ESQUEMA DE PIRÂMIDE DEMOGRÁFICA INVERTIDA

Há 30 anos um casal português partilhava o carro, a televisão e o telefone. Hoje em dia cada um tem um carro, uma televisão e um telefone só para si. E o individualismo chegou também ao Estado social: cada um tem agora um pensionista só para si.

Em 1982, por cada reformado descontavam quatro contribuintes. Hoje é só um. Os meus pais não tinham um aposentado só deles, dividiam com outro casal. A minha geração é tão egoísta que nem um velhinho sabe partilhar.

E a tendência é a ganância piorar, com cada contribuinte a aforrar o maior número de reformados possível. Há miúdos recém-entrados no mercado de trabalho que já têm mais de dois pensionistas. Garganeiros.

Em breve vai haver um contribuinte que acabará por ter o monopólio de reformados. Os descontos de um só português vão sustentar 10 milhões. Há-de estar a nascer esse Messias que, em vez de uma cruz, carregará às costas o sistema nacional de pensões inteiro.

Parece que a culpa é da demografia. Diz-se que "nada é certo, tirando a morte e os impostos". O problema é que em Portugal a morte chega cada vez mais tarde, o que agrava os impostos dos poucos que nascem. A proporção entre trabalhadores e reformados está a diminuir. Em 1982, um reformado aos 65 anos podia esperar viver mais 12. Agora vive mais 19. Vive mais tempo, mas em piores condições.

O Estado social está-se a transformar num esquema de pirâmide, em que quem chega agora investe, mas quando se reformar não vai receber. É que nessa altura já não haverá ninguém para descontar. Neste caso, uma pirâmide demográfica invertida.

(É curioso que aquilo que é a base do Estado social seja proibido pela alínea r) do art.º 8.º do Decreto-Lei 57/2008 de 26/3, sobre boas práticas comerciais. É prática comercial enganosa: "Criar, explorar ou promover um sistema de promoção em pirâmide em que o consumidor dá a sua própria contribuição em troca da possibilidade de receber uma contrapartida que decorra essencialmente da entrada de outros consumidores no sistema".)

O importante é que ainda temos mais alguns anos de Segurança Social. E quem se vai tramar é gente que neste momento ainda não sabe ler. Estamos safos.

Vivemos um momento único na história do Estado social. O momento em que o contribuinte desconta em exclusivo para um pensionista específico. Antes eram vários contribuintes para um só pensionista, em breve serão vários pensionistas só com um contribuinte. Há que aproveitar a oportunidade para humanizar o sistema.

É por isso que desejo conhecer pessoalmente o meu reformado. Uma coisa é dividir um com mais três pessoas, outra é tê-lo só para mim. A relação fica mais pessoal. Teremos coisas em comum? Se calhar gostamos os dois do Ídolos. E temos uma predilecção por casacos de malha (eu por causa do estilo, ele por causa das correntes de ar). Quero saber quem é este idoso a quem, ao fim de uma vida de trabalho, proporciono o merecido descanso. Quero-me certificar de que não precisa de nada, tem saúde e está para durar. E depois vou pedir para trocar por outro.

Sugerir correcção