O cisne da industrialização

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A história da "industrialização" é uma das peças básicas da passagem de "patinho feio" a cisne do ministro

Em fins de Setembro de 2012, há cerca de dois meses, o Expresso, numa manchete de primeira página, publicou uns "recados" vindos de uma "fonte oficial próxima do primeiro-ministro", em plena crise pós-TSU. Essa "fonte" particularmente "próxima" informava o Expresso (e manipulava os seus leitores) dizendo que "é preciso dar uma pedrada no charco e neste momento ele [Passos Coelho] está claramente a pensar nisso [remodelação] e tem tudo em aberto: pode ser antes, durante ou após a apresentação do OE em 15 de Outubro."

A sugestio falsi era que a remodelação seria o mais tardar até meados de Outubro, ou seja muito mais cedo do que comentadores como Marcelo previam. No contexto, percebia-se que era Álvaro Santos Pereira um dos alvos deste murro na mesa do primeiro-ministro. Cheio de bravado, o "recado" "oficial" afirmava que "se o PM recuou na TSU, também tem a agilidade, sem tabus, de rever o que está mal no Governo." Isto é que era coragem, mas nada aconteceu. Como todos os "recados" que a comunicação social se presta a dar, este não era verdadeiro, mas apenas uma tentativa de aplacar os ânimos, então muito exaltados, dando a entender, é essa a sugestio falsi, que a remodelação estaria aí a muito curto prazo.

Dois meses, quase três meses depois, como homem prevenido vale por dois, vejo com bastante ironia a recuperação que tem vindo a ser feita do ministro Álvaro Santos Pereira, beneficiando de um esforço de marketing profissional, mas também de um dos mais primitivos mecanismos comunicacionais: a novidade hoje é dizer bem do ministro, logo comunicacionalmente rende mais o que é novo, do que o que é velho. Já vi este mecanismo cíclico funcionar tantas vezes, que me espanta como ainda pode haver quem o ignore, a começar por jornalistas que deviam saber melhor como é que funciona o corso-ricorso da comunicação social. Quando estar em baixo já não é notícia, então é fácil a meia dúzia de profissionais e assessores puxar para cima. Como titula um jornal económico "Santos Pereira ressuscitou nos últimos dois meses". Afinal o "patinho feio" era um verdadeiro cisne negro.

Mas será que se foi injusto com o ministro, e na verdade, ele é melhor do que pareceu? Será ele próprio vítima "por não ser do aparelho"? Tem o ministro boas ideias mas está esmagado por Vítor Gaspar e não pode realizá-las? Tudo isto e mais as suas variantes tem circulado como peças-chave do mecanismo de reabilitação, em que uma mistura de vitimização e de contexto são fundamentais para explicar porque a razão o "superministro" não se tem revelado muito super.

É por isso que a história da passagem de Álvaro Santos Pereira a cisne é exemplar de uma forma de governar, muito baseada na manipulação quase quotidiana de números e factos, que resulta com enorme facilidade porque ninguém faz qualquer pergunta, muito menos as perguntas certas. Declarações pomposas sem nenhuma relação com a realidade (toda a história da "industrialização"), informações pouco rigorosas, quando não erradas, ditas com enorme segurança (o primeiro-ministro falando sobre a comparação europeia dos dias que contam para o subsídio de desemprego), misturas de intenções sem grande fundamento e viabilidade (grandes investimentos anunciados nas minas, a taxa de 10% do IRC para as empresas exportadoras, etc.), programas de crédito às empresas anunciados e que depois se verifica não funcionarem, por aí adiante. Há muito pouca coisa sólida e muita espuma, mas a espuma vem sempre com o mesmo tinto de origem.

Voltemos ao ministro, apesar de tudo uma das personagens menos antipáticas deste Governo, de tão perdido que anda pelos meandros da sua sorte. O ministro veio para o Governo porque tinha, em vésperas das eleições, ganho alguma fama nos blogues que estavam associados ao novo poder emergente. Ele é aliás o caso mais típico, e o mais relevante, do recrutamento nos e pelos blogues, que caracterizou a composição deste Governo, de alguns ministros a muitos assessores.

Já com base nessa fama publicou em 2011, a poucos meses de eleições, um livro, Portugal na Hora da Verdade, que é hoje penoso de se ler, visto que praticamente tudo o que lá escreveu como solução miraculosa para a nossa crise é explicitamente negado pela acção deste Governo, ou inaplicável, ou, nalguns casos, até um pouco bizarro, para não dizer outra coisa. O livro foi saudado como "um excelente livro que revela que o novo superministro da Economia é alguém com um conhecimento profundo da economia portuguesa".

