O nosso Apocalypse Now

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DANIEL ROCHA

Primeiro esquecidas pelo mundo e depois registadas em meia-dúzia de documentários estrangeiros, as guerras de libertação das ex-colónias portuguesas sobrevivem até hoje nos arquivos. Filmes que completam a visão parcial que tínhamos da guerra colonial imposta pela propaganda do regime, são como uma visita descida guiada aos infernos de um império terminal. Não são propriedade nossa. Mas são parte do nosso património.

São filmes pouco conhecidos dos portugueses. Proibidos até ao 25 de Abril de 1974, fizeram o seu caminho apesar da censura, e também por causa dela. Com eles se desafiaram Salazar e Marcello Caetano. Com eles se mostrou o lado da guerra colonial que o regime queria ocultar: o sofrimento, as atrocidades, o absurdo do conflito e as razões da luta. São documentários ou longas reportagens, filmados por televisões dos EUA, Reino Unido, França ou Suécia entre 1961 e 1971. Impuseram-se e talvez tenham ajudado a despertar consciências nos bastidores da ONU.

Raramente estes filmes foram exibidos em Portugal, e nunca pela televisão pública, mas são parte do nosso património de imagens. Hoje estão guardados em armários ou em cofres nos arquivos da Cinemateca Portuguesa, do Centro de Audiovisuais do Exército e da RTP. Completam a visão parcial gravada na memória daqueles que apenas viram os filmes do Exército, obedientes à censura do olhar imposta pela propaganda do regime. Contam uma parte da nossa História e por isso são importantes. Mas de que forma entraram no nosso imaginário?

Angola, ano zero

Angola - A Journey to War (Angola - Jornada para a Guerra), produzido e exibido pela televisão norte-americana NBC, foi o primeiro. Filmado na aurora da luta de libertação em Angola, em 1961, ano zero da guerra portuguesa no Ultramar.

O país está em guerra e fechado a jornalistas estrangeiros. Robert Young e Charles Dorkins entram pelo Congo com a União das Populações de Angola (UPA), ex-Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) de Holden Roberto. Percorrem centenas de quilómetros de mato. Filmam "uma longa e única caminhada" às profundezas de "um dos lugares mais dramáticos e ignorados do mundo".

Mostram em silêncio os corpos deixados pelos massacres da UPA, no Norte de Angola, de populações brancas e dos seus trabalhadores negros. (São imagens de indizível violência - entre as vítimas estão crianças). Exibem também o rasto de destruição deixado por bombas napalm lançadas por aviões da Força Aérea portuguesa. Penetram no "reino do silêncio" dos revoltosos. "Para um repórter, a grande emoção é ver o que mais ninguém viu", dirá o apresentador do programa.

Este, como os outros documentários estrangeiros sobre o papel de Portugal na guerra, mostra o que ninguém tinha visto. Desconstrói o discurso oficial do regime de Salazar de que as colónias eram Portugal e de que todos os habitantes queriam permanecer portugueses.

A imagem de uma livre convivência entre brancos e negros, diz o narrador de Angola - A Journey to War, oculta uma realidade desconhecida: menos de um por cento dos nativos conseguiu a cidadania e o analfabetismo é muito elevado. Por trás disto, continua, "existe um sistema que só pode ser descrito por estas palavras: trabalho forçado".

Pelos trilhos da caminhada que os repórteres iniciam ao lado dos rebeldes, há marcas de uma revolta de trabalhadores contratados, numa plantação de café com três portugueses mortos. É como a visita guiada de uma descida aos infernos.

Na escola da aldeia de Buela, na sala de aula, escrito a giz no quadro: "15 de Março de 1961: Independência de Angola". Data dos massacres da UPA. Nessa aldeia, agora vazia e em ruínas, o administrador do posto e a mulher, portugueses, foram assassinados; a população fugiu; quando as tropas coloniais entraram, foi para se vingarem.

Quando por ali passa a câmara de Robert Young e Charles Dorkins, das 150 casas apenas restam ruínas. A haver uma frase capaz de derrubar a imagem composta pelo regime de uma convivência sã entre colonos e colonizados, seria esta, em voz-off: "Parecia que os portugueses tinham reagido como se todos os africanos fossem contra eles".

Mais à frente, mais vestígios de bombas incendiárias lançadas por aviões militares portugueses. O napalm vem da NATO, de que Portugal é membro; as munições espalhadas no rasto dos revoltosos trazem a marca da Checoslováquia ou da Alemanha de Leste, de Cuba, da Coreia do Norte, da China comunista.

Pelo caminho, outra aldeia. Todas as casas destruídas. Mais mortos. E caveiras. Em Cokilenga, 17 homens foram levados para o mato e executados. Um rapaz não chegou a ser abatido. Caiu como se estivesse morto. Mas apenas desmaiou. Sobreviveu para contar a história: "Este rapaz perdeu o pai, este homem um irmão, esta criança o pai."

