Há uma princesa preocupada com a iliteracia

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Ler e escrever "não são apenas competências técnicas", são "a chave para os cidadãos sentirem que fazem parte da sociedade", diz Laurentien van Orange pedro cunha

Um em cada cinco europeus tem dificuldade em ler o mundo. Frase escolhida para título de um relatório sobre literacia na União Europeia. E a princesa Laurentien da Holanda, que liderou os peritos, não se conforma. "É preciso agir já", diz. Os europeus de que se fala têm 15 anos.

Na Holanda, 10 por cento da população têm problemas de iliteracia funcional. Isto é, baixo desempenho na leitura e na escrita, o que impede uma participação activa na sociedade. "Não se esperaria este tipo de problemas num país como a Holanda, pois não?", diz a princesa Laurentien, que veio a Lisboa para a VI Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura.

Empenhada em provar que a iliteracia não é "um exclusivo dos países em desenvolvimento", Laurentien van Oranje diz que "a Europa precisa de acordar para este problema". Por isso, dirigiu o Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Literacia da Comissão Europeia que fez o relatório. Um em cada cinco europeus tem dificuldade em ler o mundo (publicado em Setembro) e apresentou-o no final da semana passada aos ministros da Educação da UE, no Chipre.

Antes, em Portugal, teve oportunidade de o mostrar a Nuno Crato e, durante a sua comunicação na Gulbenkian, acabou por provocar risos na plateia ao sugerir ao ministro da Educação: "Diga ao seu colega das Finanças que investir na literacia compensa. Falem disso quando forem de férias juntos." Isto porque a princesa Laurentien acredita que, "mobilizando os diferentes ministros para o assunto e pondo a literacia no centro de todas as políticas, o problema se resolverá mais facilmente".

Lembra que "é a primeira vez que a literacia é analisada a nível europeu desta forma e que a Europa tem muitas políticas segmentadas que, por não contemplarem a questão, não vão conseguir alcançar os objectivos". E dá ao PÚBLICO dois exemplos: o combate à pobreza ("se não se tiver competência para ler e escrever, torna-se quase impossível sair da sua espiral") e o investimento no digital ("não haverá pessoas conectadas se não souberem ler bem nem escrever"). Reforça a ideia de que este relatório é "um sinal de alerta". Ou seja: "Acordai."

Segundo Laurentien, temos de encontrar caminhos para chegar a estas pessoas e descobrir o que precisam. Depois, há que insistir em argumentos adequados para as convencer a superarem-se e a colaborarem no seu próprio crescimento.

Mas os governos desejam mesmo uma população informada e exigente? "Todos os discursos dizem: "Queremos uma Europa competitiva e inovadora". Não podemos consegui-lo sem ser com base no conhecimento, no saber", disse ao PÚBLICO na véspera da conferência. "Nós falámos com os diferentes países da União e todos nos revelaram que não se tinham apercebido da importância da literacia. Há dez anos que trabalho sobre o assunto e foi muito difícil pô-lo na agenda política. Na Holanda, já conseguimos. Tem de ser passo a passo."

Mesmo quando os governos estão obcecados com o défice, o PIB, as dívidas? "Temos de fazer com que entendam que a ideia não é investir em política social "em vez de" na literacia ou em políticas educativas "em vez de" na literacia. A literacia é um componente de todas as áreas e tem de atravessar as diferentes políticas." Empresas, empregadores e outros actores sociais ficarão a ganhar: "Os empregadores ficarão com trabalhadores mais motivados, mais saudáveis, que faltam menos e são mais atentos à segurança. Sabemos que é assim. E precisamos de conquistar as empresas para a causa da literacia. Continua a ser o dinheiro a mover o mundo".

A influência de Laurentien multiplica-se em diversas actividades e instituições. Em 2004, criou a Fundação Ler e Escrever dos Países Baixos. Em 2009, tornou-se enviada especial da UNESCO da Literacia para o Desenvolvimento e foi patrona de Amesterdão Capital Mundial do Livro. É também presidente da Fundação Cultural Europeia e deu "uma grande ajuda no início do Plano Nacional de Leitura" português, lembrou Isabel Alçada, a primeira comissária, substituída entretanto por Fernando Pinto do Amaral.

Mas o que faz uma princesa empenhar-se tanto no combate à iliteracia? "Eu não mudei por me ter tornado princesa, por me ter casado com um príncipe [príncipe Constantino]. Sou a mesma pessoa que era antes, só que tenho mais responsabilidade. A de ser figura pública."

Laurentien, com apelido de solteira Brinkhorst, é formada em Ciências Políticas pela Universidade de Londres, fez mestrado em Jornalismo na Universidade da Califórnia e trabalhou na CNN.

