Ensino superior privado perdeu 26 mil alunos desde 2000/01

Algumas universidades privadas apostam em publicidade e descontos. Outras reforçam presença nas redes sociais. O contacto com as escolas secundárias aumenta. São as estratégias em tempos de crise

A Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) anda pelos céus das praias portuguesas. Por estes dias, uma avioneta puxa uma tarja onde se anuncia uma "campanha de Verão": "Oferta de Matrícula Licenciaturas - 2012/2013". Num site onde se vendem "momentos de sonho" e "experiências extraordinárias", não há só massagens e viagens inesquecíveis em promoção. Até ontem, pelo menos, era possível adquirir uma pós-graduação com 41% de desconto na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em Lisboa, em áreas como Avaliação Imobiliária ou Escrita Criativa.

São dois exemplos. A aposta na comunicação e na publicidade é uma das armas de algumas instituições de ensino superior privadas, num cenário que as estatísticas ilustram bem: o sector perdeu 25.883 alunos desde 2000/2001.

Segundo os dados do Ministério da Educação, universidades e politécnicos privados tinham, nesse ano, 114.173 estudantes matriculados; em 2010/11, último para o qual há números, estavam reduzidos a 88.290, contando com licenciaturas, mestrados e doutoramentos. Já no ensino público, a evolução revela oscilações, mas no fim o resultado é este: quase 308 mil inscritos, contra 273.530 em 2000/01 - mais 34.448.

Os rácios calculados na Base de Dados Portugal Contemporâneo, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, também são ilustrativos: em 1980, por cada cem estudantes inscritos no ensino superior público, havia 9,5 alunos no privado. Nos anos que se seguiram, nasceram novos projectos, num contexto de explosão da procura (basta dizer que o número de matriculados no superior praticamente duplicaria na década seguinte). Em 1991, o rácio era já de 38 alunos no privado por cada cem no público; em 2001, atingia os 41,7. Em 2011, baixava para 28,7.

O sector está a perder peso (ainda que no ano passado tenha registado um ligeiro aumento no número de inscritos pela 1.ª vez), e o país está em crise. Numa altura em que muitos alunos estão a preparar as candidaturas à 2.ª fase do concurso nacional ao ensino público, e em que decorrem as candidaturas nas privadas, o que estas para atrair estudantes?

Reginaldo de Almeida, director da administração escolar da UAL, lembra que até já as universidades públicas fazem marketing, com iniciativas como os open days, ou "cientistas por um dia", dirigidas aos estudantes do secundário. A UAL também faz.

A campanha "Oferta de Matrícula Licenciaturas" é apenas um dos elementos de uma estratégia de comunicação dirigida a quem acabou o 12.º ano e está "a pensar no futuro": os alunos que quiserem inscrever-se pela primeira vez ficam isentos dos 180 euros da matrícula.

Patrocinar atletas de alta competição, como Marco Fortes, é outra forma de ganhar visibilidade. Tal como ter uma política de descontos: "Temos assinado protocolos com instituições públicas e privadas, como sindicatos, que permitem que os associados tenham descontos na inscrição e nas propinas" - de 10% a 15%, na generalidade dos casos, diz Reginaldo de Almeida. Para além disso, alunos que tenham tido mais de 16 de média no secundário, podem ter redução de propinas em alguns cursos.

Patrocinar atletas

Mas as campanhas especiais não são vistas com bons olhos por toda a gente. "Não cremos que o ensino superior seja uma área adequada para "promoções"", diz o reitor da Universidade Fernando Pessoa (UFP).

Em resposta por email, Salvato Trigo explica: "Em tempos de crise ou fora dela, a estratégia de divulgação da UFP quanto aos seus cursos tem sido sempre a mesma: apostar na informação via Internet e redes sociais e na "publicidade boca a boca", designadamente em contacto directo com a rede de escolas do ensino secundário e com públicos-alvo específicos, representados em protocolos que subscrevemos com organizações sócio-profissionais de diversas áreas." A publicidade "não é, de todo, aposta forte da UFP, tendo-o sido ainda menos este ano".

Para já, diz, não há sinais de que no próximo ano lectivo haja grande quebra de candidatos. Seja como for, a preocupação da instituição continuará a ser "a estabilidade do seu corpo docente próprio, com um rácio de doutores por aluno (>80%) muito superior ao exigido por lei, na inovação e na excelência".

Também a Lusíada faz saber que reduziu em 50% o investimento na publicidade. Ricardo Leite Pinto, vice-presidente do conselho de administração da Fundação Minerva, detentora da universidade, diz que o investimento primordial é "na formação e investigação científica de qualidade". "Temos feito inquéritos e não mais de 5% dos alunos vêm parar à Lusíada por terem visto publicidade nos jornais, ou nas televisões. O mais importante é o "boca-a-ouvido", os amigos, os pais" e uma imagem de "prestígio que, no ensino, leva tempo a produzir efeitos".

Como não existe, em Portugal, um ranking de universidades, que compare as instituições, a Lusíada considera ainda que ser avaliada é o melhor que lhe pode acontecer - "Tentamos que todas as instituições nacionais e internacionais passem pela nossa casa e nos avaliem."

Não há mercado para todos

O percurso do privado não tem sido isento de dificuldades. Pelo caminho têm ficado instituições, como a Independente (encerrada compulsivamente em 2007 por "manifesta degradação pedagógica"). É certo que tem havido um aumento de outros públicos, que não os alunos que saem do secundário - o número de pessoas inscritas em mestrados e doutoramentos aumentou seis vezes numa década, o que é um mercado, e há universidades a criar programas para quem ainda não acabou o 12.º poder acumular créditos em algumas cadeiras, o que é outro nicho distinto. Mas também há novas dificuldades, como o aumento das propinas que ficam por cobrar.

Na UAL, houve, nos últimos anos, despedimentos e reorganização da oferta. Na Lusófona (que não deu informações porque os responsáveis se encontram de férias), os professores sofreram este ano cortes salariais de 10%. Algo semelhante aconteceu na Lusíada. Mas mesmo com estas medidas, haverá mercado para todas as instituições? "Mercado interno certamente que não", responde Salvato Trigo. "Nos termos actuais, não", diz Reginaldo de Almeida.

"É urgente a reorganização e redimensionamento da rede de ensino superior público e, certamente, o ajustamento das instituições privadas a essa realidade. Na UFP, a estratégia de internacionalização em busca de mercados externos iniciou-se em 2002", diz Trigo. Já Reginaldo de Almeida fala da necessidade das instituições desenvolverem projectos em comum. "Instituições viradas para o seu umbigo acabam na falência."