Corpo de antigo oficial nazi transportado para aeroporto militar italiano

Ex-capitão das SS Erich Priebke morreu na semana passada aos 100 anos mas ninguém queria fazer funeral. Localidade italiana de Albano Laziale ofereceu-se mas confrontos e protestos acabaram por suspender cerimónias fúnebres. Decisão cabe agora à família, diz a Alemanha.

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Depois dos protestos que interromperam a cerimónia fúnebre, o caixão foi transportado para o aeroporto militar Pratica di Mare perto de Roma. "Esperamos resolver esta questão hoje. Estamos em contacto com a Alemanha", revelou à AFP o presidente da câmara de Roma, Giuseppe Pecoraro.

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Depois dos protestos que interromperam a cerimónia fúnebre, o caixão foi transportado para o aeroporto militar Pratica di Mare perto de Roma. "Esperamos resolver esta questão hoje. Estamos em contacto com a Alemanha", revelou à AFP o presidente da câmara de Roma, Giuseppe Pecoraro.

De acordo com as autoridades alemãs, cabe à família de Erich Priebke a decisão de receber o seu funeral. “Não consigo ver uma responsabilidade ou função do Governo alemão em relação a esta questão”, disse um porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros da Alemanha. “Como lidar com os restos mortais de um cidadão alemão no exterior é basicamente uma questão para os parentes”, acrescentou o mesmo responsável.

Erich Priebke morreu na semana passada, aos 100 anos, mas mesmo após a sua morte não havia acordo e ninguém queria realizar o funeral do antigo oficial nazi envolvido no massacre de 300 pessoas. Finalmente, a localidade romana de Albano Laziale, em Itália, aceitou realizar as cerimónias fúnebres mas, segundo relata a BBC, mais de 500 pessoas juntaram-se no local onde gritaram “assassino” e “executor”, entre outras acusações sobre o seu passado.

No local estavam também alguns simpatizantes de movimentos nazis e um forte controlo policial para tentar controlar algumas tensões e confrontos. O advogado de Erich Priebke, Paolo Giachini, garantiu que a decisão foi tomada depois de a família e amigos terem sido impedidos de entrar na igreja para assistir à missa. "Fomos forçados a suspender o funeral porque havia um risco de que se tornasse num encontro neo-nazi", esclareceu o presidente da câmara de Roma.

O diário britânico Guardian descreve que muitos dos presentes bateram no carro que transportava o caixão à medida que este se aproximava da igreja ligada a movimentos ultraconservadores e que foi a única a oferecer-se para o funeral, mesmo contrariando ordens do Vaticano.

Priebke viveu décadas na Argentina, até ter sido preso em 1994 e depois expatriado e condenado, em 1998, a prisão perpétua, pelo seu papel no massacre das catacumbas Ardeatinas (1944), perto de Roma, quando 335 civis italianos foram assassinados numa retaliação pela morte, na véspera, de 33 soldados alemães por combatentes da resistência italiana.

Cumpria a pena em prisão domiciliária, criticada por muitos por ser demasiado suave — podia sair para fazer compras ou jantar com amigos. Logo após a sua morte, a capital italiana disse estar fora de questão Priebke ser enterrado na cidade. O Vaticano ordenou mesmo que nenhuma igreja aceitasse fazer um funeral para Priebke, um católico praticante — foi, aliás, um bispo que lhe deu documentos falsos depois de ele ter conseguido fugir do campo de prisioneiros de guerra em que ficou preso, gerido pelo Reino Unido, no final da Segunda Guerra. A localidade romana de Albano Laziale acabou por aceder a fazer o funeral.

A Argentina, onde viveu durante décadas sem problemas, também recusou receber o antigo capitão das SS. Priebke viveu 50 anos naquele país da América do Sul até ter sido descoberto por um jornalista da emissora norte-americana ABC. Trabalhava como professor numa escola.

A Alemanha tinha dito que não havia qualquer impedimento a que um cidadão alemão fosse enterrado no seu solo — mas as autoridades da cidade natal de Priebke, Hennigsdorf, perto de Berlim, disseram que apenas os residentes podem ser enterrados no cemitério local (ou pessoas que tenham campas de família no cemitério local, o que não é o caso de Priebke — a mulher está enterrada na Argentina). Até um cemitério onde estão enterrados milhares de soldados alemães mortos na guerra, a sul de Roma, recusou recebê-lo.

Sem arrependimento
Priebke era o comandante das tropas das SS que executaram 335 pessoas perto de Roma em 1944 e admitiu ter disparado alguns dos tiros. Nunca expressou qualquer arrependimento, repetindo sempre que estava a cumprir ordens. O máximo que disse foi, numa entrevista a uma televisão italiana, que se tratou de uma “tragédia pessoal”.

O Centro Simon Wiesenthal, que se dedica a perseguir criminosos nazis, defendeu que o corpo de Priebke deveria ser enviado para a Alemanha, onde as leis locais evitam a glorificação do nazismo, e que deveria provavelmente ser cremado.

Em 2011, a Alemanha decidiu exumar as ossadas do antigo nazi Rudolf Hess para evitar peregrinações ao cemitério de Wunsiedel, na Baviera. O seu corpo foi cremado e as cinzas deitadas ao mar. A maior parte dos líderes nazis condenados à morte e executados em Nuremberga foram cremados, e as suas cinzas lançadas num rio na Baviera.

Notícia actualizada às 18:28 - Acrescentaram-se declarações do presidente da câmara de Roma e do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão e informação relativa ao transporte do corpo para o aeroporto militar.