BCE força Espanha a pedir resgate rapidamente

DDepois de o Banco Central Europeu (BCE) ter ontem anunciado a compra ilimitada de dívida dos países atacados pelos especuladores, o Governo espanhol ficou sob uma pressão ainda maior do que nas últimas semanas para pedir rapidamente um resgate à zona euro. Sem este pedido, o anúncio ontem feito pelo presidente do BCE sobre o novo programa de compra de dívida pública (OMT) para baixar os juros fica sem efeito. Mario Draghi foi claro quando disse que o OMT só será desencadeado se os países beneficiários pedirem igualmente a ajuda dos fundos de socorro do euro.

Este pedido obrigará os requerentes a submeter-se a uma condicionalidade estrita, assumindo programas de ajustamento macroeconómico com objectivos precisos em termos de reformas económicas e de redução do défice orçamental, cujo cumprimento passará a ser vigiado de perto pela troika da Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional (FMI) e BCE.

A exigência de Draghi resulta da determinação do BCE de evitar que os países que beneficiarem de uma redução das taxas de juro em resultado do novo programa de compra de dívida relaxem os esforços de consolidação, como aconteceu com o ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi no Verão do ano passado.

O no de Rajoy

Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, continua, no entanto, a recusar avançar com o pedido, apoiando-se no facto de já ter um programa de ajuda aos bancos em dificuldades até 100 mil milhões de euros, o que está a irritar fortemente os parceiros europeus.

Acima de tudo, o Governo espanhol recusa submeter-se à condicionalidade associada aos resgates europeus, alegando que o país já está a fazer os esforços necessários para cumprir as metas orçamentais com que se comprometeu com os parceiros e não precisa, assim, de um novo programa de ajustamento.

A obstinação de Madrid é interpretada nas outras capitais como uma tentativa de evitar a humilhação de ver a economia espanhola passada regularmente a pente fino pelos "homens de preto" da troika, como acontece em Portugal, Grécia e Irlanda. O facto de Draghi ter insistido em que o FMI terá de participar na definição da condicionalidade imposta aos países ajudados e à respectiva vigilância não ajudará certamente a convencer os espanhóis.

Rajoy, que ontem enfrentou a imprensa no final de um encontro em Madrid com Angela Merkel, chanceler alemã, voltou a recusar invocar qualquer eventualidade de resgate. "Quando tiver novidades, logo vos direi", limitou-se a afirmar, garantindo que as condições de uma ajuda europeia não foram discutidas durante o encontro bilateral.

A pressão sobre Madrid tem-se intensificado nos últimos dias, nomeadamente pelo Presidente francês, François Hollande, que disse na semana passada esperar que uma ajuda à Espanha seja aprovada na cimeira de líderes da União Europeia (UE) de 18 e 19 de Outubro.

Sem o pedido de ajuda de Rajoy, o anúncio ontem feito por Draghi não poderá ser concretizado, o que poderá levar os investidores a voltar a atacar a dívida espanhola e, por ricochete, a italiana, voltando a mergulhar a zona euro na tormenta.

Segundo os analistas, no entanto, se Madrid não ceder à pressão política dos parceiros, acabará por vergar sob a pressão dos mercados, que se encarregarão de colocar os juros da dívida espanhola em níveis de tal forma elevados que acabarão por convencer até os mais reticentes.