Nele se defendiam investimentos infra-estruturais (como aliás Passos Coelho defendeu o TGV), uma política de apoio à natalidade com políticas de suporte às famílias, um combate intransigente à corrupção, um extenso programa de privatizações (aqui vai-se a caminho), a baixa significativa da TSU, compensada por uma subida no IVA (que foi um dos elementos-chave da campanha eleitoral de Passos Coelho), o combate aos consumos intermédios, as célebres "gorduras do Estado", e o abaixamento de impostos, assim como essa coisa hoje maldita da "renegociação da dívida". Os objectivos quantificados apresentados (em 2011) eram um crescimento médio de 3% ao ano (vamos em muitos e muitos meses de recessão), défice 0 até 2016, menos 50% do peso da dívida externa no PIB (que tem crescido todos os dias). Tudo ao contrário.

Entre as coisas que Santos Pereira disse e repetiu sem margem para ambiguidades conta-se: "O mais importante é que as medidas de austeridade sejam implementadas a nível de Estado e não das famílias e das empresas." E quanto ao dilema austeridade/crescimento: "É importante perceber que nunca vamos ter contas públicas saudáveis enquanto não começarmos a crescer. (...) Como se faz? Podemos aumentar o IVA em um por cento, mas baixar consideravelmente a Taxa Social Única porque assim os custos do trabalho baixam, não teremos que cortar salários, as empresas tornam-se mais competitivas e criam mais empregos e consequentemente diminui o desemprego". Ou seja, Álvaro Santos Pereira em 2011 parece António José Seguro e Zorrinho hoje.

Eu quando ouço estas afirmações, ditas com toda a segurança do mundo, há muito pouco tempo e para um Portugal cuja realidade era conhecida, pergunto-me como é que é possível a um homem destes governar a contrario de todas as suas convicções. Nem baixou a TSU, nem existe nenhum programa vigoroso para a natalidade, nem as famílias e empresas foram poupadas, bem pelo contrário, nem a ideia que "nunca vamos ter contas públicas saudáveis enquanto não começamos a crescer" tem alguma coisa com as prioridades de Passos Coelho e Gaspar. Como é possível lá estar, segundo o próprio Álvaro Santos Pereira, no centro do erro?

Só vivendo num mundo irreal. E melhor exemplo dessa irrealidade é a história da "industrialização", uma das peças básicas da passagem de "patinho feio" a cisne do ministro. Mas de que é que estamos a falar? De pouco mais do que um slogan como a "ida para o mar", ao mesmo tempo que se fecham os estaleiros.

Industrializar é fazer fábricas e produzir bens, máquinas, tecidos, peças de automóveis, rolhas, moldes, bicicletas, amoníaco, donuts, tijolos, adubos, contraplacado, candeeiros, televisores, canetas, embalagens, aço, pneus, turbinas, electrodomésticos, medicamentos, papel, automóveis, verniz para as unhas, tintas, redes de pesca, etc., etc. No último ano, fechou a Cerâmica de Valadares, várias fábricas têxteis e de confecções, a Autoeuropa encerrou um mês, múltiplas fábricas ligadas à construção civil faliram, os estaleiros de Viana estão parados, etc., etc. Na Europa, a mesma coisa, embora em menor grau.

Vão-se fazer novas fábricas? Muito bem: com que dinheiro, para produzir o quê, para que mercados? A única coisa que há são operários desempregados, alguns qualificados, outros não. Tudo o resto não se sabe. Como é que vamos tomar a sério o projecto de "industrialização", que não passa até hoje de uma palavra? Pelos vistos, basta uma palavra usada repetidamente para se mudar a "imagem". E o resto?

O problema de vivermos de ficções na periferia do poder, que é onde está o ministro da Economia, ajuda a distrair-nos sobre o centro efectivo da política do actual Governo. E a última coisa que precisamos nestes dias é de ficções, enganadoras como todas as ficções são, tanto mais enganadoras quanto se destinam a proteger o núcleo duro do poder de muito escrutínio. É por isso que eles pouco se importam que haja um qualquer cisne industralizador a passear em terra de falências, se isso distrair os olhares para a paisagem de cartolina.