Diana krall diz que não é Madonna, mas também sabe reinventar-se

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Simone Cecchetti/Corbis

A cantora e pianista de jazz vasculhou na colecção de discos de 78 rotações do pai e saiu de lá com o seu álbum mais ecléctico de sempre. Glad Rag Doll é um retrato sépia, com roupa de cetim, dos tempos pioneiros do swing

Estamos num dos hotéis mais charmosos de Paris, o Georges V, perto dos Campos Elísios, e a primeira coisa que ouvimos da sua boca é: "De Portugal? Adoro o Pestana Palace! É um dos meus lugares preferidos do mundo! Oh! Meu Deus! É tão, tão tranquilo! Tem uma vibração tão positiva. Tenho saudades de Portugal. Há anos que fico sempre no mesmo quarto no Pestana Palace."

Assim, de repente, para início de conversa, poderíamos imaginar que a cantora e pianista Diana Krall iria fazer jus à reputação de celebridade do jazz e passar o tempo a citar locais luxuosos que conhece, mas, logo de seguida, refaz-se: "Deve estar a imaginar que sou esquisita, logo a falar de hotéis pela manhã." E sem que pudéssemos dizer nada. "E Portugal, as pessoas, a crise?"

Ao longo de uma hora de conversa, irá ser sempre assim, entre a frontalidade e a consciência do momento, rindo-se sempre que diz qualquer coisa de menos claro para si própria, como quando assume algumas fragilidades e vontade de as superar. "Sempre fui reservada, tímida até, nunca fui boa a articular ideias, mas nos últimos anos, parece-me, melhorei nesse campo."

Diana Krall, canadiana, 47 anos, mãe de gémeos rapazes de seis anos, casada há dez com o músico Elvis Costello, tem novo álbum, Glad Rag Doll. Ela diz que é um disco onde sai da zona de conforto - "podia ter feito um tributo consensual, mas resolvi criar qualquer coisa a partir do que ouvia no passado e que se mantém no presente" - e nós afirmamos que é semiverdade.

É um álbum onde recria canções do antigamente (anos 1920 e 1930, de Libby Holman, Annete Hanshaw ou Ruth Etting), num estilo ecléctico. É verdade que vai muito para além das raízes do jazz, mas o seu estilo está lá, nitidamente. Foi produzido por um velho cúmplice do marido, T-Bone Burnett, e contou com a colaboração de um grupo de notáveis músicos, com destaque para o versátil guitarrista Marc Ribot. Na capa do álbum, e nas fotos de promoção, aparece de lingerie negra do antigamente, escolhida pelo designer Colleen Atwood, embora o penteado e a maquilhagem, pudemos confirmar, seja actual.

No dia em que falamos com ela, está cansada. É de manhã. Diz que dormiu mal. Mas não se queixa. "Estar cansada faz parte desta vida. É como se me tivesse habituado a viver com isso. Viajo muito, durmo pouco, mas o que posso fazer? Estar longe dos meus filhos, isso sim, é um problema hoje em dia."

Em alturas de promoção a novos discos, afiança que a fadiga se intensifica e que lhe custa a parte das entrevistas. Pensar sobre aquilo que foi feito, descobrir uma intencionalidade que antes não vislumbrava, eis a dificuldade, expõe ela, antes de se desfazer em risos, argumentando, mais uma vez, que não é muito boa a articular verbalmente sobre a sua actividade. "A questão é como racionalizar qualquer coisa que acaba por ser muito intuitiva."

Às tantas, dizemos-lhe que o marido é conhecido por ser alguém que é capaz de pensar de forma muito precisa sobre a sua criatividade. "O Elvis? Meu Deus! Nunca vi ninguém como ele nesse departamento", exclama, antes de irromper em novo riso. "Ele justifica muito bem os sentimentos desencontrados, que é aquilo que acontece num processo criativo."

Horas antes, um dos seus músicos tinha-lhe enviado um vídeo de uma entrevista da cantora Nina Simone que a impressionou. "Fala do seu trabalho como se constituísse um momento de arrebatamento, e é isso mesmo que aconteceu comigo neste álbum", afirma. "Este disco foi excitante, foi como apaixonar-me." Mas apesar de comparar o processo criativo à paixão - "é por isso que é qualquer coisa de contraditório, agitador e complexo, da qual é difícil falar com coerência" - é numa relação estável que pensa quando analisa o todo. O conceito para o projecto, ao contrário das paixões, não lhe surgiu num momento de encantamento. Foi um processo paciente. "Foram anos e anos a pensar nisto, ouvindo música em casa do meu pai e vendo vídeos no YouTube. Foi como repescar no jardim da memória e encontrar canções que me marcaram. Não são canções sofisticadas, não é Frank Sinatra, são canções que integram o meu imaginário."

