O livro: contra a corrente?

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Vitorino Magalhães Godinho escreveu artigos de grande rasgo, mas o seu nome ficará, para sempre, associado à grande obra que é Os Descobrimentos e a Economia Mundial PEDRO CUNHA

Como explicar a generalização de uma moda em que só os artigos - escritos ainda por cima numa língua como o inglês, que se internacionalizou à custa da sua própria simplificação - parecem contar na aferição das carreiras académicas?

As universidades, por pressão das instâncias que controlam fundos para a investigação e numa busca de internacionalização, estão a fixar novos critérios de avaliação. Trata-se de uma operação legítima e mais do que justificada. Porém, nas Humanidades e nas Ciências Sociais, já se confundiram alhos com bugalhos. Ou seja, importaram-se das ciências ditas exactas os critérios quantitativos de aferição das carreiras e já há quem diga, como se se tratasse de um dogma, que a publicação de artigos em revistas internacionais - de classe A, escritos em inglês, com referee e disponibilizados em qualquer "plataforma" on-line - constitui o grande objectivo da vida de investigadores, novos ou velhos. Porquê? Por ser essa a única forma de alcançar a referida internacionalização. E, também, por ser a via em exclusivo para chegar à excelência de que todos falam, mas que poucos sabem dizer o que é - sendo ainda mais raros os que se mostram capazes de denunciá-la (como fez, e bem, António Guerreiro em artigo publicado no Expresso a 3 de Março deste ano). Mais. Ao que tudo indica, tratar-se-á de um processo imparável, ou seja, sem alternativa.

Que se desenganem os convertidos a esta moda. Apesar de ela se impor a bem da informação difundida pelos instrumentos tecnológicos mais avançados, da internacionalização e da dita excelência, não é assim que se procede "lá fora". Posso testemunhar, pelo menos nas áreas que conheço, ligadas ao ensino e à investigação da História e das Ciências Sociais, que a publicação de livros continua a preponderar na avaliação individual dos professores e na formação dos estudantes, da licenciatura ao doutoramento. E, quando assim não é, chovem as críticas.

Tal como muitos outros, fui marcado pela leitura de grandes livros de História e de Ciências Sociais. Marc Bloch escreveu, sem dúvida, centenas de artigos e de recensões, mas foi na arquitectura complexa de Os Reis Taumaturgos ou nessa obra-prima que é a A Sociedade Feudal que alcançou o seu melhor. O mesmo se diga de Barrington Moore Jr. e do seu grande clássico As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia. Magalhães Godinho escreveu artigos de grande rasgo, mas o seu nome ficará, para sempre, associado a Os Descobrimentos e a Economia Mundial. Se é através dos grandes livros que nos podemos formar, se são eles que devem estar na base de um ensino crítico e vigilante, como explicar a generalização de uma moda em que só os artigos - escritos ainda por cima numa língua como o inglês, que se internacionalizou à custa da sua própria simplificação - parecem contar?

São três as explicações referidas até aqui: tendência para uma hegemonia dos modelos de comunicação baseados em artigos e em investigações colectivas, impostos pelas ciências ditas exactas ou de laboratório; uma falsa ideia do que acontece "lá fora", num mundo globalizado de matriz anglo-americana; e um fascínio pelos meios de comunicação e de circulação da informação que potenciam leituras fragmentadas e descontínuas, em detrimento da consulta aprofundada da obra de fôlego, do livro, no seu formato mais clássico e em suporte de papel.

Nas Humanidades e nas Ciências Sociais, a sobrevalorização dos artigos decorre, também, de outros factores, com consequências bem gravosas. Por um lado, tal exagero encontra-se directamente associado a uma ideia bem provinciana de que será possível reduzir o conhecimento a uma espécie de grande base de dados de consulta electrónica, incluindo nela as próprias revistas. Trata-se, no fundo, da tradução da ideia pacóvia de que "está tudo na Internet", logo, a nossa presença ou se faz através desse meio ou não se faz. Ora, não haverá aqui, mais um vez, uma enorme confusão? É que disponibilizar livros ou artigos em formato digital não implicará nunca colocá-los no mesmo plano. Por outro lado, importa desfazer uma espécie de fascínio pelo quantitativo: mais concretamente, o número de ocorrências, enquanto autor ou objecto de uma citação, dificilmente pode ser tomado como indicador de um contributo para a inovação. De tudo isto, fica arredado o pensamento individual, de autor, desenvolvido, durante anos a fio, num livro, bem como a responsabilidade de julgar pela qualidade e não pela quantidade.

A todo este elenco de razões acrescenta-se ainda o facto da inexistência de bibliotecas de trabalho, devidamente equipadas, em Portugal. Uma simples visita às que se encontram disponíveis para as áreas de História e Ciências Sociais é mais do que esclarecedora do atraso em que nos encontramos. Ora, estas são de construção morosa e financeiramente muito exigentes. Em Lisboa, por exemplo, valeria a pena deixar de continuar a brincar às pequenas bibliotecas e desenvolver uma política científica de concentração de recursos. Num panorama de grande atraso, compreende-se o fascínio pelas bases de dados, logo, pelas revistas; consideradas uma espécie de compensação frente à falta de livros e de bibliotecas minimamente apetrechadas. Mas mais uma vez se confundem alhos com bugalhos. Ainda por cima, note-se de passagem, o próprio ensino universitário raras vezes se organiza em função da leitura de livros. O que sucede é que estes são substituídos - com enormes implicações numa pobre formação dos alunos - pelas fotocópias de partes de livros, pelos artigos, por apontamentos ou pelo livro único. Tudo isto num enorme desrespeito pelos direitos de autor, pelo trabalho de editores e livreiros, mas também como única forma de resolver o preço elevado dos mesmos livros.

Neste panorama, e por todas as razões apontadas, será possível pensar na existência de uma cultura dominante, monopolizada pela prática das universidades e dos centros de investigação, que destruiu a centralidade do livro. Ora, é contra toda esta cultura dominante que me insurjo. Claro que defendo que a escrita de livros, individuais, escritos em português ou noutras línguas, deverá ser disponibilizada numa variedade de suportes e completada por outros "géneros": artigos, recensões, capítulos, organização de obras colectivas, traduções, cuja valorização é urgente reconhecer como peça essencial da famigerada internacionalização, etc. Mas não estou disposto a aceitar que os critérios de avaliação de professores e investigadores possam prescindir da elaboração e da leitura dos livros de autor, bem como da sua centralidade. Fui neles formado, é a partir deles que ensino e continuarei a ensinar.

*Historiador