O labirinto sensual de Rosemarie Trockel

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HELENA COLAÇO SALAZAR

Feminista, crítica, ambivalente, multifacetada, sensual. A arte de Rosemarie Trockel apresenta-se na Culturgest de Lisboa, para deixar ao espectador a liberdade construir um itinerário pessoal. Sem a ansiedade da interpretação.

Pelo menos desde os anos 1990 que um conjunto de adjectivos se cola à obra de Rosemarie Trockel (Schwerte, Alemanha, 1952): contraditória, incoerente, incompleta, opaca, fluida, multifacetada. E com justeza. Sustentada numa desconcertante variedade de suportes e num vaivém de referências e elementos, ela troça, inocente, de qualquer veleidade da interpretação. Na Culturgest de Lisboa, Flagrante Deleite serve de palco a esse acto, com uma série de colagens, esculturas, obras em cerâmica e peças feitas de lã (produzidas desde 2004) que não permitem nem uma leitura cronológica, nem a hegemonia de um sentido. Ao espectador, resta libertar o olhar e o corpo. Tornar-se (verdadeiramente) um nómada nas salas que constroem a exposição.

A artista alemã apareceu na cena internacional depois de Gerhard Richter, Sigmar Polke e Georg Baselitz, incluída na mesma geração de Thomas Schütte, Thomas Struh ou Andreas Gursky, e notabilizou-se pela recusa do formalismo e do neo-expressionismo que pautava os anos 1980. A perspectiva feminista (embora não assertiva) que orientava a sua prática, a disparidade de estilos, técnicas e suportes que aquela convocava, e uma posição anti-académica face às ideias de exposição, retrospectiva ou biografia, suscitaram o fascínio de críticos, comissários e instituições internacionais que, até hoje, não cessam de lhe endereçar convites para mostrar publicamente o seu trabalho. A este generosa "domesticação", tem respondido com educadas recusas ou, quando aceita, determina a natureza da apresentação das obras, declinando o formato historicista da retrospectiva para transformar a exposição num work in progress; isto é, numa obra sujeita a constantes e contingentes revisões.

O interesse de Rosemarie Trockel na incoerência e nas contradições do seu próprio trabalho, a par da indiferença que vota ao registo académico e histórico, não assinalam uma condição insular ou obscura. Assumidamente auto-referencial, a sua obra está em permanente diálogo com outros artistas e outras correntes da arte, sem ceder à apropriação fácil ou à simples citação. Spiral Betty, a peça que abre Flagrante Deleite, é exemplar deste procedimento. De um tubo fluorescente, desdobram-se duas espirais que em simultâneo aludem ao aparelho reprodutor feminino e a Spiral Jetty (1970), de Robert Smithson. Pendurada na parede, não é propriamente uma pintura, mas também não é uma escultura. E a sua luminosidade cintila com sentidos que Dan Flavin não imaginaria.

A intertextualidade é uma coordenada possível para nos orientarmos na fluidez e na anti-sistematicidade desta obra. Numa das colagens, um corpo estranho nasce da justaposição dos genitais e do abdómen femininos de A Origem do Mundo, de Gustave Courbet com o peito e a cabeça do artista americano Raymond Pettibon. E são várias as esculturas que convocam a utilização dos processos industriais (da produção em massa) pelo minimalismo ou a tradição do monocromo expressa por esta corrente e pelo abstracto-expressionismo. Mas com elegância, Trockel confunde as expectativas do espectador mais avisado, ora deixando que as obras criem fissuras, acidentes no espaço expostivo, ora activando as esculturas com materiais inusitados. Note-se a perturbação que umas enigmáticas pernas, sobre uma caixa amarela, produzem sobre a experiência de um conjunto de depuradas e lisas esculturas geométricas. Ou a ameaça trazida por uma intrigante peça de parede feita de 15 chapas de fogão: "comentário" irónico e feminino à (suposta) máscula frieza do minimalismo. Porque de facto queima (aproximem-se).

Repetição e desordem

O corpo central da exposição traduz-se numa extensa série de colagens. Mas serão mesmo colagens? Ou serão antes pinturas ou esculturas? Ou apenas objectos? A maioria revela a presença de pinceladas que ocultam mais do que revelam, outras exibem roupas, pedaços de pano. E associadas a reproduções fotográficas, desenhos e recortes, criam buracos, fissuras. A disparidade de forças e elementos em cada colagem (cuja técnica se aproxima da "assemblage art") desarma a tentação de interpretar. Bidimensional e tridimensional. Abertura e fechamento. Aparecimento e desaparecimento. Profundidade e superfície. Cópia e original. Uma multitude de contrários habita estes trabalhos.

Os conteúdos ampliam entretanto o desnorte do esperador. Ao longo de dois corredores, repetem-se padrões e imagens (roupas, retratos fotográficos, janelas), sobressaem corpos truncados ou distorcidos e referências claras a outras obras (colagens ou não). Por exemplo, Gossip, Oh Mystery Girl, Wish you were here contêm elementos comuns, como o rosto de Pettibon, A Origem do Mundo ou uma fotografia de um projecto de arte pública da artista. Encontramos o mesmo desenho (um provável auto-retrato) em duas colagens e a reprodução fotográfica de uma peça em cerâmica ocupa a totalidade de Departure of the Volunteer. Rosemarie Trockel não se limita a explorar os limites e as possibilidades de colagem, usa-a para reflectir sobre a sua produção e, pelo caminho, reinterpreta-a.

O regresso a trabalhos passados não é uma prática inédita (saindo do campo da arte lembramo-nos de Howard Hawks ou dos Kinks), mas ao mesmo tempo que joga com as possibilidades da repetição ou da série, a artista alemã interroga-as, acrescentando-lhes desordem, ruptura. Repare-se nos efeitos das pinceladas (And SHE Saw That It Was Bad e Great Nude) ou em pequenas subtis intervenções (a aranha que cobre sexo feminino da pintura de Courbet, em "Replace Me"). É neste labirinto que nos movimentamos não só com a visão, mas com o corpo.

Fechadas em caixas de madeira e cobertas por vidro acrílico, as colagens suscitam uma aproximação táctil que se intensifica nas peças em espuma e cerâmica e sobretudo nos monocromos feitos de lã da última sala. À visão sucede-se a experiência háptica e física. As cores e as formas irregulares e sinuosas das primeiras sugerem intersecções com a arte pop (pensamos em John Chamberlain ou em Claes Oldenburg), enquanto os monocromos de cores de quentes aludem aos processos de manufactura, transformando a lã numa imagem. Mas Rosemarie Trockel não nos deixar descansar na sensualidade das formas. O que pretende? Uma crítica à homogeneização dos sujeitos e à mercantilização da vida? Uma denúncia dos mecanismos de repressão da vida doméstica? Algures, alguém parece responder, mas não conseguimos ouvir. E regressamos ao labirinto, em busca das respostas.