Partido Revolucionário Institucional recupera poder no México

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Banho de multidão ao fotogénico Peña Nieto na principal praça de Toluca MARIO VAZQUEZ DE LA TORRE/AFP

Os mexicanos retêm memórias de corrupção, nepotismo e autoritarismo do PRI. Não procuram um "regresso ao passado", mas estão descontentes com o fracasso dos últimos 12 anos

Todas as sondagens apontam Enrique Peña Nieto, o candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), como o vencedor das presidenciais de hoje no México.

A vantagem para os seus adversários, que dependendo dos inquéritos varia entre os 10% e 15%, é suficiente para retirar ao acto eleitoral qualquer aura de imprevisibilidade, mas nem por isso a jornada eleitoral deixará de ser emocionante: em jogo está o futuro de um país de mais de 112 milhões de habitantes, que vive numa encruzilhada histórica.

O México, outrora líder e exemplo do desenvolvimento do bloco latino-americano, corre agora o risco de perder o "balanço" que catapultou os seus vizinhos a sul para o topo da lista das economias emergentes, garantindo-lhes um novo papel na diplomacia mundial. A expansão, enquistamento e impunidade dos cartéis do narcotráfico, na última década, deixaram o Governo refém de uma estratégia que não produziu resultados. É uma solução para este impasse nacional que os mexicanos buscam nas urnas.

O fotogénico Peña Nieto, ex-governador do estado do México (onde se situa a capital) e grande favorito, é o protagonista da renovação da imagem do PRI, o partido que dominou a política mexicana por mais de 70 anos, desde o fim da revolução em 1929 até 2000, quando o cowboy Vicente Fox e o Partido da Acção Nacional (PAN) conseguiram afastar os chamados "dinossauros" do palácio de Los Pinos. Ideologicamente ambíguo, o PRI é na sua essência um partido pragmático, uma plataforma corporativa para onde confluem blocos cujos interesses são às vezes opostos, como, por exemplo, associações patronais e sindicatos.

O desejo de regresso aos "bons velhos tempos" só em parte explica o ressurgimento do PRI como principal força política. Das sete décadas de poder do PRI, os mexicanos retêm memórias de corrupção, nepotismo, prepotência e autoritarismo. Por isso, não é necessariamente um "regresso ao passado" que os mexicanos procuram. É antes uma garantia de segurança, estabilidade e desenvolvimento, que existiu enquanto o PRI consolidava o seu poder e os últimos governos desbarataram.

Nos doze anos de governo, o PAN falhou na concretização de importantes reformas politicas e económicas. Na última década, mais de 12 milhões caíram na pobreza, num movimento contraditório com a ascensão à classe média de enormes parcelas da população de outros países da América Latina (nomeadamente o Brasil, que frequentemente serviu de termo de comparação na campanha). Nos últimos seis anos, a guerra sem quartel ao narcotráfico fez mais de 60 mil mortos.

Segurança e pobreza

Contactado pelo PÚBLICO, o director do jornal online Animal Politico, Daniel Moreno, diz que "o Governo fracassou em dois temas-chave: segurança e combate à pobreza". E nota que, à excepção do PRI - "que construiu a imagem de Peña Nieto durante anos com o apoio das televisões privadas e o financiamento dos recursos públicos" -, nenhum partido "logrou governar com eficácia ou apresentar candidatos atractivos".

"O PAN, tanto com Fox como Calderón, não cumpriu as reformas prometidas, e não negociou com o PRI, que nunca foi um partido politico no sentido de uma clara distinção ideológica, mas antes uma máquina eleitoral de um Estado que se perpetuava a si mesmo e legitimava o estabelecimento de um grupo no poder", explica ao PÚBLICO Manuel Suarez-Mier, antigo conselheiro do Banco Central do México e negociador do acordo de livre comércio NAFTA e da Iniciativa Mérida que actualmente lecciona na American University de Washington.

Para este especialista, a actual rejeição do partido do governo deve-se ao "cansaço de mais de uma década de poder e perda de confiança do eleitorado ao fim de doze anos de governos medíocres do PAN". E mais: a uma "campanha muito boa, sistemática e sem erros" de Peña Nieto e do PRI, versus uma "campanha errática" da herdeira política de Calderón, Josefina Vásquez Mota.

Para evitar críticas ao legado do partido, e desviar atenções, Vásquez Mota renegou algumas políticas do passado no seu programa, e sustentou a sua candidatura no facto de ser a primeira mulher a concorrer ao mais alto cargo da nação. No entanto, nota ao PÚBLICO a blogger e colunista política América Pacheco, "faltaram-lhe propostas, ideias, deslinde presidencial, empatia com a desesperação do povo". Numa entrevista por email, assinalava que "Josefina apostou numa despudorada campanha sexista para captar simpatias, mas só conseguiu um tíbio terceiro lugar nas preferências. Este país - de um poderoso matriarcado social - não se surpreende nem compra a estratégia de que para uma democracia tão incipiente como a nossa seja necessária a imagem de uma mulher, não por si só".

Pela segunda vez, as esperanças da esquerda repousam em Andrés Manuel López Obrador (AMLO, na designação da imprensa mexicana), que em 2006 saiu derrotado por menos de 1% dos votos. Alegações de fraude e semanas de paralisação política seguiram-se ao anúncio dos resultados, com o candidato a proclamar-se legítimo vencedor.

Lula e não Chávez

Desta vez, AMLO posicionou-se como um moderado, progressista e liberal, pró-economia de mercado - um Lula da Silva, não um Hugo Chávez. Também mudou a inflexão do seu discurso: agora a retórica é positiva, da construção de uma "república de amor" e de "abrazos y no ballazos", o que valeu a alcunha AMLOve à sua campanha. Significativamente, comprometeu-se a aceitar e respeitar os resultados (na quinta-feira, todos os candidatos subscreveram um "pacto de civilidade").

"AMLO é mais um estandarte do cansaço nacional, um barómetro da rebeldia, do que uma mudança radical. [A sua candidatura] é quiçá a oportunidade política mais importante da esquerda. Muitas vezes fustigado como um caudilho, perigoso, messiânico e intolerante, foi, apesar dos seus excessos, um bom governante da Cidade do México, a espinal medula política e económica do país", aponta América Pacheco.

Apesar de ter atraído mais de cem mil pessoas para o último evento na capital - uma passeata pela gigantesca Avenida Reforma e um comício que encheu o monumental Zócalo -, López Obrador permanece dez pontos atrás do homem do PRI nas sondagens. "Ainda existe uma grande desconfiança de AMLO pelo que aconteceu há seis anos, e ele não conseguiu convencer que mudou de personalidade", considera Manuel Suarez-Mier. "Além disso, algumas das suas propostas não parecem fazer muito sentido."