A luxúria

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Os muito ricos vistos pelo fotógrafo Martin Parr: aqui, England. Ascot, 2008, da série Luxury, produzida entre 1995 e 2009

Num mundo onde milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, vale a pena desconstruir as políticas que permitem salários excessivos

Conhecemos a luxúria como um termo antigo associado à falta, ao pecado, ao excesso. Com a laicização da vida quotidiana, o termo foi inocentado. No entanto, ninguém necessita de ganhar um milhão de euros por ano, ninguém é merecedor de um salário tão elevado num mundo onde milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia.

A questão não é de natureza moral, é de natureza política. E o contrário de luxúria não é a advocacia de uma vida pobre, nem mesmo austera, mas de um comportamento justo; daí que valha a pena desconstruir as políticas que permitem salários tão excessivos.

O conceito parece arredado da semântica contemporânea, mas pode ser encontrado numa história da ética, desde Aristóteles ao filósofo americano Michael Sandel, passando necessariamente por Amartya Sen. Esta história é acompanhada por uma outra, a da luxúria e das suas modelações ao longo de 24 séculos, recentemente revisitada por dois autores: Christopher J. Berry, em The Idea of Luxury, a conceptual and historical investigation (1994), e Mike Featherstone, em diversas obras sobre consumo e luxo.

A luxúria tem particular notoriedade com o contributo histórico do medievalismo cristão, tanto mais que estava associada à gula e à soberba. Porém, na actualidade decorre uma desresponsabilização política e económica da luxúria já que esta, num regime ideológico de consumismo, contribuiria para o aumento exponencial do consumo e, portanto, da "boa" economia; por outro lado, descarnada da sua dimensão de pecado, seria, em última instância, um estádio de desejo de todo o consumidor. Neste contexto, a luxúria é uma acumulação injusta de capital que se traduz na aquisição e na exposição a objectos e práticas de luxo. Objectos e práticas que devem, por sua vez, ser pesados e avalizados num contexto, nomeadamente considerando os costumes, as forças e a distribuição das rendas, bem como a pobreza social.

Como diferenciar um objecto de luxo ou uma prática luxuosa? Um objecto de desejo e um objecto de luxo não são a mesma coisa: posso desejar um livro raro que não seja necessariamente - pelo custo, pelo conteúdo, pela edição - um objecto de luxo. O silêncio pode ser, em determinadas circunstâncias, um desejo absoluto, mas a sua posse raramente estará sujeita a mecanismos de total inacessibilidade para a maioria. No entanto, como defende Christopher Berry, a relação entre necessidades e desejos é determinante para classificar o luxo e a sua acumulação. "Necessidades são a satisfação de experiências universais e (...) comer, vestir, abrigar-se são necessidades básicas universais. Pode ainda acrescentar-se a estas necessidades espirituais como a autonomia", para a obtenção da qual ninguém precisa de um milhão de euros/ano. O autor conclui que as necessidades, ao contrário dos quereres, são universais e objectivas, atributos do homem comum.

Na história do luxo, um dos aspectos particularmente importantes é a evidência de que nenhuma actividade humana escapa à vontade de se apropriar de coisas luxuosas quando detém o capital para isso. No século XVIII, o luxo era um dos atributos que contribuíam para a qualificação da excelência de uma obra de arte e que a diferenciava de obras mais comuns ou mais medianas. Não foi necessário muito tempo para que esse atributo fosse subtraído às obras de arte e dele se apropriassem aqueles que se atribuem a si próprios vidas de acumulação de luxo, de luxúria.

A luxúria não é justa. Baseia-se numa distribuição desigual da riqueza, sendo que essa desigualdade é criada e mantida pelo grupo que acumula a riqueza. Ora, a justiça implica a possibilidade de equidade, ou seja, de todos os habitantes do planeta ganharem, por exemplo, um milhão de euros por ano. Este raciocínio, levado ao absurdo, ajuda a compreender o impacto do consumo e da depredação do planeta (que o poder de tais salários também implica). Assim, não há mérito nesses honorários milionários, pois eles nada têm a ver com produção, capacidade de gestão de informação ou outros requisitos considerados de valor competitivo; pelo contrário, são valores decididos no interior do grupo da acumulação da riqueza, segundo um modo operativo que faz com que quem recebe estes salários milionários retribua a quem lhos concedeu - accionistas, governos, associações empresariais, industriais do espectáculo e do desporto - salários ou benefícios de valor semelhante, dentro de uma lógica de grupo que preservando assim o seu carácter discriminatório face à maioria da população.

Não sabemos afirmar qual seria o valor justo para os salários, excluindo desse cálculo ditames das revoluções comunistas ou de normativos de práticas missionárias, e considerando a responsabilidade, o grau de especialização, a formação, a experiência de vida, etc. Mas há, com toda a certeza, um limite a partir do qual tudo não é mais do que obsessiva acumulação de capital, desperdício e estímulo à insustentabilidade ecológica e, principalmente, uma fronteira a partir da qual se passa a pertencer a uma casta financeira que vive na luxúria mais ou menos visível aos olhos do homem comum.

