Victor Hugo Pontes já não é um miúdo

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No final do seu ano de afirmação, o coreógrafo regressa a casa: A Strange Land estreia-se hoje em Guimarães, com o peso do triunfo do anterior A Ballet Story em cima dos ombros.

Estamos a chegar ao fim de 2012, o ano de afirmação de Victor Hugo Pontes. Em Fevereiro estreou A Ballet Story, em Guimarães. Este fim-de-semana, regressa à cidade onde nasceu para fechar, com A Strange Land, o ano em que "passou uma barreira". "Até agora era um miúdo que fazia coisas, agora sou reconhecido como coreógrafo", avalia.

Ainda está a habituar-se a não ser ele a ir à procura das estruturas para mostrar trabalhos e apresentar ideias. "Há um interesse naquilo que eu estou a fazer e as pessoas começam a vir ter comigo pedir coisas", conta. Não tem dúvidas, por isso, que 2012 "foi um ano muito importante", não só pelo que já lhe trouxe, mas também pelas portas que vai abrir em 2013. Mas já lá vamos.

A sua primeira criação do ano foi uma das primeiras coproduções da Capital Europeia da Cultura (CEC) a ser apresentada em Guimarães. O novo espectáculo é um dos últimos da programação de artes performativas da Guimarães 2012. Hoje e amanhã, Pontes regressa a casa como quem fecha um ciclo. Há pouco mais de um ano, jogava pelo seguro. Fuga sem fim foi feito para uma audiência limitada dentro do palco do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor. Mas tudo mudou quando decidiu enfrentar a mesma sala, praticamente cheia, na estreia de A Ballet Story (criado a partir da peça musical Zephyrtine, de David Chesky, tocada ao vivo na versão original pela orquestra da Guimarães 2012).

Um triunfo: entre todas as coproduções da CEC, a peça é a que mais tem circulado, com duas apresentações em Setembro passado no Teatro Maria Matos, em Lisboa, e uma passagem pelo Brasil, no início de Novembro, a convite do Festival Panorama, que decorreu no Teatro João Caetano do Rio de Janeiro. Entretanto, já há novas datas agendadas no início do próximo ano.

Pontes admite por isso que a pressão em cima de A Strange Land (estreia hoje, às 22h, na Caixa Negra da Fábrica ASA) é maior. "Tenho mais olhos em cima de mim", diz. O novo espectáculo partilha com o anterior um reposicionamento do método do coreógrafo, mais interessado agora em explorar ao máximo um conceito, em lugar de produzir consecutivamente material coreográfico que abra vários caminhos.

Victor Hugo Pontes optou também por separar as águas entre o teatro - onde começou como artista e continua a trabalhar - e a dança, que é hoje o campo que mais lhe interessa. "Cada vez mais estou fascinado com a ideia de corpo e focado nele e no movimento", justifica. É isso que procura aqui mostrar, recusando uma ideia que diz ter-se instalado na dança contemporânea nos últimos anos: "Pessoas a falar para microfones - é válido, mas não é o que eu procuro", sublinha.

O que teremos em A Strange Land é o corpo, sem objectos e sem artifícios. Também por isso, a cenografia (assinada novamente por Fernando Ribeiro) é minimalista, num negro apenas quebrado por seis megafones e um espelho de água. De resto, toda a ideia da nova criação é a de um reflexo - um reflexo não totalmente fidedigno, como o de um lago. O reflexo de uma memória, por vezes reconstruída.

Regressar

A Strange Land é um espectáculo sobre a memória, permitindo-se por isso um olhar nostálgico. Toda a partitura coreográfica foi criada a partir das memórias dos seis intérpretes - um russo, um bielorusso e quatro portugueses -, a partir da ideia de regresso a um sítio que já não é o mesmo, mas onde sabemos que já fomos felizes ou infelizes. Nisso, a peça é uma tentativa de responder à questão do que é isto de ser estrangeiro, tema que Pontes retoma de Far Away From Here, que criou para a Liquid Theatre, em Moscovo, há dois anos.

A resposta encontrada não aponta tanto no sentido das diferenças de nacionalidade, mas da integração. "Falamos deste desconforto que é estarmos perante algo que não conhecemos e como reagimos a isso e nos vamos adaptando", explica o coreógrafo. Um pouco como acontece com ele, ainda à procura do conforto no reconhecimento que lhe trouxe 2012.

O próximo ano servirá ainda para recolher os frutos dessa afirmação. 2013 começa com a apresentação de Fuga sem fim, na Culturgest (11 e 12 de Janeiro), espectáculo que é finalmente reposto mais de um ano depois da estreia em Guimarães. A Ballet Story também estará em circulação nos primeiros meses do ano, com datas confirmadas em Aveiro, Coimbra e Torres Novas, devendo também ser apresentado em Viseu.

Mas também há projectos novos para 2013: Ocidente (a partir de um texto de Rémy De Vos), um espetáculo de teatro a estrear em Guimarães em Outubro, co-produção do Ao Cabo Teatro com As Boas Raparigas. Antes disso, há mais uma oportunidade para ver Victor Hugo Pontes em cima de um dos grandes palcos nacionais, com um espectáculo de dança, ainda sem título, que estreará em Junho, no Teatro Nacional São João, no âmbito do festival Dancem! "Foi-me dada essa opção e eu disse que sim", diz o coreógrafo. "Estou preparado para isso. Agora já não tenho receio."