Graça Moura reescreve Os Lusíadas a meias com Camões

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A tentativa de simplificar a epopeia de Camões a benefício de leitores que não tenham ainda ferramentas culturais para ler com prazer as suas 1102 estrofes tem precedentes ilustres, entre eles uma versão em prosa de Amélia Pinto Pais ENRIC VIVES-RUBIO

Consciente de que não é fácil pôr os jovens de hoje a ler as exigentes 1102 estrofes da epopeia camoniana, Vasco Graça Moura tentou aplanar-lhes o caminho num livro em que os seus próprios versos coabitam com os de Camões

Os Lusíadaspara Gente Nova, de Vasco Graça Moura, que a Gradiva lançou há dias, é um livro que pretende tornar a epopeia camoniana mais acessível aos jovens leitores dos nossos dias. Mas se o propósito é fácil de enunciar, o resultado a que o autor chegou resiste a todas as definições. Adaptação? Antologia comentada? Versão abreviada? Guia de leitura? Qualquer uma serve, mas nenhuma lhe faz inteira justiça, porque o que Graça Moura se abalançou a fazer é algo sem precedentes: adapta, escolhe, resume, explica, comenta, mas faz tudo isto em oitava rima, o esquema estrófico e métrico que Camões usou n"Os Lusíadas.

A tentativa de simplificar a epopeia camoniana a benefício de leitores que não disponham ainda das ferramentas culturais necessárias para poder ler com prazer e proveito as suas 1102 estrofes tem ilustres precedentes, do clássico Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo, de João de Barros, ao recente Os Lusíadas em Prosa, de Amélia Pinto Pais, obra que, diz o próprio Graça Moura, "nunca será de mais enaltecer". Mas nenhum destes autores se aventurou a escrever a meias com Camões, e é isto, em boa verdade, o que o ensaísta, poeta e actual presidente do Centro Cultural de Belém se propôs fazer.

A vantagem desta opção, que conserva uma larga escolha dos versos de Camões, é óbvia. Se Os Lusíadas são ensinados nas escolas, nas aulas de Língua Portuguesa, não é pela história que narram - os alunos poderão encontrar versões mais fiáveis da gesta lusa na obra dos historiadores -, mas porque são, para usar a expressão de Graça Moura, um "monumento esplendoroso da língua". Avisando que pode "ficar mal" ser ele a dizê-lo, o autor reconhece ter "partido da ideia" de que, numa adaptação como esta, "se perde menos das valências estéticas, poemáticas e literárias" do que num resumo em prosa.

Para lá dos riscos inerentes a todas as obras de criação, Graça Moura teve plena consciência das muitas armadilhas que se lhe abriam aos pés ao atrever-se, face à "grandeza transcendente de Camões", a esta "ousadia de "bicho da terra tão pequeno"". E não o preocupou apenas a possibilidade de "as coisas correrem mal", mas também o preço que poderia ter de pagar pelo sucesso: "Abrir-se a porta a uma certa jactância equiparadora de estros, que evidentemente nunca foi a minha, mas que outros poderiam ver em mim."

Verdade seja dita que Vasco Graça Moura seria provavelmente o único candidato credível a uma tal empresa, quer pelo seu íntimo conhecimento da obra camoniana - confirmado em livros como Luís de Camões: Alguns Desafios, Camões e a Divina Proporção (sobre as redondilhas ditas de Babel e Sião), ou Os Penhascos e a Serpente e Outros Ensaios Camonianos -, quer por ser um dos miglior fabbri da poesia portuguesa contemporânea, quer ainda pelas provas dadas em outros desafios vagamente megalómanos, como os de traduzir a Comédia de Dante, ou as Rimas e os Triunfos de Petrarca, ou a integral dos Sonetos de Shakespeare, ou ainda, para não alongarmos os exemplos, os Sonetos a Orfeu e as Elegias a Duíno, de Rainer Maria Rilke. Feitos aos quais, afinal, talvez valha a pena acrescentar mais um: a tradução para português das poesias que o próprio Camões escreveu originalmente em castelhano.

No que respeita a este Os Lusíadas para Gente Nova, o escritor dispensa-se, compreensivelmente, de ser "juiz em causa própria", ainda que o facto de ter publicado o livro sugira que não ficou demasiado descontente com o resultado. Já o autor destas linhas, se lhe é permitido expor uma convicção, acredita que, no essencial, esta arriscadíssima aposta foi ganha. Não quer isto dizer, claro, que Graça Moura escreva como Camões. A aposta não era essa, nem faria qualquer sentido tentar imitar um poeta do século XVI. E ainda menos Camões, que o próprio Graça Moura considera inimitável, pelo menos se admitirmos que partilha a convicção do sujeito poético que fala nestes versos de Concerto Campestre: "(...) Um verso de Camões/ é a coisa mais bela e mais difícil do mundo/ e dá cá uma guinada tão especial que só pode ser dele." É possível que os especialistas no cânone camoniano considerem este critério de atribuição de autoria algo controverso, mas a sinceridade com que Graça Moura o formula volta a confirmar-se neste livro, quando, após explicar que Camões "à nossa língua deu um brilho novo", remata, recorrendo por uma vez sem exemplo à primeira pessoa do singular: "Só de ver como o faz eu me comovo."