Um país em negação

Esta mãe perdeu um filho. Este homem está de luto pelo irmão. Sentada, está uma senhora que agora ficou viúva. Não há voz-off mas adivinha-se por que estão estas pessoas nas celebrações do 10 de Junho de 1963, filmadas pelo Ministério do Exército.

"Os heróis não morrem efectivamente, elevam-se acima dos outros homens", diz o narrador do filme Aqueles que por obras valerosas, numa evocação de Camões.

Imaginam-se os soldados que tombaram aqui - encarnados pelos familiares, vestidos de preto, recebendo humildemente condecorações póstumas. Como tristes espectros no meio de um imponente desfile militar no Terreiro do Paço, em Lisboa, em que tudo converge para enaltecer o sentido patriótico de um país em negação. Uma parte importante destes filmes, como de outros registos da propaganda do regime na guerra, foi realizada por equipas de audiovisuais do Exército em trabalho nas províncias ultramarinas.

Em 1967, "Por quem combatemos", também realizado pelo Exército, mostra a pompa das paradas e das festividades frente ao palácio do governador em Bissau, num ritual repetido todos os domingos, "como símbolo para as gerações futuras de coragem, fé e certeza no dia de amanhã". Homenageia os soldados brancos e negros, "chamados a defender um património sagrado" num combate "pela grandeza da nação". E faz um louvor ao general Schultz, governador da Guiné entre 1964 e 1968, "o homem, o governante, o amigo, a certeza de que Portugal está e continuará a estar na Guiné", a prova da convicção de que "a luta só terminará pela derrota do invasor".

Filmes estrangeiros como A group of terrorists attacked... (1968), do britânico John Sheppard, para o programa World in Action, e Nô Pintcha (Em Frente, 1970), do trio francês Tobias Engel, René Lefort e Gilbert Igel, desconstroem esses mitos. Abrem portas para uma sombria realidade: as muitas mortes entre soldados portugueses e a dificuldade do regime em sustentar a guerra e em ganhá-la, apesar de quase metade do orçamento do Estado ser destinada a despesas militares.

Enquanto nos filmes da propaganda, as cenas de guerra são encenadas, os documentários estrangeiros captam o conflito em tempo real, propõem "a verdade mais pura", como A Group of Terrorists Attacked... quando mostra o ataque do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) ao quartel de Buba: 12 minutos de película, 12 minutos de trincheiras.

O ataque podia ter corrido mal para os guerrilheiros do PAIGC, mas o movimento entrara numa fase da luta em que não duvidava da vitória. E em que se concentrara no desenvolvimento de escolas e hospitais - alvos prioritários dos bombardeamentos - nas zonas libertadas.

De metralhadora em punho, elementos da Milícia Popular Armada acompanham um grupo de crianças a uma escola improvisada sob um telhado de palha. A câmara do realizador de Nô Pintcha segue-os. Filma o momento em que o grupo fica debaixo de um intenso bombardeamento e foge. Os ataques surgem a qualquer momento. "A alfabetização é um dos grandes medos dos colonialistas portugueses", diz o narrador. As imagens alternam com as palavras de Amílcar Cabral: "Lutamos para que o nosso povo seja livre, independente e soberano." Longe das posições da tropa portuguesa, a câmara filma fotografias de soldados brancos com crânios de negros mortos, como troféus.

Um "mini-Vietname"

O que diria Francis Ford Coppola destas guerras? Num dos primeiros planos de A group of terrorists attacked..., e depois de um breve retrato do país e da apresentação de alguns comandantes da guerrilha do PAIGC, a voz-off do narrador marca o tom: "Estas pessoas não querem ser portuguesas; a sua guerra é um mini-Vietname, com a diferença de que não enchem as primeiras páginas de jornais; a inspiração destes combatentes vem do Vietname do Norte; chamam-se a si nacionalistas, mas são tratados por comunistas".

O filme de Tobias Engel retrata um Exército português em desvantagem, recolhido nos aquartelamentos, e uma presença portuguesa "paralisada" nas cidades - "o mato estava interdito ao general Spínola", então governador -, enquanto os filmes da propaganda apresentam o cenário exactamente oposto.

"Sejamos dignos deles e não vacilemos da decisão", diz Marcello Caetano sobre imagens de negros e brancos, juntos sob a bandeira portuguesa, no filme Angola na Guerra e no Progresso - neste filme, também de 1971, os movimentos rebeldes são descritos como "bandos embriagados pela droga" que "destruíam tudo o que encontravam sem qualquer finalidade".

A propaganda apostava também nas actualidades cinematográficas, nos filmes de acção psicológica, feitos pelo Exército, ou nas mensagens de Natal e Ano Novo exibidas, em projectores portáteis, para os soldados portugueses no mato.

"Desde o princípio dos anos 1920, as Forças Armadas tiveram núcleos de audiovisuais. Esse sentido de propaganda era muito importante para as instituições militares portuguesas", diz José de Matos-Cruz, investigador de cinema, na Cinemateca até 2008.