Uma experiência pessoal dura, de "isolamento" e "exclusão", na juventude terá ampliado a sua sensibilidade para situações semelhantes às que sentem as pessoas "que não sabem ler o mundo". Foi assim: "Quando tinha 16 anos, fui para o Japão com os meus pais. Saí de um sistema holandês para um sistema francês e não sabia pronunciar uma única palavra. Foi muito difícil não conseguir comunicar com os meus colegas na escola, que também não estavam muito interessados em entender-me. Senti-me muito isolada. Não tive pena de mim própria, mas foi uma experiência muito forte."

A partir de então, fez tudo o que podia para que "toda a gente se sentisse incluída". E agora pode mais. "O desconhecimento de uma língua leva uma pessoa a sentir-se muito só e infeliz. O mesmo se passa com quem não sabe ler ou lê mal. Tem vergonha, esconde-se, torna-se insegura e desconfiada. Não quero isso para ninguém."

Ler pode ser uma chave

Outra história pessoal: "Alguém muito próximo de mim admitiu, há dois anos, que não conseguia ler em condições. Sentia-se tão triste que, ao revelá-lo, se desfez em lágrimas. Eu conheço-a há anos e nunca desconfiei."

A princesa Laurentien não tem dúvidas de que "ler e escrever não são apenas competências técnicas que se aprendem e pronto", são "a chave para os cidadãos sentirem que fazem parte da sociedade". Por isso continua a empenhar-se tanto. "Se de alguma forma conseguirmos passar-lhes o sentimento de que realmente importam, a sua confiança aumentará e passarão a acreditar que é possível. É isso que quero para toda a gente. Confiança e capacidade de acreditar. Mesmo do ponto de vista estratégico e político, fazem-se imensos progressos assim."

Mas não será fácil convencer um miúdo de que ler e escrever é importante e que o conhecimento é precioso quando este vê a profissão dos pais, professores ou jornalistas, por exemplo, ser completamente desvalorizada. "O que se pode dizer a esse miúdo é que, queira ele ser bombeiro, operário numa fábrica ou ter qualquer outra profissão, será sempre mais fácil consegui-lo se dominar a palavra escrita. Tenho consciência da situação difícil que se atravessa, mas não podemos desistir. No momento em que começarmos a desistir da educação, estamos perdidos. A palavra escrita é central nas sociedades actuais."

Olhar a literacia a partir do berço é o caminho e já se sabe que se deve começar logo por aí. Mas há equívocos. "Os programas de leitura dirigem-se quase sempre para as crianças e no pressuposto de que haverá um adulto que lhes irá ler uma história ao deitar, por exemplo. No entanto, muitas vezes há uma percentagem elevada de adultos que não conseguem ler para as crianças. E o programa vai por água abaixo", conclui.

A justificação para a Europa se ter deixado chegar a estes níveis "inesperados" de iliteracia encontra-a na excessiva confiança que se depositou nos sistemas: "Nós pensámos que, tendo tudo a funcionar, como o acesso alargado à educação, os infantários, as creches, as escolas, os professores qualificados, o trabalho estava feito. Mas enganámo-nos." Uma série de aspectos importantes foram ignorados: "Não pensámos em qualidade, não pensámos no que fazer com culturas diferentes. Tomámos tudo por garantido. E criámos um tabu: as pessoas que começaram a ter estes problemas não falavam disso. Pensavam que eram as únicas e foram-se escondendo. Temos de acordar a Europa e derrubar esse tabu."

O poder das crianças

A terminar o encontro com o PÚBLICO, a princesa Laurentien da Holanda quer falar sobre o seu livro para crianças Mr. Finney e oMundo de Pernas para o Ar (ilustração de Sieb Posthuma, edição da Esfera do Caos). E falou. "Se me tivesse perguntado o que espero do papel de Mr. Finney em Portugal, ter-lhe-ia dito que espero que motive as crianças a conversar sobre problemas ambientais com os pais. Acredito no poder do discurso das crianças, é muito coerente e eficaz. Elas vão obrigar os pais a verem-se ao espelho e a questionarem-se."

Também quer levar este diálogo para as escolas, por isso visitou a Escola Francisco Arruda, em Lisboa. "Não se pode ensinar apenas como funciona a Natureza. Mr. Finney questiona mais do que explica." Conta ainda que fez um pacto com os alunos que conheceu. "Pedi-lhes que, da próxima vez que vissem lixo no chão, o apanhassem. Selámos o acordo com um aperto de mão. E eles comprometeram-se a cumpri-lo."

Nuno Crato também se comprometeu a, nas próximas férias, mostrar o relatório a Vítor Gaspar.

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