Ao contrário de outros discos da sua autoria, recriações de canções que fazem parte do cancioneiro americano, desta feita vasculhou na colecção da família, nomeadamente discos de 78 rotações e partituras de música dos anos 1920 e 1930. "Não são canções requintadas de Irving Berlin, Cole Porter ou Nat King Cole, são canções vulgares que me transportam para casa do meu pai ou da minha avó", diz, descrevendo a casa da avó, quando ali se realizavam sessões de música ao vivo. "Havia sempre fumo, um piano, pessoas a beber, falando, cantando e tocando. É esse tipo de música que tinha na cabeça. Música que toda a gente conhecia, como as canções de Annette Hanshaw."

Ao longo dos anos lançou onze álbuns e vendeu mais de quinze milhões de discos em todo o mundo, tendo recebido dois Grammys. Nasceu em Nanaimo, no Canadá. O pai tocava piano e a mãe cantava na igreja e ela, por influência paterna, começou a tocar piano aos quatro anos e aos quinze já actuava num restaurante local. Em 1993 lançou o primeiro álbum, Stepping Out, mas seria o terceiro, All For You: A Dedication to the Nat King Cole Trio (1996) que se tornaria num sucesso, ainda que circunscrito. O enorme triunfo global, surpreendente para alguém proveniente do jazz, chegaria em 1999 com When I Look In Your Eyes e também com The Look Of Love, dois anos mais tarde.

Este último era um álbum muito pessoal, com canções (Maybe you"ll be there, I remember you ou I get along without you very well) que pareciam antecipar a morte da mãe, em 2002. Dois amigos próximos, e seus mentores musicais, o baixista Ray Brown e a cantora Rosemary Clooney, haveriam de morrer duas semanas depois da mãe. "Tempos muito duros", limita-se a dizer hoje.

Meses depois desses acontecimentos conheceu Elvis e, um ano depois, casaram-se. Foi ele que a encorajou a reinventar-se como cantora-compositora em The Girl In The Other Room (Costello escreveu seis canções e compôs a música). Mas os fãs não gostaram da mudança - habituados à recriação de clássicos, estranharam o estilo contemporâneo.

Todos os seus álbuns de êxito são recriações de clássicos americanos. Por isso, não falta quem a acuse de apenas recalcar o passado, sem acrescentar nada de novo. Denúncia que ela, naturalmente, refuta. E por favor, não lhe digam que aquilo que ela faz são versões. "Aquilo que faço é recriar. É o que os actores fazem", argumenta. Os actores não escrevem as suas deixas ou os guiões dos filmes, mas são eles que fazem com que as palavras de outros acabem por ganhar vida. "Faço exactamente a mesma coisa."

E dá como exemplo a canção Let it rain, incluída no novo álbum que, segundo ela, é totalmente diferente do original. "O processo é reimaginar criativamente as canções, não é apenas pegar em qualquer coisa e interpretá-la." Em primeiro lugar, concentra-se na letra, no que é dito, depois muda o tempo rítmico, cria novos arranjos e, finalmente, interpreta-a de maneira diferente, a partir de si. "É muito criativo, especialmente quando estamos a falar de canções obscuras que as pessoas não conhecem e acabam por estar a ouvi-las pela primeira vez, como se fossem originais."

Apesar de tudo, é fácil discernir uma unidade sonora na sua nova obra. Já nas letras nem por isso, o que ela confirma. "A minha escolha acaba por recair em canções melancólicas e intensas em termos sentimentais", diz, ressalvando que a complexidade do que sente se foi alterando com os anos e também teve isso em atenção.

O veterano músico e produtor T-Bone Burnett, que trabalhou em dez álbuns do marido, foi a sua escolha para o novo disco. Inicialmente hesitou: "Tive dúvidas", pela relação muito próxima entre ele e o marido, mas concluiu que não poderia ter tomado uma decisão mais acertada. "Amo T-Bone. Foi ele que criou espaço para que me apaixonasse intensamente por este disco", afirma, para logo corrigir - "Foi ele e também os músicos."

Quando fala dos músicos e da estreita colaboração entre todos, os seus olhos brilham, discorre com mais veemência e os seus gestos tornam-se largos. "A sensação que tenho é que fui viajar com uma série de pessoas até um sítio que nenhum de nós conhecia muito bem, mas ninguém olhou para trás", descreve. "Não pensei nem por um momento no que havia feito no passado e os músicos perceberam esse estado de espírito e também o incorporaram." Foi como se tivesse entrado num novo mundo e toda a gente se disponibilizou a segui-la. "Foi generoso da parte deles", sublinha.

