Salários dos trabalhadores de base caem mais do que os dos gestores

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Com taxa de desemprego elevada, os custos salariais não aumentam enric vives rubio

Estudo da consultora Mercer revela que, pela primeira vez em 14 anos, as remunerações baixaram em termos absolutos. As organizações estão a substituir trabalhadores e a oferecer remunerações inferiores

É um resultado inédito no estudo sobre salários em Portugal que a consultora Mercer faz todos os anos, desde 1998. Pela primeira vez os salários nominais (o que recebemos efectivamente no final do mês) desceram em praticamente todos os níveis hierárquicos das empresas. E quem mais perdeu foram os escalões mais baixos. Por situações de reforma, fim de contratos laborais ou reestruturações internas, as organizações estão a substituir trabalhadores e a oferecer remunerações inferiores a quem entra para as mesmas funções.

"Desde 2009 os aumentos salariais praticados não têm sido suficientes para compensar a inflação, mas este ano verificamos que o mercado está a diminuir. O efeito de substituição [de trabalhadores] é muito significativo", diz Tiago Borges, responsável em Portugal pelos estudos salariais da Mercer, especializada em recursos humanos. Com a taxa de desemprego colada nos 15%, aumenta a pressão para reduzir os ordenados médios. Há cada vez mais pessoas sem trabalho dispostas a ganhar menos. "Os colaboradores em novas funções estão a aceitar valores de remuneração mais baixos devido ao impacto que a alta oferta de profissionais (particularmente os menos qualificados) tem na formação dos novos salários", explica Tiago Borges.

Quem mais tem sofrido com os cortes de ordenado são, por isso, os administrativos e os operacionais da indústria, funções onde as descidas médias verificadas este ano são de 1,27% e 1,80%, respectivamente. Do lado oposto estão os directores-gerais e administradores que viram o seu salário reduzir-se apenas em 0,37%. De acordo com Tiago Borges, esta diferença deve-se não só ao número de executivos disponíveis no mercado de trabalho (mais reduzido em comparação com, por exemplo, os administrativos), mas também ao tipo de vínculo contratual que têm. "Os CEO têm mais antiguidade e estabilidade dentro da empresa, contratos de longa duração, o que não acontece noutras funções. Além disso, é mais difícil substituir estes quadros por alguém com um menor nível salarial", sublinha.

Pelo contrário, na base da pirâmide hierárquica a oferta é muita. Administrativos ou operários "têm vínculos contratuais mais precários e há mais pressão, mais oferta", acrescenta. Das sete funções analisadas, apenas os directores de primeira linha (gestores de topo) escapam à descida do nível salarial (ver tabela).

Os dados da Direcção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho relativos ao primeiro semestre dão já uma indicação da descida de remunerações, prática intensificada pela crise. Entre Janeiro e Junho, os salários negociados entre as empresas e os sindicatos no âmbito dos acordos colectivos de trabalho aumentaram 1,6%, quando no ano passado, no mesmo período, cresceram 2%.

Quem manteve o posto de trabalho em 2012 não viu, "à partida, diminuir o seu salário nominal". Contudo, o facto de haver mais substituição de trabalhadores influenciou o resultado final do estudo da Mercer e teve peso suficiente para que, pela primeira vez em 14 anos, os salários quebrassem em termos absolutos. Tiago Borges não tem dúvidas de que "enquanto existir a pressão de uma taxa de desemprego elevada, os custos salariais nunca vão aumentar". "Só haverá uma tendência de inflexão quando tivermos uma taxa de desemprego a descer", afirma.

No próximo ano, quase 60% das empresas inquiridas tencionam manter o número de trabalhadores, mas 18% admitem despedir. Quanto a 2012, 23% têm a intenção de reduzir o quadro de pessoal.