Mesmo sob pressão, golpistas dissolveram instituições

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Os habitantes de Bissau continuam a deixar a capital em direcção ao interior do país SEYLLOU/afp

Em Bissau, viveu-se ontem mais um dia de incerteza e expectativa numa missão da África Ocidental. Na prisão, primeiro-ministro recebeu visita da Cruz Vermelha

Bissau amanheceu ontem sem tiros mas com um clima de tensão crescente e o receio de que qualquer movimento em falso no terreno, depois da pressão internacional do fim-de-semana, pudesse desencadear um conflito.

Depois da resolução da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) lançar sérias advertências aos golpistas e do anúncio do envio de uma força de reacção das Forças Armadas portuguesas para a eventual retirada de portugueses da Guiné, muitas pessoas foram vistas a abandonar a cidade em direcção ao interior do país.

"A reacção da comunidade internacional produziu um efeito" sobre as pessoas, disse ao PÚBLICO um residente em Bissau que não se identifica para protecção. "Há menos movimento nas ruas e o movimento mais intenso que houve foi na saída de Bissau, esta manhã. Muitas famílias estavam a apanhar carros para ir para o interior." Desde sábado, a situação "mudou para pior".

"Há um clima de intimidação muito grande", acrescentou. "Não se pode falar. Não se vêem militares na rua, mas são tudo fantoches. Há pessoas à paisana entre nós. Houve pessoas levadas e espancadas só por falarem mal dos militares sem saber que estavam a ser ouvidos."

Uma manifestação a favor da paz, à semelhança da que fora reprimida pelos militares no domingo, estava prevista mas acabou por não se realizar.

Mas a chegada de uma missão da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) a Bissau terá acalmado as intenções de uma população que se diz "revoltada" por mais esta crise militar. As centrais sindicais, mesmo assim, mantiveram o apelo a uma paralisação, pedindo às pessoas para não irem trabalhar, em sinal de protesto contra a acção dos golpistas.

A delegação da CEDEAO, que chegou já ao final do dia a Bissau, deveria entregar uma mensagem dos chefes de Estado da região confirmando a sua rejeição do golpe de Estado e "insistindo na imediata reposição da ordem constitucional".

Havia a expectativa de uma verdadeira pressão da CEDEAO sobre os golpistas para uma solução negociada e para uma visita aos presos políticos - entre os quais o primeiro-ministro e candidato mais votado na primeira volta das presidenciais, Carlos Gomes Júnior, e o presidente interino Raimundo Pereira.

Número de presos em aberto

No sábado, um elemento do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Bissau fez uma visita "breve" e "de urgência" a Carlos Gomes Júnior para lhe entregar os medicamentos de que necessita para controlar a diabetes, disse ao PÚBLICO por telefone, a partir do Senegal, o porta-voz do CICV na região, Denes Benczedi.

"Pudemos entrar para lhe entregar os medicamentos", disse Denes Benczedi, que não quis descrever o estado de Carlos Gomes Júnior nem onde está detido. "Ele está bem como uma pessoa pode estar bem nestas circunstâncias. É uma situação sem dúvida muito complicada para ele." Benczedi ressalvou ainda que esta não foi uma visita nos moldes habituais do CICV, mas que apenas durou "poucos minutos". Sobre a possibilidade de outras figuras ligadas ao Governo estarem presas, o CICV não pode, neste momento, adiantar qualquer informação.

O porta-voz em Dacar também não soube dizer quantas pessoas poderão estar detidas, se algumas continuam a ser perseguidas e em fuga devido às ameaças de morte que têm recebido.

Golpistas "em controlo"

O Comando Militar apelou à calma da população num comunicado em que também garantiu que a situação estava "sob o total controlo" do Comando Militar.

Na véspera, anunciaram, com uma parte da oposição, a dissolução das instituições e órgãos de soberania - Governo, presidente interino e Parlamento - e a entrega do poder a um Conselho Nacional de Transição.

A sua composição ainda não era conhecida ontem quando as manobras políticas começaram a tornar-se visíveis. Os cinco candidatos que contestaram as presidenciais de 18 de Março na Guiné-Bissau falaram pela primeira vez sobre o golpe, distanciando-se e condenando-o, e ao mesmo tempo criticando duramente a CPLP pelo apoio ao Governo deposto.

Foi Kumba Ialá, líder do PRS, ex-presidente e segundo candidato mais votado, quem falou em nome dos cinco para dizer que os partidos da oposição "condenam firmemente a sublevação militar" e "exigem a rápida reposição da ordem constitucional".

Esta posição é vista por um diplomata especialista em África como um mau sinal. Em primeiro lugar, porque não há qualquer referência ao primeiro-ministro e presidente presos pelos golpistas desde quinta-feira.

A palavra "reposição" é usada, no comunicado, apenas em relação à "constitucionalidade", mas não há referência a uma "reposição da ordem" nem um apelo à libertação dos políticos presos e ao regresso aos seus cargos. O comunicado é por isso interpretado como sendo o início do que alguns dizem ser uma "prática conhecida" em África, e na própria Guiné-Bissau: tentar mascarar o golpe com uma fachada legítima, procurando uma saída política negociada para assim se manterem numa nova posição de poder até às próximas eleições. "Já vimos isso acontecer antes: mascarar um golpe com uma aparente legalidade."

Também no domingo, as Forças Armadas, como se apresentaram, e não enquanto Comando Militar como se tem apresentado a liderança do golpe, anunciaram o encerramento do espaço aéreo e marítimo. E avisaram que "qualquer entrada no país" sem "autorização prévia do Estado-Maior", teria "automaticamente uma resposta militar", lia-se no comunicado divulgado pela agência Lusa. A declaração seguiu-se ao anúncio do envio de uma Força de Reacção Imediata das Forças Armadas portuguesas e de uma resolução da CPLP na qual eram defendidas sanções individualizadas aos responsáveis do golpe que mantivessem a "persistência na ilegalidade" e pediam ao Conselho de Segurança um mandato da ONU para uma força de interposição no país. com Bárbara Reis