"Marc Ribot é um génio. Insisti em trabalhar com ele e ainda bem. O mesmo com [o baixista] Dennis Crouche e [o baterista] Jay Bellerose. Adorei toda a banda. Sinto que arrisquei muito com este disco e devo-lhes não ter pensado em nada disso nessa altura - simplesmente estava a divertir-me com todo o processo."

Nos anos 1990, em espectáculos ao vivo, como reconhece hoje em dia, denotava algum desconforto com o corpo. Era bastante tímida em palco. Raramente falava com o público. Com o seu cabelo loiro, voz profunda e ar algo enigmático, lembrava levemente a actriz Kathleen Turner no filme Noites Escaldantes (1981), mas sem a confiança e a força erótica desta.

Na actualidade, diz-se segura de si e isso pressente-se na relação descomplexada que tem com os músicos, afirma. "Não preciso sequer de falar muito com eles. Há um entendimento imediato que ultrapassa as palavras e isso é novo para mim." Na noite anterior havia actuado ao vivo e a sua descrição dos factos tem qualquer coisa de metafísico. "É como se um caleidoscópio fizesse clique", ri-se. "É olharmos uns para os outros, é relaxarmos e tocarmos, apenas. É como ir lá atrás e recuperar a autenticidade de tocar piano em casa, quando era criança."

Antes tinham estado a ensaiar durantes duas intensas semanas e nesse processo percebeu que também o seu estilo de tocar se alterou com o novo registo. Há pelo menos uma presença cénica mais vigorosa. "Viu um vídeo recente no YouTube?" interroga, antes de exclamar que apanhou um choque quando se viu. "Foi como se não me reconhecesse! Tocava Sweet man (ou seja There ain"t no sweet man that"s worth the salt of my tears) e tive de ver o vídeo cinco vezes para ter a certeza que era eu!"

Curioso é o facto de ter sido desencorajada a expor o novo álbum em concerto. A ideia inicial era entrar em digressão com um novo espectáculo, onde tocaria apenas duas ou três canções novas. Mas acabou por decidir que Glad Rag Doll iria ser o centro do mesmo. "É um risco, porque ainda estou a ver como irei tocar alguns dos temas, mas disse a mim própria que desta vez não haveria "bossas novas". É bom ter um som fresco, mesmo que seja para soar tradicional."

Essa forma descontraída de estar não se pressente apenas na música. Também está presente na forma como se auto-representa, principalmente nas fotos de promoção. Em discos anteriores, já tinha havido falatório sobre as fotos de capa dos discos, mas neste a tendência intensificou-se. Ela diz que se está nas tintas, mas não é totalmente verdade.

"Lamento se as pessoas não percebem que estou apenas a representar um papel. É assim que vivo a coisa." A ideia parece ter sido homenagear as mulheres dos musicais dos anos 1920. É um imaginário de alguma vulgaridade, aquele que tenta reproduzir. "É qualquer coisa de extremamente popular, não é Fred Astaire ou Ginger Rogers, e quando se percebe isso, tudo bem. Agora se existe uma "polícia do jazz" por aí o que posso fazer? Encolher os ombros."

A ideia da capa, e das fotos de promoção, foram dela. Aliás, faz questão de frisar, todas as normas que dizem respeito aos discos, passam por ela. "Algumas pessoas parecem pensar que vivo rodeada por um comité de homens que me obrigam a fazer fotos assim", diz com voz irónica. "Ainda penso pela minha cabeça!" A relação com Costello também não é esquecida, para reafirmar que sabe bem o que quer. "Como é possível dizerem que as ideias são de Elvis e não minhas! O meu mundo artístico é circunscrito por mim, ninguém entra no meu estúdio ou vai às sessões de fotos dizer o que posso ou não fazer."

A forma como determinado artista se apresenta em termos visuais pode prejudicar ou favorecer a sua credibilidade artística. É uma história antiga. E às vezes a fronteira é ténue. "Não sou Madonna, não tento reinventar-me, apenas desempenho um papel que tem a ver com a música", declara. "Não me interprete mal, gosto de Madonna. Lady Gaga não é da minha geração, mas acho-a inteligente. Mas Madonna é original. Está sempre a mudar, absorve coisas à volta e torna-as suas", remata.

Nos Estados Unidos, os reality shows de música são os programas de maior audiência, mas ela diz-se distante da cultura pop mais banal. "Não vejo TV", assume. O que não a impede de estar a par do que se passa. "Gosto de Jack White e Patti Smith, embora continue a ouvir Dylan, The Band ou o piano intemporal de Jelly Roll Morton."