Além de Angola na Guerra e no Progresso, o tenente-coronel Quirino Simões realizou também Moçambique, Missão de Combate (1968) e Guiné, a Caminho do Futuro (1971). Neles se acreditava num Portugal vítima de uma guerra imposta por movimentos terroristas, motivada por uma conspiração comunista, mas determinado a progredir e a defender a grandiosidade do seu invencível império.

Este é um sonho a desmoronar-se em Portugal - A Dream of Empire (1971), da britânica Yorkshire TV, que põe claramente em dúvida a capacidade de Portugal fazer a guerra. Como esse, os outros documentários estrangeiros dizem muito do que foi a obstinação de Portugal em manter as colónias quando os líderes africanos já as viam como nações independentes. Hoje, podem ser lidos como um prenúncio do que viria a acontecer. São eles próprios gestos de libertação.

Nascimento de uma nação

Alguns incluem imagens de arquivo feitas por africanos que lutavam pela independência. Um deles: Flora Gomes, conhecido realizador da Guiné-Bissau.

Quando começa a luta de libertação no seu país, em 1963, depois de Angola (1961) e antes de Moçambique (1964), Flora Gomes tem 14 anos. A mãe manda-o do arquipélago dos Bijagós, onde nasceu, para junto de Amílcar Cabral. Queria que entrasse na luta para seguir os estudos. Uma coisa estava ligada à outra.

E a decisão partiu de Amílcar: "Vais estudar, mas não Medicina ou Engenharia. Vais estudar cinema, porque a nossa guerra tem de ser documentada." Flora Gomes parte então para Cuba, como muitos jovens que se juntaram à guerrilha.

Mais tarde, as imagens únicas que filma da guerra de libertação são utilizadas no filme The Birth of a Nation (1973), no qual os suecos Robert Malmer e Ingela Romare registam a declaração unilateral da independência pelo PAIGC, um ano antes do 25 de Abril, na Madina do Boé.

A dupla sueca já antes tinha filmado In Our Country the Bullets Begin to Flower (1971), sobre o papel da poesia dos fundadores do movimento de libertação em Moçambique - como Marcelino dos Santos, Sérgio Vieira ou Jorge Rebelo - na mobilização para a luta.

Icónico, Amílcar Cabral, também poeta, surge nos filmes que acompanham a guerrilha do PAIGC com o carisma e a mensagem que fizeram dele um líder respeitado mundialmente, até ser assassinado em Janeiro de 1973, poucos meses depois de ter anunciado, num discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, que a Guiné-Bissau se preparava para declarar a independência de Portugal, nas zonas libertadas pelo seu movimento - mais de dois terços do território.

Mais do que uma vez, diz, em entrevista filmada, que o objectivo do PAIGC não era lutar contra Portugal ou os portugueses mas contra o domínio colonial.

Pontualmente, estes retratos "por dentro" dos movimentos de libertação são vistos em secções temáticas de festivais que focam a guerra colonial. Mas foi logo a seguir ao 25 de Abril, que o seu visionamento em sessões restritas abriu uma janela para o outro lado da guerra, cuja realidade ainda estava presente.

Nos anos da censura em Portugal, eram a PIDE e o Exército a saber primeiro da existência destes filmes, diz Joana Pimentel, responsável de aquisições de depósitos da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. Antes de a maioria destes documentários chegar ao Arquivo Nacional das Imagens em Movimentos (ANIM), departamento da Cinemateca, já estavam no Exército. Eram adquiridos e vistos pelos militares como filmes de instrução. Também o Ministério dos Negócios Estrangeiros, através das embaixadas, tentava adquirir toda a produção de televisões estrangeiras sobre Portugal, as colónias e a guerra colonial, ainda durante o Estado Novo.

Nalguns círculos em Portugal ligados a pessoas no exílio, sabia-se da sua existência. Mas cá só puderam ser vistos depois do 25 de Abril, na Casa de Angola ou no CIDAC - Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral.

O preço a pagar

Quem viu os documentários estrangeiros "ganhou um sentido mais humano e mais concreto do que se passava no outro lado" da guerra, diz José de Matos-Cruz. "Eram fortes elementos de informação, mais do que os relatórios políticos escritos e que transitavam pelos bastidores de assembleias internacionais."

Os documentários podiam ter também a sua carga política e, nalguns casos, até um pendor propagandístico pela independência.

Presente neles, um olhar político e humano sobre a realidade, sem distância e com o absurdo da guerra à flor da pele. Quando se fecha a cortina de Angola - A Journey to War, resta o testemunho do repórter. "Olho para trás e penso nas crianças e nos velhos e pergunto-me se sobreviveram, penso nas salas vazias e silenciosas das herdades portuguesas, nas coisas terríveis que se passaram neste país, penso nos jovens, nos soldados portugueses que não compreendem porque estão aqui, todos apanhados numa confusão, nenhum querendo que as coisas se passassem assim. Que horrível preço a pagar pela liberdade."