca na fuselagem o icónico logótipo que não existia ainda quando dessa primeira digressão – é verdade, senhoras e senhores, houve um tempo em que esse logótipo não existia. Na primeira viagem aos Estados Unidos, a suite onde pernoitaram quando da passagem por Nova Iorque foi a sala da mãe de Ronnie Spector, vocalista do girl-group The Ronettes – agora têm camarins decorados propositadamente para utilizarem algumas horas e uma pista de atletismo à disposição. Não se é a “maior banda rock’n’roll do mundo” sem vantagens.

Com uma média de idades a rondar os 70 anos, ainda jovens, portanto, perante bluesman e homens do rock’n’roll em quem primeiro se moldaram (BB King e Chuck Berry, quase nonagenários, continuam por aí), os Rolling Stones são há muito uma instituição. Inamovíveis no cenário da música popular urbana, mitos vivos, sobreviventes de todos os excessos que criaram a iconografia do rock – iconografia que, em grande medida, foi moldada por eles nas decisivas, fundadoras, décadas de 1960 e 1970.

O que vale, então, um regresso? Este regresso dos Rolling Stones a Portugal, país onde actuam hoje pela quinta vez desde a estreia em 1990, no antigo estádio José Alvalade? Vale que, à semelhança do que aconteceu em 2004 perante Paul McCartney ou em 2012 quando vimos Bruce Springsteen, hoje será dia de Rolling Stones e não de Rock In Rio Lisboa – ou seja, a banda será mais importante que a “experiência” global do festival. Vale, mais que isso, mais que a eterna questão da “última oportunidade para os ver” (argumento utilizado desde que cá aterraram em 1990 e sempre desmentido por visitas seguintes), a oportunidade de ver uma banda que, apesar do estatuto lendário alcançado, da recheadíssima conta bancária e veterania entretanto alcançada, mantém-se, quando em palco, fiel à sua natureza.

Depois do arranque no último domingo, com Robbie Williams como cabeça de cartaz, o Rock In Rio Lisboa avança decisivamente para a celebração dos seus dez anos em Portugal. Os Rolling Stones, pelo seu estatuto, são o destaque absoluto, tão absoluto que quase nos esquecemos que não estão sozinhos em cartaz: acompanham-nos no palco principal o jovem bluesman americano Gary Clark. Jr (22h), que até já tocou com eles no início da digressão anterior, os Xutos & Pontapés (20h30), a quem já tantas vezes se chamou os Rolling Stones portugueses ou Rui Veloso acompanhado pela cantora do Benin Angélique Kidjo e pelo brasileiro Lenine (19h) - porque é dia de Rolling Stones e a lotação está esgotada, as portas abrirão mais cedo, às 15h.

Nos três dias seguintes do festival, sobressaem nomes como Queens Of The Stone Age ou Blood Orange (sexta-feira, aquele em que os Linkin Park surgem como cabeças-de-cartaz), Arcade Fire ou Lorde, na sua estreia portuguesa (os canadianos e a neo-zelandesa actuam sábado), ou, no encerramento, domingo, Justin Timberkale e Jessie J. Curiosidadade ainda para ver, sábado, o que resultará da homenagem a António Variações preparada em exclusivo para o festival pelos Deolinda, Linda Martini, Rui Pregal da Cunha e Gisela João. Ainda assim, vistos todos os nomes, pesados todos os nomes, um facto parece inegável: O Rock In Rio Lisboa 2014 será o Rock In Rio dos Stones.

Recuemos. Se as duas primeiras visitas, em 1990 e 1995, mostravam a banda formada em Londres em 1962 ainda entregue a todos os excessos pirotécnicos e cenográficos típicos da época (“os insufláveis, as luzes e a bonecada toda é muito interessante visualmente, mas onde está a banda?”, poderia ter-se perguntado então), nas seguintes, em Coimbra (2003), Porto (2006) e Lisboa (2007), vimos uma banda perfeitamente consciente daquilo que é a sua energia vital: as canções e a forma como aqueles quatro músicos, Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood (nesta digressão a banda de acompanhamento inclui ainda o guitarrista Mick Taylor, um Stone entre 1969 e 1974), são capazes de lhes dar vida num palco.

A componente europeia da digressão que passa pelo Rock In Rio Lisboa, a 14 On Fire Tour, iniciada Fevereiro e interrompida no mês seguinte pela morte de L’Wren Scott, designer de moda e a namorada de longa data de Mick Jagger, quando a banda se preparava para tocar na Oceânia, teve início segunda-feira em Oslo. “Apesar de todos os anos passados, da dimensão da arena e dos ecrãs vídeo gigantes, os Rolling Stones ainda são aquela pequena banda dos clubes em Londres”, escreveu o crítico do Goteborgs-Posten, citado pela edição online da BBC. É exactamente isso que queremos. A sabedoria de veteranos e o fogo que continua animá-los quando sobem a palco, noite após noite, para tocarem canções que já interpretaram em centenas de concertos como se fosse a primeira vez (o artifício faz parte do jogo). E serão precisamente essas, as clássicas, aquelas que ouviremos no esgotado Parque da Bela Vista (90 mil bilhetes vendidos), a julgar pelo alinhamento do concerto em Oslo e tendo em conta que a actual digressão é extensão daquela com que, entre 2012 e 2013, celebraram os 50 anos de carreira.

Pelo Telenor Arena passaram Jumping Jack Flash, Honky tonk woman, It’s only rock’n’roll (but I like it), Gimme shelter, Brown sugar, a mais recente Doom and gloom, editada para comemorar as cinco décadas de vida, “(I can’t get no) Satisfaction (a última do concerto, obviamente), Midnight rambler, cenário para brilhar Mick Taylor, ele que gravou com a banda álbuns históricos como Let it Bleed, Sticky fingers ou Exile on Main St., ou uma You can’t always get what you want acompanhada pelo Coro Juvenil Edvard Grieg. Ouviu-se também Let’s spend the night together, a canção escolhida pelos cibernautas noruegueses numa votação disponível no site da banda.

O público português também teve a modernice à disposição, podendo escolher entre Start me up, Miss you, Angie, (I can’t get no) Satisfaction Sympathy for the devil, ou sugerindo aquela que mais deseja ver interpretada. Esta noite, Mick Jagger tratará de revelar ao vivo qual a escolhida. Será uma mais. Uma canção entre as dezenas que comporão o concerto. Duas horas dele. Oleiem as ancas e calcem os sapatos para dançar. Os Rolling Stones estão a chegar. Marquem a hora: 23h45.