Quando lhe perguntamos sobre descobertas recentes, cita o excêntrico cantor americano Willy Moon, que se inspira nas sonoridades do rock"n"roll dos anos 1950. "Ele é intrigante, é uma espécie de Johnnie Ray contemporâneo", declara, antes de soltar uma gargalhada para dizer que também gosta muito de um dos grupos mais badalados do rock alternativo, os Grizzly Bear, "apesar de desconfiar que eles não gostam muito de mim", ironiza. Acima de tudo, gosta de músicos capazes de se desdobrar por diversos géneros. "Bob Dylan era da folk e Miles Davis do jazz, mas são universais, não se circunscrevem a géneros ou tendências e eu revejo-me nessa abordagem."

Dylan não é o único mito vivo do rock que admira. Paul McCartney é outra dessas lendas, e Diana teve oportunidade de trabalhar com ele no seu último álbum, Kisses On The Bottom, lançado este ano. É um disco onde McCartney revisita clássicos americanos e onde Diana desempenhou um papel crucial, tocando, criando os arranjos e convidando músicos seus.

"Foi a melhor experiência da minha vida", conta. "Paul é a pessoa mais simpática que se possa imaginar e como músico faz toda a gente sentir-se confortável. Às vezes, olhava para ele e pensava: "Oh! Meu Deus! É o Paul McCartney! Depois assentava e voltava à terra. É agradável trabalhar com alguém tão generoso e aberto aos outros." Ela já era fã dos Beatles, mas, com a amizade com Paul, nasceram mais dois admiradores do grupo pop mais célebre de sempre: os dois filhos, em particular, um deles, Dexter. "A partir de determinada altura, só ouvia Beatles", ri-se. "Dexter tornou-se num verdadeiro conhecedor e Paul foi muito paciente e esclareceu-o sobre uma série de canções."

Ao longo da conversa, os filhos estão sempre presentes. Fala deles com evidente deleite: "São o centro da minha vida." E, nessa ligação afectiva, a música é omnipresente. "Ouvem Patti Smith, Radiohead, Elbow e adoram ouvir Elvis na guitarra. Quando andamos de carro, ele tem sempre uma selecção musical para eles."

Para além do seu novo álbum e do disco de McCartney, o outro grande acontecimento do ano para Diana Krall foi ter tocado Fly me to the moon no serviço fúnebre de um dos heróis dos Estados Unidos e da humanidade, o astronauta Neil Armstrong. Foi em Setembro, em Washington, e ela ainda se emociona quando recorda o momento. "Como tantas outras pessoas, quando era criança, dizia que queria ser astronauta ou estrela rock", começa por contar, "por isso aquele dia só podia ser especial. Foi a maior honra que alguma vez me foi concedida. Foi muito emocional. Duro, mas bonito." Para ela, a morte do primeiro homem na Lua representou também o fim de uma era.

"É muito simbólico, não é?", acaba por reflectir, olhando pela janela do quarto de hotel, como se procurasse uma resposta lá fora. "Quer dizer, Armstrong estava sempre lá, quando éramos crianças, quando fomos crescendo e nos tornámos adultos. Tornou-se numa lenda. Aprendemos a gostar disso tudo. Agora já não está lá."

Ela é canadiana, o pai vive em Vancôver, mas sente-se que a cultura americana está muito presente na sua identidade. "Há coisas que me irritam nos Estados Unidos, um certo culto autoritário". Mas ao longo dos anos foi aprendendo a gostar dos americanos, em especial dos nova-iorquinos. "Não posso reclamar, gosto de viver naquela cidade." E como é um dia vulgar em Nova Iorque? "Acordo às 6h30 com o meu marido, faço o pequeno-almoço para os miúdos e levo-os à escola. Depois vou ao ginásio ou então, o que também pode acontecer, regresso para a cama, porque estive a trabalhar até às duas da manhã. Gosto também de levar os miúdos a um parque, comer fora num restaurante e, claro, há sempre a música. Mas o meu foco é nos miúdos."

Diz-se realizada como talvez nunca tenha acontecido no passado. "Continuo a cantar música triste com facilidade e gosto de o fazer, mas tenho de dizer que há muito tempo não me sentia tão feliz", esclarece, transmitindo que se sente muito próxima do público. "Não sou uma diva distante a passar por coisas que ninguém mais experiencia. Sou uma pessoa, nada mais."

Nesta fase da sua vida há apenas uma nuvem negra. "Há meses que vivemos os quatro num pequeno apartamento, porque o nosso está com infiltrações", conta, olhando em redor para dizer que o apartamento temporário é pouco maior do que a suíte onde nos encontramos. "Não é fácil coabitarmos os quatro, talvez por isso pense tanto no Pestana Palace", graceja. Afinal, a forma ansiosa como falava do hotel de Lisboa inicialmente podia ter mais do que uma leitura. Está tudo explicado.