Não é necessário recorrer aos exemplos da luxúria dos ditadores - que os faz possuir, por exemplo, uma pistola de 9mm em ouro no valor de quatro mil euros, como a que foi encontrada na posse de Kadhafi, ou os cem palácios de Saddam Hussein no Iraque, fantasticamente sobredimensionados: "[Os ditadores] gostam do estilo antigo para parecer uma arquitectura séria, mas não apreciam as verdadeiras antiguidades porque não faz um género muito moderno", diz Peter York em Dictators" Homes. Comportamentos de luxúria como estes encontram-se nas democracias ocidentais e até mesmo por cá. O filme Os Donos de Portugal, de Jorge Costa, apresenta bons exemplos da maneira como estas castas se formam e se mantêm e dos requisitos e mecanismos que fabricam para se auto-preservarem. Se a acessibilidade a esta casta não decorre da escolha interna dos seus membros e é feita em função do valor do trabalhador e da sua competência, então porque não se publicitam em concurso universal os cargos de executivos, presidentes, CEO, etc. para que sejam escolhidos em função de programas, propostas e currículos, como se se tratasse de uma missão humanitária ou mesmo de um cargo político?

Ninguém necessita de um milhão de euros por ano para viver. A partir de uma determinado conjunto de bens de conforto e de qualidade de vida, o que resta do capital só tem como função ser traduzido em valor de poder e de manutenção no seio da casta e como forma de manter uma fronteira intransponível entre os que dominam e os dominados.

Mas estes valores, para terem uma espécie de tradução espiritual, precisam de recorrer a instrumentos materiais e imateriais de exaltação da espiritualidade. Há, desde há muito, uma relação muito forte entre arte e capital. Quando o artista britânico Damien Hirst vende, como aconteceu num leilão na Sotheby"s em 2008, um conjunto de obras por 70 milhões de euros, está a fazer várias coisas: a entrar para a casta; a dotar a casta de uma arte a que só muito poucos podem ter acesso enquanto proprietários (claro que ser artista da Gagosian e expor na Tate Modern é, por sua vez, modo de se valorizar como artista caro).

A formação da casta precisa, no entanto, de luxos quotidianos para viver em permanente luxúria, e para isso nada melhor do que, novamente, recorrer ao luxo espiritual. É essa necessidade de valor espiritual que leva os muito ricos a adquirir obras antigas com brilho de facto ou simbólico (uma pintura impressionista, por exemplo). E existem ainda os estrategas da luxúria, pagos para isso mesmo, que se encarregam de criar produtos de acessibilidade muito reduzida graças ao elevadíssimo preço a que os colocam no mercado - e que em nada têm a ver com os reais custos de produção. Um bom exemplo é a recente gama de perfumes Baudelaire, que custam 160 euros por 100ml: "Baudelaire, à parte ser um poeta importante do século XIX, escreveu muito sobre sexo e morte, e este perfume é muito "acerca disso"", diz Ben Gorham, o criador da marca. Portrait of a Lady, título do famoso livro do grande escritor Henry James, é hoje outro exemplo de perfume de luxo, mas só para alguns, conforme se anuncia. São "peças de colecção", segundo os criadores destas marcas, que usam ícones culturais como os referidos para tornarem os seus produtos mais apelativos, tão diferentes dos produtos das pseudo-celebridades, como refere Anna Morley (advogada de uma grande firma da City) ao Financial Times (11/08/2012). E depois há os lugares de acessibilidade seleccionada para esta casta, como por exemplo o shopping Villa Daslu, em São Paulo, a catedral sul-americana do luxo.

O consumo de bens luxuosos está em ascensão em todo o mundo, como demonstra Gilles Lipovetsly em O Luxo Eterno, e há milhões de pessoas que querem fazer parte desta casta, confirmando a globalização de uma ideologia do consumo que auto-promove a própria casta através dos seus, chamemos-lhes assim, "ideólogos financeiros". Não se trata apenas de olhar o brilho do bling-bling dos novos ricos; mais do que isso, trata-se de poder, económico e político, à escala global.

Há, ainda, uma tentativa de inocentar estes desejos de luxo e de os despojar de qualquer relação política. Para tal contribuíram muitos programas televisivos, disfarçando esses desejos com uma suposta democratização do luxo. Não é a isso que nos referimos aqui, mas sim ao que certos grupos da acumulação privada de capital fazem para se transformarem numa casta, criando mecanismos de aceitação e de rejeição independentemente das formas de aquisição desse mesmo capital. Nesses grupos reside a tomada de decisão sobre quem deve governar as nações.