Se não tenta propriamente imitar Camões, o que é que Graça Moura procura, ao certo, fazer? A resposta não é simples, porque os seus propósitos são múltiplos. De um ponto de vista formal, a utilização da oitava rima, com predominância de decassílabos heróicos, que são também os mais frequentes n"Os Lusíadas, cria uma constante rítmica que favorece um trânsito natural entre os versos de ambos os autores. Já no tom do que escreve, tanto se afasta deliberadamente do registo da epopeia como deixa entrar nos seus versos uma espécie de subtil eco camoniano.

Ensinar em verso

A título de exemplo, repare-se no último verso desta estrofe em que chama a atenção para o esquema formal de Os Lusíadas: "Para o fazer, Camões usou a oitava/ Que é feita de oito versos a rimar./ Até ao sexto as rimas alternava,/ Nos dois finais a rima vai a par./ Com oitavas assim, organizava/ Essa história que tinha de contar/ Em cantos que são dez e a nós, ao lê-los,/ Espanta como pôde ele escrevê-los."

A par da sua preocupação com "a clareza da leitura prosódica" e da sua tentativa assumida de "fazer funcionar uma espécie de naturalidade da dicção", Graça Moura evitou sensatamente elidir os mais de 400 anos que separam Camões dos seus jovens leitores de hoje, assumindo-se ele próprio como um "co-narrador" contemporâneo. Num passo em que aborda o modo como o poeta retrata a deusa Vénus, diz: "Camões descreve-a assim, meio despida,/ E, no tempo em que escreve, essa nudez/ Era coisa imoral e atrevida/ E proibida (mas que estupidez!);/ Ele soube porém dar-lhe tal vida/ E tanto encantamento dessa vez,/ Que a censura não pôs nessa manhã,/ Bola vermelha ao canto, sobre o ecrã."

Ao longo do livro, e à medida das necessidades de quem se propõe "ir contando uma história a quem ainda não tem muitas pistas para a compreender", esta espécie de narrador suplementar vai assumindo uma complexa e diversificada gama de funções. "O contraponto de comentários, interpelações do leitor, chamadas de atenção, registos variados, de uma voz que conta, descreve, interpreta, interfere, simplifica, substitui cirurgicamente este ou aquele termo difícil, dialoga com o autor e com o leitor, não obedeceu", diz o autor, "a um programa prévio." E é bem possível que essa sua opção por navegar à vista, sem mapa nem roteiro, tenha acabado por contribuir para a naturalidade com que esta segunda voz do livro vai assumindo sempre novas qualidades.

Mas o mais paradoxal dos méritos desta obra talvez seja o que nela foi suprimido. Destinando-a "aos leitores mais novos, digamos entre os 12 e os 15 anos", que poderiam sentir-se intimidados pela extensão da epopeia, Graça Moura reduz as 1102 estrofes originais a 365, somados já os versos de Camões (grafados em itálico) e os da sua própria autoria.

Claro que quase tudo o que caiu é bom, e o autor não se cansa de exortar os leitores a que leiam Os Lusíadas na íntegra. Mas as rasuras são suficientemente judiciosas para permitir que o livro funcione como um todo e se leia sem hiatos desconcertantes ou saltos bruscos. E Graça Moura teve o cuidado de conservar todas essas passagens da epopeia que, de tão citadas, alcançaram uma espécie de posteridade própria e, em alguns casos, entraram mesmo, como o próprio observa, "na utilização corrente da língua". O verso "se mais mundo houvera, lá chegara" é um exemplo entre muitos.

Para se ficar com uma ideia da estrutura da obra, o Canto I, que n"Os Lusíadas comporta 106 estrofes, tem aqui 35, sendo 12 integralmente conservadas do original, outras 12 são da exclusiva lavra de Graça Moura, contendo as 11 restantes versos ou parte de versos de ambos os autores. Falar num livro "a meias" não é, portanto, força de expressão.

Sendo quase naturalmente destinado às escolas, Os Lusíadas para Gente Nova não é, contudo, uma típica edição escolar. Não há aqui notas, nem glossário, nem indicação de versos suprimidos. Um aparato que poderia não ser inútil, mas que inevitavelmente poluiria o prazer de ler o poema. E também não há uma introdução em prosa, substituída por 18 estrofes agrupadas sob o título "Sabemos muito pouco de Camões", nas quais o autor apresenta resumidamente a biografia do poeta, informa das circunstâncias em que a epopeia foi escrita e editada, trata questões de género literário e de esquemas formais, mostra como Camões entrelaçou a gesta portuguesa com o universo da mitologia greco-latina, aponta a influência que nele exerceram os autores clássicos e avalia o impacto d"Os Lusíadas na própria língua portuguesa. Tudo isto, note-se, em decassílabos...

Assumidamente pedagógico, o que este livro seguramente não representa é uma conversão de Graça Moura à condescendência que há muito vem criticando no sistema de ensino. "Se os programas de Português não tivessem sido odiosamente viciados no tocante aos grandes nomes da nossa literatura e ao contacto com as suas obras, provavelmente nunca me teria ocorrido a ideia deste livro", confessa.

Reconhecendo que "a obra camoniana é difícil" e que exige "um bom estudo do léxico e da sintaxe", argumenta que estas dificuldades "nunca foram obstáculo à sua leitura, a não ser nos últimos tempos, em que tem campeado a lei do menor esforço e da idiotia erigida em sistema de protecção dos pobres estudantes desamparados".