"Os leitores devem ter mais vez e mais voz" nos jornais

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Reunião de sexta-feira no bar da Casa da Música RUI FARINHA

Grupo de pessoas que escrevem cartas para os vários órgãos de comunicação projecta lançar colectânea

O que os move é o gosto pela escrita. Na sexta-feira, quem entrasse no bar de Artistas da Casa da Música, no Porto, deparar-se-ia com uma mesa ocupada por oito pessoas que, de uma forma animada, discutiam a forma como interagem com os jornais. Maria do Céu Mota, 40 anos, escreve para o correio do leitor dos jornais diários portugueses há vários anos. É a mais jovem do grupo e a mentora do projecto que pretende juntar os mais assíduos e participativos leitores dos jornais. Quase todos reformados, têm em comum a necessidade de se manifestar junto dos jornais, dando a sua opinião como cidadãos activos.

"Deviam ser cartas dos leitores ou correio dos leitores e não cartas à directora", queixa-se o grupo de uma forma unânime. É a primeira vez que se juntam. A iniciativa partiu de Maria do Céu, que convocou alguns dos mais assíduos leitores que regularmente escrevem opinião no "pequeno" espaço a que têm acesso. Oriundos de vários pontos do país, estes oito leitores/colunistas amadores debateram durante mais de duas horas. Falaram sobre o que os move, sobre a sua experiência, sobre aquilo que pretendem para o seu futuro enquanto autores opinativos. Vítor Colaço Santos, 58 anos, "adepto dos transportes públicos", apanhou um autocarro, um comboio e o metro para chegar de Sintra à Casa da Música, perguntando-se por que é que os seus textos "não vêem a luz do dia há dois meses". Sempre muito efusivo, refere: "As minhas letras são como o meu pão e eu defendo o meu pão com o meu suor e com a minha inspiração". Entusiasmado, continua explicando que escreve com o objectivo de "actuar como um lobby de pressão junto da direcção" e que escreve porque "amava ser escritor mas não consigo ser escritor".

Quem os ouvisse não diria que é a primeira vez que estavam juntos. Queixam-se que vêem a sua participação cada vez mais limitada e que o jornal "devia ser feito para os leitores". Sentem que ao participar no jornal, ajudam a valorizá-lo e que os jornalistas deviam ficar satisfeitos por terem feedback em relação ao seu trabalho. Fernando Cardoso Reis, médico pediatra reformado, envia artigos para o PÚBLICO há cerca de seis anos e desabafa que sempre que um artigo seu não era publicado, pensava: "Fernandinho, tu não vales nada".

O lema do grupo é definido por Vítor Colaço Santos, ao dizer que "os leitores devem ter mais vez e mais voz". Querem actuar de modo a promover a "intervenção social e cívica", afirma João Fraga, que veio de São Pedro do Sul. A ideia consiste em lançar um livro, uma colectânea dos melhores textos de alguns destes "cronistas". Fernando Cardoso Reis é um dos mais cépticos, acha que "o projecto está a correr depressa de mais". Augusto Küttner Magalhães escreve para os jornais desde 1995 e aplaude a ideia."É muito interessante e devia ser apoiada pelos jornais", conclui.