Os paradoxos de Dan Bejar são a alegria dos Destroyer

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Dan Bejar não sabe "o que virá aí" no próximo disco porque gosta de escrever "sem um pensamento preciso" - mas não será certamente rock

Um dos álbuns mais preciosos dos dois últimos anos, Kaputt, do canadiano Dan Bejar, aliás Destroyer, transforma-se esta noite num concerto em Guimarães. Pop elegante como julgávamos já ter ouvido - mas não tínhamos. Por Vítor Belanciano

Há mais de uma década que o canadiano Dan Bejar é uma espécie de segredo bem guardado do universo indie, quer com os grupos New Pornographers e Swan Lake, quer como Destroyer, identidade com a qual já lançou nove álbuns. São muitos discos, mas nenhum como o do ano passado, Kaputt, lhe deu tanta visibilidade. E merecida. É um daqueles discos capazes de evocar sonoridades de outras décadas (Roxy Music, David Sylvian, Prefab Sprout, Blue Nile, New Order ou Miles Davis) sem perder por um só momento a sua identidade particular, exposta em canções espaçosas que reúnem elementos pop, disco, jazz ou ambientalismo. Dito assim, pode parecer um objecto que se limita a ir atrás do espírito do tempo. Nada disso. O paradoxo é esse. Parece até um objecto desenquadrado, fora de tempo, com Bejar cantando como se estivesse a recitar poesia, por entre uma sonoridade electroacústica onde imperam noções como serenidade e intimidade. E o que é mais: ao vivo, ao contrário do que se possa pensar, tudo isto resulta muito bem.

Há alguns anos afirmava que os concertos nunca o satisfaziam por completo porque a dimensão de prazer estava muitas vezes ausente. É uma ideia contracorrente em relação à generalidade dos músicos, que enaltecem quase sempre o palco em prejuízo do estúdio, como se este fosse apenas uma obrigação.

No meu caso é um pouco ao contrário. Ou era, já não sei muito bem. A maior parte de nós tende a idealizar imenso a realidade dos concertos. É claro que há concertos recompensadores, mas esses não nos devem fazer esquecer a maioria que não corre bem. Há alturas em que me é difícil o palco, estraga-me o dia, mas isso tem vindo a mudar. Dantes ficava nervoso, não me sentia natural, mas fui relaxando e nos últimos tempos vou-me sentindo mais próximo do que sou.

Os três concertos que vi de Destroyer foram muito diferentes. Num deles interagiu muito com a assistência, noutro não dirigiu a palavra a ninguém. Em termos ideais, que tipo de atmosfera é que gostaria de criar?

Depende de muitos factores. Às vezes limito-me a ouvir a banda, a desfrutar, quase não tenho vontade de intervir para não danificar o que está a ser feito... [risos]. Outras vezes fecho os olhos, concentro-me nas palavras e deixo-me ir. Não sou muito de digressões, viagens, hotéis, esse tipo de coisas, e também não sou muito de meter conversa com estranhos, por isso também não o faço muito em concertos... [risos]. Se existir um meio-termo entre a energia, a adrenalina, e o desfrutar tranquilo da música, para mim está bem. Mas é claro que há situações em que apetece comunicar com os outros e mesmo não sendo exímio nisso, faço-o.

Tem quase 40 anos. Em 2011, James Murphy acabou com os LCD Soundsystem argumentando que, aos 40, já não tinha grande paciência para os rituais do rock e que não queria transformar-se num profissional da coisa. Teme esse conflito?

Não sei se alguma vez fui um profissional do rock nesse sentido. Sempre tive pontos de fuga. Alguns dos músicos que mais admiro têm muito mais de 40 anos. A questão é saber se estamos dispostos a transigir com algumas coisas que já não temos paciência para fazer. Eu nunca tive muita paciência para o circo do rock. Há muito tempo que me sinto distante. De alguma forma, o afastamento das linguagens do rock no último álbum tem a ver com isso também. E agora que me afastei não estou muito bem a ver como é que irei reaproximar-me. Talvez seja mesmo impossível.

De qualquer forma uma certa aura decadente, ou romântica se quisermos, atravessa o seu último álbum, como se a ideia do envelhecimento tivesse estado presente na criação do disco que é, como diz, muito diferente dos anteriores.

