O que dizer quando dizem que disse o que não disse

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Em nenhum momento, falei ou falo em soluções alternativas para a crise portuguesa

1.Hoje, à semelhança de tantos políticos, vou queixar-me da comunicação social e vou escrever sobre as consequências nefastas da arte, hábil e subtil, de dar títulos e construir manchetes. Faço-o sem querer aliviar culpas ou alijar responsabilidades e sem qualquer veleidade ou esperança de mudar seja o que for na esfera mediática e comunicacional. Faço-o apenas porque acho que o devo fazer, mesmo sabendo que nada mudará e estando bem consciente de que a liberdade de imprensa também tem o seu preço. Tão consciente, que acho e continuo a achar que vale a pena pagar esse preço, mesmo quando somos nós ou sou eu, justa ou injustamente, a pagá-lo. E faço-o, de resto, a propósito de um incidente menor, quase insignificante, sem consequência nem repercussão, para que esta prosa possa aparecer tão desinteressada e tão desapaixonada quanto possível.

2. Vem o presente a propósito de uma manchete e de um título do Diário de Notícias do domingo passado, em que me eram atribuídas afirmações que, pasme-se, fiz e não fiz. Afirmações que, num certo contexto e tal como me foram perguntadas, fiz. Afirmações que, com o sentido da manchete da primeira página e do título das páginas interiores, não fiz. Entre o "fiz" e o "não fiz" vai toda uma distância de que o meio em causa tinha absoluta consciência, pois, no corpo da notícia, faz citações correctas e precisas. E, de resto, disso não tinha nem tenho qualquer dúvida, pois estou absolutamente seguro de que o meu pensamento ficou claro - claríssimo - nas respostas que dei quando contactado pelo jornal em causa. Contacto que, feito a pretexto da recolha de vários depoimentos sobre os desafios do ano de 2013, foi cirúrgico e isolado. Digo, por isso, sem acrimónia nem recriminação, que houve um aproveitamento e até uma instrumentalização abusiva das minhas palavras, pondo na minha boca, julgo que conscientemente, o que eu não disse e o que nunca quis dizer. E isso é mau. É mau para o jornalismo, é mau para os cidadãos, é mau para a democracia. No caso em apreço, nada de sério, relevante ou grave, mas, seja como seja, algo de sintomático e revelador.

3. Deixando de lado o epíteto de senador, a manchete centra-se na ideia de que as minhas afirmações "pressionariam" o primeiro-Ministro a rever as metas do défice. Ora, nunca disse, na resposta ao dito contacto circunstancial ou em qualquer outra ocasião, nada que pudesse legitimar tal asserção. Trata-se, aliás, de um equívoco que facilmente se desfaz lendo o desenvolvimento no interior do jornal, onde me limito a admitir que a credibilidade adquirida pelo Governo português - exactamente em razão da sua tão criticada determinação - pode facilitar, agora ou no futuro, numa ou noutra rubrica, um ajustamento do programa de assistência. Algo que, aliás, nestas páginas e noutros espaços de intervenção pública de há muito tenho vindo a dizer...

Ainda no destaque da manchete, diz o jornal que peço planos alternativos para enfrentar a crise, soluções alternativas para atacar os efeitos de uma crise que podem ser catastróficos. Ideia, aliás, retomada no título da página que desenvolve a matéria. E aqui, as coisas vão mais longe e mais alto. Com efeito, decorre da simples leitura do texto principal que a necessidade de desenhar planos alternativos se refere tão-só e unicamente à dimensão europeia. Mais uma vez, uma ideia que aqui abordo a cada passo e em que tenho insistido repetidamente. Em nenhum momento, falei ou falo em soluções alternativas para a crise portuguesa e, muito menos, de eventuais efeitos catastróficos. O que disse e acaba por ser citado, embora discretamente e já sob o efeito distorcido do sentido dado a títulos e manchetes, é que o risco de um agravamento da crise política na Europa (por exemplo, uma saída da Grécia da zona euro) implica que o país comece a considerar novos cenários. Falo mesmo numa mudança do mapa geopolítico e na necessidade de termos roteiros para as várias eventualidades. Aí sim, em caso de deterioração grave da situação europeia, pode haver consequências catastróficas.

Em resumo, num passe de mágica, o jornal transportou, devidamente amputadas, as minhas declarações sobre os riscos e incertezas da situação política europeia para o domínio das apreciações sobre a evolução financeira e económica da situação portuguesa. E com isso, em tempo de férias e de estação morna ou seca, a manchete ganhou vigor, os títulos adquiriram vida e a matéria tomou cor.

4. A matéria apimentou-se e tornou-se um tudo nada mais apetitosa, preenchendo uns minutos parcos e precários de um domingo insosso. Mas a actividade jornalística perdeu em rigor, em credibilidade e em respeito pelos leitores e pelos actores políticos envolvidos. E com isso perde a cidadania, perde a democracia, perde a própria comunicação social.

Não alinho no discurso que, de modo alienante e populista, transfere sistematicamente a responsabilidade dos políticos para a esfera dos órgãos de comunicação. Aceito até, enquanto actor político já com razoável experiência, alguma responsabilidade, pois o risco de "distorção", de "apropriação" e de "descontextualização" de declarações políticas por jornalistas é francamente elevado. E, por isso, um político experiente tem de rodear-se de cautelas e munir-se de garantias, sob pena de poder ver significativamente alterado o sentido das mensagens que passa. Desta vez, talvez por simples descontracção, não me muni dessas defesas e acabei por ser confrontado com este "desvio de sentido". Sem moralismos e sem estados de alma, porque o caso os não justifica, preferia um mundo com um jornalismo menos apaixonado.