Ordem vai lutar pela comparticipação das consultas de psicologia

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Telmo Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos, criada há menos de dois anos, tem como tarefas regular a actividade de 18 mil profissionais e lutar pela afirmação da psicologia no país

Há muito que os psicólogos lutavam por uma Ordem. Telmo Baptista é o primeiro bastonário e está disposto a arrumar a casa. Quer criar especialidades e definir bem o que cada psicólogo deve fazer. Não basta ter um curso, diz.

O que mais o preocupa como bastonário dos Psicólogos?

A primeira preocupação é dar a conhecer o que os psicólogos fazem em prol do bem-estar das pessoas nas diferentes áreas - na escola, clínica, empresas, justiça. E na área emergente do desporto, na optimização de rendimento das equipas de trabalho, a chamada psicologia da alta performance. Há muitas áreas, o que torna difícil a nossa tarefa. Temos de ter uma relação com muitos ministérios.

Já não basta ser licenciado para exercer psicologia, é obrigatório estar inscrito na Ordem. Colocam-se os mesmos problemas que se têm verificado com a advocacia com os exames de acesso à profissão?

No caso da psicologia isso não se põe, porque a entrada na Ordem é sempre feita com cinco anos de base. A designação de licenciado nunca permite às pessoas inscreverem-se, são necessários dois ciclos de estudos em Psicologia e um ano de estágio.

Que outras prioridades tem?

Há que fazer trabalho de influência sobre os decisores políticos aos vários níveis. Conseguir ter uma cobertura em termos psicológicos em Portugal que seja muito melhor do que a que existe. Na área dos cuidados de saúde primários, por exemplo, há 221 psicólogos para mais de 400 centros de saúde. É pouco.

Porquê?

Continua a achar-se que a saúde mental é um luxo. Já produzimos um relatório para o ministro da Saúde que mostra o que se fez e faz em todo o mundo, por exemplo em Inglaterra, na área da saúde em termos da psicologia.

As consultas de psicologia continuam de facto a ser um luxo para muita gente, visto que não são comparticipadas.

A psicologia era quase sempre um factor de exclusão em todos os seguros de saúde. Estamos a negociar para que os seguros comparticipem as consultas de psicologia. A psicologia teve de fazer este percurso em todo o mundo, impor-se.

Em Portugal já se impôs?

Não.

O que falta?

Dizer o que fazemos, convencer os decisores com dados reais que temos contributos para dar.

Como por exemplo, nas escolas...

Com os problemas que temos hoje nas escolas devíamos ter muito mais gente a trabalhar. Nos programas de transição de ciclos, por exemplo. Os miúdos têm problemas de adaptação sérios na transição de ciclos pela natureza dos estudos, pelos parceiros, pelos professores... Nós temos um nível de abandono escolar gigantesco, um dos maiores da OCDE, e o factor psicológico tem um papel muito importante.

Que contributos podem dar os psicólogos que trabalham no sector empresarial?

Devíamos criar em Portugal mais líderes a todos os níveis. Temos algum défice no que respeita a organizar e liderar processos.

Há uma grande desorganização na sociedade portuguesa?

Há uma crescente desesperança.

E um líder responde à desesperança?

Responde, motivando as pessoas, mostrando caminhos. Quando falo em liderança, não estou a falar de líderes políticos. Acho que os países desenvolvidos têm líderes a todos os níveis. Nos bairros, nas associações desportivas...

E é nisso que o psicólogo pode ajudar...

Sem dúvida, a desenvolver competências para a liderança, de organização e de comunicação. Sou um grande defensor de que a escola devia ajudar a desenvolver uma espécie de aprendizagens invisíveis, sobretudo as que têm que ver com a capacidade de comunicar com os outros, do ponto de vista das próprias emoções, aquilo que se chama a inteligência emocional. Uma das aprendizagens que luto muito para que se faça é a de falhar sem que nos sintamos mal com isso. Geralmente há alguém com o dedo apontado a dizer-nos que falhámos e não nos dizem que falhar é uma das formas de aprender.

E as escolas não transmitem isso?

Não, nós queremos que os nossos filhos façam tudo depressa e bem, não damos tempo a que falhem e aprendam com o que correu mal. Temos de ter um plano para ajudar as pessoas a terem iniciativas e a não ter medo de arriscar.

Há psicólogos que exercem em áreas para as quais não têm competências, como nas terapias. Como vai Ordem actuar nestes casos?

Isso será definido quando criarmos as especialidades. Ao defini-las, vamos estabelecer o percurso que as pessoas têm de fazer para se tornarem especialistas. É um trabalho que ainda está a ser feito. Mas há um preceito muito claro no nosso código deontológico que estabelece que ninguém deve exercer nenhuma função para a qual não tenha tido formação.

Desde que a Ordem foi criada quantas queixas já receberam?

Mais de 60 que estão a ser tratadas pelo conselho jurisdicional, quase todas em inquérito.

Que tipo de queixas receberam?

Queixas de doentes, de colegas sobre colegas e de psicólogos que se queixam das organizações onde estão.

Quais são as que predominam?

As que têm que ver com a regulação do poder parental. Muitas pessoas não concordam com a forma como foram feitos os relatórios e queixam-se.