Identificadas barreiras misteriosas à viagem das lapas pelo mar

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As lapas ficam agarradas às rochas na fase adulta, mas quando são larvas viajam durante semanas no mar, ao sabor das correntes madalena simais Branco

Do oceano Atlântico até ao mar Mediterrâneo, as populações de lapas têm diferenças genéticas que revelam a existência de barreiras invisíveis à sua migração. Conclusões de uma equipa de cientistas portugueses

Há uma falsa ideia quando se pensa na imobilidade das lapas. Estes gastrópodes, uma iguaria em Portugal, raspam algas microscópicas nas rochas e movem-se apenas alguns metros durante a vida para se alimentarem. Mas nas primeiras semanas de vida são larvas e estão à deriva no mar. Até se agarrarem às rochas, são levadas pelas correntes. Por isso, são um bom objecto de estudo para compreender como as espécies marinhas se propagam. Uma equipa da Universidade do Porto estudou as características genéticas de populações de duas espécies de lapas na costa ibérica e na costa mediterrânica, até Itália. Resultado: há três barreiras de natureza misteriosa que estão a impedir a troca de genes entre as populações.

As lapas estudadas pela equipa do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio) da Universidade do Porto foram a Patella rustica e a Patella ulyssiponensis. Estes gastrópodes lançam grandes quantidades de espermatozóides e óvulos no mar e deixam que a natureza se encarregue do resto. Após a fecundação, desenvolve-se uma larva microscópica que fica à mercê das correntes.

As lapas fixam-se nas rochas na zona entre marés. No passado, as duas espécies estudadas colonizaram a costa do Mediterrâneo e estão presentes desde o Nordeste Atlântico até à Mauritânia, em África. Não se sabe ao certo quantos quilómetros é que uma larva pode percorrer. Mas foi graças a esta primeira fase da vida das lapas - a fase larvar dura no máximo um mês - que elas conseguiram chegar às Canárias, à Madeira e ainda aos Açores, onde são muito exploradas para a alimentação.

"Estas duas espécies são as que têm a distribuição mais alargada nesta região, o que permite estudar o fluxo genético e as suas migrações, quer no Atlântico, quer no Mediterrâneo", explica ao PÚBLICO Alexandra Sá Pinto, a primeira autora de um artigo na revista PLOS ONE, no qual se identificam as barreiras que condicionam as andanças das lapas.

A bióloga, de 34 anos, fez este estudo durante o doutoramento que terminou em 2008, mas só agora publicou estes dados. Segundo a cientista, conhece-se muito mal as migrações da fauna marinha, ao contrário, por exemplo, das aves, em que as rotas de migração e os locais de nidificação são bem conhecidos. "É importante percebermos de onde vem o organismo que estamos a explorar. Uma lapa que vive na praia do Homem do Leme [no Porto] pode vir de um local muito longínquo."

A equipa recolheu lapas em 18 locais, entre Biarritz (na costa atlântica no Sul de França) e Peschici (no Sul da costa leste de Itália), bem como em Agadir, em Marrocos. Ambas as espécies só estavam presentes em parte dos locais.

Com o material genético dos indivíduos recolhidos, os investigadores sequenciaram um pequeno número de regiões do ADN. Por fim, compararam esse ADN entre as populações de cada uma das espécies para verificar se havia troca genética entre elas ao longo da costa mediterrânica e atlântica. Deste modo, é possível testar se as larvas das lapas têm estado a migrar livremente pelo mar ou se, pelo contrário, há alguma coisa a impedir essa propagação marinha.

Os resultados mostram que em cada espécie há populações que não têm trocado material genético com outras populações. "Determinámos três grandes barreiras que delimitam quatro áreas entre as quais o fluxo [genético e de indivíduos] é relativamente restrito. Se as lapas do Atlântico se extinguirem, não podemos contar com as lapas do Mediterrâneo para colonizar o Atlântico", explica Alexandra Sá Pinto.

As três barreiras ficam em locais diferentes e parecem ter o mesmo efeito de isolamento nas populações das duas espécies. A primeira é no Sul de Itália e separa as lapas entre o Leste e o Oeste do Mediterrâneo. A segunda, a que já era conhecida, chama-se frente de Almería-Orán e fica no Mediterrâneo, logo a seguir ao estreito de Gibraltar: estabelece uma barreira entre as águas do Mediterrâneo e as do Atlântico. A terceira deverá situar-se no mar de Alborán, entre Espanha e a costa de Marrocos: trava a migração de lapas entre a costa da Península Ibérica e a costa atlântica de Marrocos.

Já se sabia que a frente de Almería-Orán impedia a migração de outros animais. Esta barreira pode dever-se ao contacto entre as águas frias oceânicas, de baixa salinidade, e águas mais salinas e quentes do Mediterrâneo. Para as larvas das duas espécies, a equipa pensa que isto poderá ser insuperável.

Quanto às causas das outras duas barreiras, elas permanecem um mistério. Podem ter causas físicas ou químicas. Mas pode até dar-se o caso de as lapas conseguirem atravessar essas barreiras, mas não estarem adaptadas ao novo habitat e não sobreviverem. "Ao longo do tempo, estas populações foram-se diferenciando."

Para Alexandra Sá Pinto, as quatro regiões isoladas que agora foram identificadas devem ser pensadas como unidades independentes na gestão deste recurso marinho.