Tem alguma razão. Acho que tem a ver com aceitar o que somos. Não queria fazer um disco rock, desejava descolar desse mundo. E também não me apetecia fazer um disco como se tivesse de afirmar uma verdade qualquer. Já não sou um adolescente. Deixei-me disso. É uma estupidez pensarmos que sabemos tudo. Mas o disco acaba por ser mais simples do que isso. É sem dúvida diferente, mas não tem apenas a ver com a utilização de ritmos electrónicos ou de sintetizadores, como estou sempre a ouvir à minha volta. Comecei por ideias simples: sabia que queria ter sons de bateria misturados com sons programados de bateria. Sabia que queria ter linhas de baixo puxadas para cima, como na maior parte dos temas disco ou nalguns de jazz. Não queria cantar muito. Queria ter espaço. Foi assim, de forma pragmática, que a maior parte das canções se foi transformando. A minha forma de cantar também está diferente por causa das palavras, da instrumentação e do ambiente global, até porque algumas canções estão mais próximas da ideia de balada.

Nunca teve problemas em falar das suas influências, assumindo algumas nesse disco: Roxy Music, David Sylvian, Miles Davis. Previsivelmente, a relação entre o passado e o presente da música popular tornou-se numa obsessão dos últimos anos. Como a vive?

Estou velho para pensar que tenho coisas novas para mostrar, mas também me parece que não decalco ninguém. Limito-me a fazer as minhas coisas e a envolver-me nelas com vontade. É claro que ouço jazz dos anos 1950. Oiço também a música ambiental de Jon Hassell e alguma música de dança dos anos 1970. E, sim, claro, Roxy Music, Brian Ferry ou David Sylvian, principalmente das fases mais criativas, quando faziam pop mas com elementos fora dela, sem nunca deixarem de ser inteligíveis. O Brian Ferry, por exemplo, é um cantor natural. Não precisa de se esforçar, tem o talento, o que também acaba por ser um problema, porque pode ficar-se apenas por aí. O meu problema é outro, tenho de me esforçar, de encontrar uma forma de comunicar. E claro que não tenho problemas em falar disso, porque haveria de ter? Nenhuma música não nasce do nada.

Vive em Vancouver, no Canadá, quase na fronteira com os EUA. A geografia tem algum impacto na forma como vive a música ou é-lhe indiferente?

Não sei muito bem como vim aqui parar. Foi um acidente. Os meus pais são canadianos. Formei-me aqui, cresci aqui, é uma cidade que conheço bem. Quando se chega a uma determinada fase da vida, dizemos para nós próprios: "Ok! é isto!". Vancouver é isso para mim. É a minha cidade e não me interrogo muito porquê. Já vivi em Espanha, em Málaga e Madrid, mas agora sinto que é aqui que pertenço. A haver uma geografia que me interessa, é a dos afectos. A maior parte das pessoas de que gosto estão aqui. Não interessa para onde vá em viagem, sei que é aqui que regressarei.

Há anos assisti a um programa de TV canadiano, quando os Arcade Fire despontaram no mercado americano, onde se discutia o sentimento de pouco orgulho que o país teria em relação aos seus músicos. Esse sentimento ainda subsiste?

Não sei. É um pouco estranho, porque as pessoas fora do Canadá parecem ter mais consciência do que aqui se faz. A proximidade com os EUA é tramada: acabamos por nos comparar com eles, o que não ajuda muito. Dizem que isto é um país estranho e talvez seja. Não sei se a maior parte das pessoas sabe que Leonard Cohen, os Arcade Fire ou eu somos canadianos e também não sei se é muito importante.

Quando escreve pensa em alguém, nalguma situação, ou é como canta em Blue eyes: "I write poetry for myself"?

Costumava inspirar-me em pessoas que ia conhecendo ou em viagens, mas não creio que hoje isso seja assim. Na verdade não penso nisso. Interessa-me que as letras funcionem como a música: que criem um ambiente. Estão lá para produzir uma atmosfera. Não têm de ser autobiográficas. Longe disso. Nessa canção em concreto, isso parece-me mais uma coisa de homem desesperado. Não sou eu de certeza... [risos]. Às vezes olham para mim como se fosse uma alma torturada ou qualquer coisa do género. Que hei-de fazer?

Com Kaputt acabou por granjear um culto algo surpreendente. Sente agora pressão em gravar um novo álbum?

Sinto estranheza, porque Destroyer não é um projecto de digressões e temos feito imensos concertos. Necessito de parar. Preciso de algum silêncio e de reencontrar o meu centro. Gosto de me sentar e escrever sem nenhum pensamento preciso sobre o que estou a fazer. Não escrevo a pensar num disco. Isso não faz sentido. A única coisa que sei é que o que virá aí não será certamente um disco de rock ou pop. Será qualquer coisa mais complexa - ou mais simples, depende.